
"O que está acontecendo na Palestina, não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico." Gandhi
Introdução
Palestina
é o nome do território situado entre o Mediterrâneo a oeste, o rio Jordão e
o Mar Morto a este, a chamada Escada de Tiro a norte (Ras en-Naqura/Roch
ha-Niqra, fronteira com o Líbano) e o Wadi el-Ariche a sul (fronteira com o
Sinai, tradicionalmente egípcio). Com 27.000 Km2,
a Palestina é formada, de um modo geral, por uma planície costeira, uma faixa
de colinas e uma cadeia de baixas montanhas cuja vertente oriental é mais ou
menos desértica.

A
Palestina foi habitada desde os tempos pré-históricos mais remotos. A sua história
esteve geralmente ligada à história da Fenícia, da Síria e da Transjordânia,
limítrofes. Talvez por causa da sua situação geográfica – faz parte do
corredor entre a África e a Ásia e ao mesmo tempo fica às portas da Europa
– a Palestina nunca foi sede de um poder que se estendesse para além das suas
fronteiras. Pelo contrário, esteve quase sempre submetida a poderes
estrangeiros, sediados na África, na Ásia ou na Europa. Em regra geral, foi só
sob as potências estrangeiras que ela teve alguma unidade política.

De
fins do II milênio a.C. a meados do Século XIX
Entre
os antigos povos da Palestina, os Filisteus foram talvez os que maior influência
exerceram até aos últimos séculos da era pré-cristã. Com efeito, não deve
ter sido por acaso que o seu nome foi dado a toda a região, a Palestina, isto
é, o país dos Philisteus. Com o sentido que se tornou habitual, o nome já está
documentado nas Histórias de Heródoto em meados do séc. V a. C. Apesar da sua
importância na antiguidade, conhecem-se muito pouco os Filisteus e a história
dos seus reinos. A razão óbvia dessa ignorância é a inexistência de uma
biblioteca ou de bibliotecas filistéias comparáveis ao Antigo Testamento.
Praticamente tudo o que se sabe ou se pensa saber sobre os Filisteus se baseia
nos escritos bíblicos. Por conseguinte, a posteridade só conhece os Filisteus
na medida em que eles estão em relação com Israel, com Judá, ou com os
judeus. Além disso, são vistos através dos olhos daqueles que foram os seus
concorrentes e, não raro, seus inimigos declarados. De fato, a posteridade, de
maneira geral, não se interessa pelos Filisteus nem os estuda por si mesmos,
mas só por causa da sua relação com a história bíblica. Tudo isso deformou
a visão que se tem deles, do lugar que ocuparam e do papel que desempenharam,
aparecendo os Filisteus como um elemento marginal na história da Palestina
antiga. Esse erro de perspectiva influencia, sem dúvida alguma, a visão
corrente que se tem da atual Palestina, da sua composição étnica e da sua
situação política.
Os
vários reinos palestinenses1,
filisteus e hebraicos, coexistiram durante séculos. Ora guerrearam entre si,
ora se aliaram para sacudir o jugo de alguma grande potência do momento. A
primeira vítima desse jogo foi Israel, conquistado e anexado pela Assíria em
722 a. C. Desde então até 1948 não houve nenhuma entidade política chamada
Israel. Os reinos filisteus e o reino de Judá continuaram a existir sob a
dependência da Assíria, a grande potência regional entre o séc. IX e fins do
séc. VII a. C., cujo território nacional se situava no norte da Mesopotâmia,
no atual Iraque.
No
fim do séc. VII a. C., o Egito e a Babilônia, a outra grande potência mesopotâmica,
com a sede no sul do Iraque atual, disputaram os despojos do Império Assírio.
Tendo a Babilônia levado a melhor, a Palestina ficou-lhe submetida durante
cerca de oito décadas. De um modo geral, as histórias, focadas como estão em
Judá, falam só da conquista desse reino por Nabucodonosor, da deportação
para a Babilônia de parte da sua população, da destruição de várias das
suas cidades, nomeadamente de Jerusalém com o templo de Iavé (597 e 587 a.
C.). Deve-se no entanto reparar que os reinos filisteus de Ascalão e de Ekron,
conquistados por Nabucodonosor respectivamente em 804 e em 803, tiveram um
destino semelhante.
Em
539 a. C. a Palestina passou com o resto do império babilônico para as mãos
dos Persas Aquemênidas. Sabe-se que estes entregaram a administração do
território de Judá, pelo menos de parte dele, a membros da comunidade judaica
da Babilônia. Em 331 a Palestina foi conquistada pelo macedônio Alexandre
Magno. Após a morte deste, ficou primeiro sob o domínio dos Lágidas ou
Ptolomeus que tinham a capital em Alexandria, no Egito (320-220 a. C.). Depois
passou para a posse dos Selêucidas sediados em Antioquia, na Síria (220-142 a.
C.). Entre 142 e 63 a. C, os Asmoneus, uma dinastia judaica, com Jerusalém como
capital, conseguiu não só libertar-se do poder selêucida, mas até impor o
seu domínio praticamente em toda a Palestina, e também nos territórios
filisteus. Nessa altura a grande maioria dos judeus já vivia fora da Palestina,
encontrando-se dispersos em todo o Próximo Oriente. A dispersão deveu-se
sobretudo à emigração e, numa medida muito menor, às deportações de 597 a
587. Os principais centros judaicos fora da Palestina eram então Alexandria e
Babilônia. Profundamente helenizados, os judeus de Alexandria liam as suas
Escrituras em grego, e a eles deve-se a coletânea de escritos que se tornará o
Antigo Testamento cristão.
Em
63 a. C., a Palestina passou a fazer parte do Império Romano dentro do qual não
teve sempre o mesmo estatuto. Por voltas de meados do séc. I da era cristã, os
judeus da Palestina tentaram libertar-se do domínio romano. Houve primeiro várias
sublevações locais. Em 66 a revolta generalizou-se. Em 70 os Romanos
conquistaram Jerusalém e destruíram o templo judaico. Os judeus da Palestina
voltaram a revoltar-se em 131. Após ter esmagado a revolta, em 135, o imperador
Adriano fez de Jerusalém uma colônia romana, Colonia Aelia Capitolina, da qual
os judeus estiveram excluídos durante algum tempo. Com a ruína do templo e o
fim da autonomia judaica na Palestina desapareceu a maioria dos grupos político-religiosos
nos quais o judaísmo, sobretudo o judaísmo palestinense, estava então
dividido. Praticamente só ficaram em campo dois grupos: o farisaísmo e o
cristianismo, recém-formado. Os dois grupos acabaram por separar-se e evoluíram
de maneira independente, em concorrência e, não raro, em conflito. O farisaísmo
deu origem ao judaísmo rabínico, isto é, o judaísmo atual.
Graças à cristianização do império romano, a Palestina, palco dos acontecimentos fundadores do cristianismo, adquiriu uma grande importância para o mundo cristão, sobretudo para os cristãos que se encontravam dentro do império romano. Por isso durante o período bizantino (324-638) a Palestina conheceu uma prosperidade e um crescimento demográfico notáveis. Durante esse período a esmagadora maioria da sua população tornou-se cristã. Em 614 os Persas Sassânidas invadiram a Palestina, onde causaram grandes estragos. Ocuparam-na até 628, ano em que os Bizantinos a reconquistaram, mas por pouco tempo.
Com
efeito, dez anos mais tarde, em 638 toda a Palestina passou para o domínio arábico-muçulmano.
Este exerceu-se através de uma sucessão de dinastias, de origens, de etnias e
com capitais diferentes. A primeira dessas dinastias, a dos Omíadas (660-750),
com a capital em Damasco, foi uma das que mais marcou a Palestina, nomeadamente
com a construção do Haram ech-Cherife (o Nobre Santuário/Esplanada das
Mesquitas) no lugar que ocupara outrora o templo judaico, tornando Jerusalém na
terceira cidade santa do islamismo. Seguiram-se os Abássidas (750-974) e os
Fatimidas (975-1071), com as capitais respectivamente em Bagdá e no Cairo.
Entre 1072 e 1092 a Palestina esteve sob os Turcos Seldjúcidas, que então
tinham a sede em Bagdá.
Embora
não tenha dado origem a uma imigração popular e, por conseguinte, não tenha
mudado a composição étnica e a demografia de maneira apreciável, o regime árabo-muçulmano
teve como conseqüência a arabização e a islamização da Palestina. A
arabização2,
nomeadamente da população cristã de língua aramaica, língua aparentada com
o árabe, deu-se muito depressa. Não se pode dizer o mesmo da islamização.
Apesar de o islamismo se apresentar como o acabamento da tradição bíblica,
partilhada pelo cristianismo, pelo judaísmo e pelo samaritanismo, o processo de
islamização da população palestinense (cristã, judaica e samaritana) parece
ter sido muito lento. Em 985, após três séculos e meio de regime islâmico, o
geógrafo árabe-muçulmano de Jerusalém, conhecido pelo nome de el-Maqdisi
("o jerosolimitano") lamenta-se de que os cristãos e os judeus são
maioria na sua cidade natal. O que el-Maqdisi escreve a respeito da Jerusalém
de fins do séc. X valia para o conjunto da Palestina e continuou provavelmente
a valer durante cerca de mais dois séculos e meio.
Organizada
com o intuito declarado de arrancaro túmulo de Cristo das mãos dos "infiéis",
a primeira cruzada terminou, em 1099, com a conquista de Jerusalém e, no ano
seguinte, a criação do Reino Latino de Jerusalém. Este manteve-se até 1187,
tendo sido então conquistado pelo curdo Saladino, o fundador da dinastia
ayúbida.
Aos Ayúbidas seguiram-se os Mamelucos, primeiro turcos (1250-1382) e depois
circassianos (1382-1516). Os Ayúbidas e os Mamelucos tiveram a capital no
Cairo. Segundo a maioria dos especialistas da questão, foi durante o período
mameluco que teve lugar a grande vaga da islamização popular da Palestina.
Desde então até à segunda metade do séc. XX, os muçulmanos constituíram a
esmagadora maioria da população. Do ponto de vista numérico, o segundo grupo
era constituído pelos cristãos, seguidos, de muito longe, pelos grupos dos
judeus e dos samaritanos. Em 1517 a Palestina passou para o poder dos Turcos
Otomanos, cuja capital era Istambul.

Desde
meados do Século XIX
Começos
do sionismo

A
situação começou a mudar no século XIX. No contexto do triunfo das
ideologias nacionalistas e da idéia do estado nacional, surgiu entre os judeus
laicos da Europa central e oriental um movimento nacionalista secular cujo
objetivo era a criação de um estado dos judeus, sendo este considerado como o
único meio de assegurar a identidade e a sobrevivência da nação judaica,
assim como de lhe garantir um lugar ao sol entre as demais nações. Para os
seus partidários, o dito estado tomou de certo modo, sob uma forma
secularizada, o lugar que a utopia da "redenção de Israel" ocupa na
tradição religiosa. Contrariamente à reunião de "Israel" da utopia
religiosa, o estado projetado pelos nacionalistas judeus não tinha
necessariamente a Palestina por cenário. Com efeito, o seu principal promotor, Teodoro
Herzl
(1860-1904)3,
encarou a possibilidade de o criar na Argentina. Falou-se também de Chipre, da
África oriental e do Congo. Diga-se de passagem que a liberdade na escolha do
futuro "território nacional" de que deram mostras os nacionalistas
judaicos se explica pelo fato de se viver então na Europa no apogeu do sonho
colonialista. Consideravam-se colonizáveis todos os territórios situados fora
da Europa. Colonizá-los era tido por uma obra benemérita, pois era
"civilizá-los".
Os
nacionalistas judaicos não tardaram a optar pela Palestina. Essa escolha,
embora não fosse necessária, era natural e particularmente mobilizadora, por
causa da ligação do judaísmo à Palestina e da atração que ela exerce mesmo
sobre muitos judeus que não são religiosos ou originários desse país. O
nacionalismo judaico tomou assim o nome de sionismo, palavra que deriva de Sião,
um dos nomes de Jerusalém na Bíblia. Repare-se também que a escolha da
Palestina se enquadrava nos projetos coloniais das potências européias,
sobretudo da Grã-Bretanha e da França, que preparavam a partilha dos despojos
do império otomano decadente. Foi sem dúvida por isso que o projeto sionista
vingou.
Para
a maioria esmagadora dos rabinos da Europa central e oriental que se encontraram
confrontados com ele, o projeto dos sionistas de criar o estado dos judeus,
apoiando-se para isso nos seus próprios meios políticos, diplomáticos e econômicos,
era a negação da esperança na "redenção de Israel" por iniciativa
e obra exclusivas de Deus. Por isso, condenaram o sionismo como uma manifestação
de orgulho, o pecado por excelência. O partido Agudat Israel (União/Associação
de Israel) fundado em Kattowitz (Silésia, Polônia) em 1912, Encarnou essa posição.
O dito partido propunha-se reunir todos os judeus fiéis à Lei para se oporem
ao nacionalismo sionista considerado como uma ameaça mortal para o "autêntico
judaísmo". No entanto, na década de 1930, o Agudat Israel mitigou, por
pragmatismo, a sua oposição ao sionismo, aceitando que a Palestina se tornasse
o refúgio para os judeus europeus perseguidos. Em 1948 reconheceu de fato as
instituições do Estado de Israel. Participou em todas as eleições
legislativas israelitas6
e em vários governos. No entanto, algumas facções minoritárias não
aceitaram a mudança de orientação. Além de persistirem na negação da
legitimidade religiosa do Estado de Israel e na recusa de qualquer colaboração
com ele, tornaram-se críticos acérrimos da sua política. Entre os pequenos
grupos representantes dessa tendência, o dos Neturei Karta (Guardiães da
Cidade) é atualmente o mais conhecido.
Uma
minoria entre os judeus religiosos da Europa central e oriental aceitou bastante
cedo colaborar com os sionistas. Um dos primeiros expoentes desta posição foi
o rabino Isaac Jacob Reines (1839-1915), nascido em Karolin, na Bielorússia. Na
origem, essa posição tinha sobretudo por objetivo não deixar aos seculares o
monopólio do socorro prestado aos judeus pobres e perseguidos. Encarnou-a o
Mizrahi (Centro Espiritual) fundado em Vilnius (Lituânia) em 1902. Segundo essa
corrente do judaísmo religioso, nada impede a colaboração com o sionismo,
pois este não é incompatível com a tradição. A razão que ela dá funda-se,
paradoxalmente, no caráter inteiramente materialista e político do sionismo.
Dado o seu teor, o sionismo não pode fazer concorrência à esperança messiânica,
que se situa num plano completamente diferente. A idéia da coexistência pacífica
do judaísmo religioso e do sionismo depressa cedeu o lugar a uma integração
da ideologia sionista dentro do sistema religioso tradicional. O autor dessa
integração foi o rabino Abraão Isaac Hacohen Kook (1865-1935) nascido em
Griva na Letônia, primeiro Rabino-Mor askenaze da Palestina (1921-1935).
Contrariamente aos seus homólogos do Agudat Israel, o rabino Kook vê no
sionismo um instrumento de que Deus se serve para dar início à "redenção
de Israel", e no Estado dos judeus a aurora da redenção ou do reino de
Deus. Os principais herdeiros atuais desta concepção do sionismo são o
Partido Nacional Religioso e o Guch Emunim (Bloco da Fé), que reúne os
opositores mais irredutíveis à devolução de qualquer parcela da Cisjordânia
e da Faixa de Gaza conquistadas por Israel em 1967, assim como os colonizadores
mais zelosos desses territórios.
O
sionismo provocou também clivagens entre os judeus secularizados. Uns abraçaram-no
com mais ou menos entusiasmo e agiram ou não em conformidade, outros
serviram-se dele para diferentes fins, outros olharam-no com indiferença e
outros ainda rejeitaram-no terminantemente, por razões políticas, morais,
culturais ou sociais. Além dos anti-sionistas religiosos, os autênticos adversários
do sionismo são ainda hoje judeus seculares, o que é natural, na medida em que
a questão diz diretamente respeito a uns e a outros.
A
Primeira Guerra Mundial e a Palestina

De
fato, as forças britânicas, às quais se renderam as forças turcas em Jerusalém
a 9 de Dezembro de 1917, terminaram a ocupação da Palestina em Setembro de
1918. A Palestina ficou então sob administração militar britânica, a qual
foi substituída por uma administração civil a 1 de Julho de 1920. Entretanto,
na Conferência da Paz reunida em Paris, em Janeiro de 1919, as Potências
Aliadas decidiram que os territórios da Síria, do Líbano, da Palestina/Transjordânia
e da Mesopotâmia não seriam devolvidos à Turquia, mas passariam a formar
entidades distintas, administradas segundo o sistema dos Mandatos. Criado pelo
artigo 22 do Pacto da Liga das Nações a 28 de Junho de 1919, o sistema dos
Mandatos destinava-se a determinar o estatuto das colônias e dos territórios
que se encontravam sob o domínio das nações vencidas. O dito documento
declara que "algumas comunidades outrora pertencentes ao Império Turco
atingiram um estado de desenvolvimento" que permite reconhecê-las
provisoriamente como nações independentes. Em relação a essas nações, o
papel das potências mandatárias seria ajudá-las a instalar a sua administração
nacional independente. O mesmo documento estipula ainda que os desejos dessas nações
devem ser uma consideração principal (a principal consideration) na escolha da
potência mandatária. Na conferência de San Remo a 25 de Abril de 1920, o
Conselho Supremo Aliado repartiu os Mandatos para essas nações entre a França
(Líbano e Síria) e a Grã-Bretanha (Mesopotâmia, Palestina/Transjordânia). O
Mandato para a Palestina, que incorpora a Declaração Balfour sobre o
estabelecimento do "lar nacional para o povo judaico", foi aprovado
pelo Conselho da Liga das Nações a 24 de Julho de 1922, tornando-se efetivo a
29 de Setembro do mesmo ano. Ao abrigo do disposto no art. 25 do Mandato para a
Palestina, o Conselho da Liga das Nações decidiu a 16 de Setembro de 1922
excluir a Transjordânia de todas as cláusulas relativas ao lar nacional
judaico, e dotá-la com uma administração própria. De fato, o território que
os sionistas pretendiam para nele estabelecer o seu estado era bastante mais
vasto do que a Palestina. Abarcava também toda a parte oeste da Transjordânia,
o planalto do Golã e a parte do Líbano a sul de Sidão.

Pelo
gesto e pelo mapa, não lhes basta a Palestina.
Como
previsto, todas
essas nações se tornaram efetivamente independentes no curso das três décadas
seguintes: O Iraque (Mesopotâmia) a 3 de Outubro de 1932; o Líbano, a 22 de
Novembro de 1943; a Síria, a 1º de Janeiro de 1944 e, finalmente, a Transjordânia,
a 22 de Março de 1946. A única exceção foi a Palestina.
A
Organização Sionista Mundial tinha entretanto amadurecido esse projeto e
tinha-lhe granjeado apoios muito sólidos, vindo-lhe o principal da Grã-Bretanha.
Esta expressou o seu patrocínio ao projeto sionista na já referida Declaração
Balfour. Trata-se de uma carta que A. J. Balfour, Ministro dos Negócios
Estrangeiros, escreveu, a 2 de Novembro de 1917, ao Lorde L. W. Rothschild,
representante dos judeus britânicos, e, por seu intermédio, à Federação
Sionista. Numa altura em que a Palestina ainda era oficialmente território
turco, o Governo de Sua Majestade Britânica declara à Federação Sionista ver
com bons olhos o estabelecimento de "um lar nacional para o povo
judaico" nesse país e compromete-se a fazer todo o possível para
facilitar a realização desse projeto. A carta acrescenta uma ressalva segundo
a qual "nada deverá ser feito que prejudique os direitos cívicos e
religiosos das comunidades não-judias que existem na Palestina". As ditas
"comunidades não-judias" constituíam então um pouco mais de 90 % da
população. De fato, em 1918, a Palestina tinha 700.000 habitantes: 644.000 árabes
(574.000 muçulmanos e 70.000 cristãos) e 56.000 judeus.
A
Declaração Balfour era originalmente um compromisso que a Grã-Bretanha
assumia, por razões que lhe eram próprias, para com a Federação Sionista.
Mas entretanto ela recebeu o aval das Principais Potências Aliadas e foi
incorporada no Mandato para a Palestina, aprovado pela Liga das Nações a 24 de
Julho de 1922. Com efeito, o essencial da Declaração Balfour é citado
explicitamente no § 2 do preâmbulo do dito documento. É ainda reforçado no
§ 3, graças a dois elementos que não constavam na Declaração Balfour, isto
é, a menção da ligação histórica do povo judaico com a Palestina e a idéia
da reconstituição do seu lar nacional nesse país. Dos vinte e oito artigos do
texto do Mandato seis têm por objeto o estabelecimento do lar nacional judaico
ou medidas com ele relacionadas. O art. 2, que é o primeiro de caráter programático,
começa assim: "A (Potência) Mandatária terá a responsabilidade de pôr
o país em condições políticas, administrativas e econômicas que
assegurem/garantam o estabelecimento do lar nacional judaico (of the Jewish
national home), como está estipulado no preâmbulo...". Outros cinco
artigos tratam de medidas destinadas a realizar esse programa. Essas medidas
dizem respeito: ao papel de conselheira de uma "Agência Judaica
apropriada" nos diferentes domínios de governo (art. 4); às facilidades
que devem ser concedidas aos judeus nas questões relativas à imigração,
assim como no que respeita à sua instalação no país, inclusive nas terras do
Estado ou nos baldios (art. 6); às facilidades que devem ser concedidas aos
judeus na obtenção da nacionalidade (art. 7); à concessão de obras e serviços
públicos à Agência Judaica (art. 11b); à imposição do hebraico como língua
oficial ao lado do inglês e do árabe (art. 22), embora os judeus fossem então
só um pouco mais de 11 % da população. A Palestina tinha nessa altura 757.182
habitantes, dos quais 83.794 eram judeus.
Sem
excluir formalmente o objetivo normal do tipo de Mandato aplicado aos países árabes
do império otomano, que era levar à plena independência a população que então
os habitava, o Mandato para a Palestina tinha outro objetivo, que lhe era próprio,
isto é, promover a criação de um lar nacional judaico – subentenda-se a
criação de um estado judaico – com gente que, na sua maioria esmagadora,
estava ainda espalhada pelo mundo e, por conseguinte, deveria ser trazida de
fora. O seu documento fundante não deixa dúvidas de que o objetivo prioritário
do Mandato para a Palestina – para não dizer o seu verdadeiro objetivo –
era criar o lar nacional judaico. É verdade que o documento também menciona as
comunidades não-judaicas então existentes na Palestina e os seus direitos cívicos
e religiosos – não refere os seus direitos políticos – mas as suas menções
vêm em segundo lugar e expressam-se sob a forma de ressalvas feitas às medidas
destinadas a implementar o projeto sionista.
Graças ao Mandato para a Palestina, o patrocínio do projeto sionista, que era um elemento da política britânica, tornou-se política oficial da Liga das Nações. Esta não só deu ao projeto sionista a caução internacional mas forneceu-lhe também os meios para a sua realização. A Grã-Bretanha, a quem o Conselho Supremo Aliado (isto é, os vencedores da guerra) confiara o Mandato da Palestina, era sem dúvida alguma a potência mais indicada para implantar a política da Liga das Nações em relação a esse país. De fato, a administração britânica procurou cumprir fielmente enquanto pôde a missão que lhe fora confiada.

Por seu lado, as organizações sionistas aproveitaram as infra-estruturas administrativas e econômicas que o Mandato pôs à sua disposição para acelerar a realização do projeto de criação do Estado judaico na Palestina. Para isso intensificaram a imigração dos judeus da Europa oriental e central, em três vagas principais: em 1919-1923, 1924-1928 e 1932-1940. Em 1931 os judeus eram 174.610 de um total de 1.035.821 habitantes da Palestina. Em 1939, já são mais de 445.000 e em 1946 atingem o número de 808.230 de um total de habitantes da Palestina respectivamente de 1.500.000 e de 1.972.560. Por outro lado, o Fundo Nacional Judaico, isto é, o fundo da Organização Sionista Mundial para a compra e o desenvolvimento da terra, intensificou a aquisição de terras. Estas tornavam-se "propriedade eterna do povo judaico", inalienável e que só podia ser arrendada a judeus. No caso das explorações agrícolas, até a mão de obra devia ser exclusivamente judaica. Por fim, os sionistas criaram em pouco tempo as principais estruturas do futuro estado, nomeadamente um exército clandestino (a Haganá).

A
maneira como os vencedores da Primeira Guerra Mundial decidiram o destino da
Palestina, servindo-se para isso da Liga das Nações, é quase uma caricatura
da duplicidade e da prepotência que não raro caracterizam as relações
internacionais. De fato, há especialistas do Direito Internacional que
questionam a legalidade das decisões da Liga das Nações em relação à
Palestina em nome das regras que ela própria fixara. Assim, apesar de ter
classificado a Palestina num grupo de nações às quais reconhecia
imediatamente a independência formal e prometia a independência efetiva a
curto prazo, a Liga das Nações impôs-lhe um Mandato cujo objetivo prioritário
não era a instalação da administração palestina nacional, como previa o
documento que instituiu o sistema dos Mandatos, mas, sim, a criação do
"lar nacional judaico" com gente que ainda estava espalhada pelo
mundo. Ora, este objetivo não só contrariava o processo de transição para a
independência política efetiva da Palestina, mas era incompatível com o próprio
princípio da sua independência com a população que ela então tinha, princípio
esse que a Liga das Nações admitira previamente. Por outro lado, tendo nomeado
a Grã-Bretanha para potência mandatária sem ter consultado os palestinos, o
Supremo Conselho Aliado não respeitou a regra fixada pelo Pacto da Liga das Nações,
segundo a qual os desejos das comunidades submetidas a esse tipo de Mandato
deviam ser uma consideração principal na escolha da potência mandatária
(art. 22)7.

Mandato
britânico (1922-1948)

O "Livro Branco" de 1939 confirmou a viragem na política britânica já esboçada dois anos antes. Ao abandonar a idéia da criação de um estado judaico, as autoridades mandatárias romperam com a política seguida até então. Isso representava um sério revés para os sionistas. Estes tiveram que adotar uma nova estratégia, a qual comportou três elementos principais. Promoveram a imigração ilegal, tarefa essa facilitada pelo genocídio judaico que a Alemanha nazista estava então a perpetrar na Europa central e oriental. Nessas circunstâncias a Palestina aparecia como o lugar de refúgio para os judeus europeus, sobretudo do centro e do leste. Além disso, os sionistas procuraram obter o apoio dos Estados Unidos (EEUU) para substituir o apoio britânico. Alguns grupos armados lançaram-se numa campanha de guerrilha contra as autoridades britânicas e os árabes.



Entre
as numerosas ações realizadas pelo Irgun contra as autoridades britânicas, a
mais conhecida é o atentado do Hotel King David em Jerusalém, onde estava
instalada a administração governamental. A explosão de uma ala do edifício,
no dia 22 de Julho de 1946, custou a vida a 91 pessoas, das quais 86 funcionários
(britânicos, árabes e judeus).

Declarando-o inviável por ter duas missões inconciliáveis, a Grã-Bretanha renunciou ao Mandato e remeteu a questão da Palestina para a sucessora da Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas (ONU), em Fevereiro de 1947. A 29 de Novembro de 1947 a assembléia Geral da ONU, retomando uma idéia que já tinha sido proposta dez anos antes, aprovou a resolução 181 que recomendava a divisão da Palestina em dois estados, um judaico e o outro árabe. Os dois estados estariam unidos do ponto de vista econômico. Jerusalém (incluindo Belém) não pertenceria a nenhum dos estados, mas formaria um corpus separatum sob a jurisdição da ONU. Passados dez anos haveria um referendo entre os habitantes da cidade sobre o seu regime. O plano deveria entrar em vigor dois meses depois do fim do Mandato que a Grã-Bretanha fixou para o dia 15 de Maio de 1948
A criação do Estado de Israel (14 de Maio de 1948)

e suas conseqüências para o povo palestino

Os
territórios ocupados por Israel no fim da guerra constituíam cerca de 78% da
Palestina. Tornaram-se, de fato, o território do Estado de Israel. Ficaram fora
dele a cadeia de baixas montanhas do centro e do sul da Palestina, a chamada
Cisjordânia, assim como a Faixa de Gaza. Jerusalém ficou dividida: a parte
oeste da cidade extra-muros ficou do lado de Israel; a cidade antiga e o bairro
extramuros a norte ficaram do lado árabe. Israel declarou Jerusalém sua
capital, decisão essa ignorada pela comunidade internacional, pois ia contra a
Resolução 181 da Assembléia Geral da ONU de 1947, que recomendava a
internacionalização da cidade. No dia 11 de Maio de 1949, o Estado de Israel
foi admitido na ONU. A 24 de Abril de 1950, a Cisjordânia com a parte de
Jerusalém sob domínio árabe foi anexada à Transjordânia, que passou a
chamar-se Reino Hachemita da Jordânia. A Faixa de Gaza ficou sob administração
militar egípcia.
Entre
setecentos a novecentos mil palestinos do que se tornou o território de Israel,
isto é, a esmagadora maioria da sua população autóctone, encontraram-se na
situação de refugiados. Uns fugiram de suas casas aterrorizados com a
aproximação das forças judaicas.


A
11 de Dezembro de 1948 a ONU aprovou a resolução 194 que reconhece aos
refugiados palestinos o direito de regressarem aos seus lares ou de serem
indenizados, se assim o preferirem. Apesar de o preâmbulo da resolução que o
admitiu na ONU mencionar explicitamente a aplicação desta resolução, Israel
recusou-se e continua a recusar-se a aplicá-la. Apressando-se a arrasar as
aldeias palestinas que tinham sido esvaziadas dos seus habitantes (o número
habitualmente avançado é de cerca de 500 localidades) e distribuindo as suas
terras aos imigrantes judeus, Israel tornou impossível o regresso de uma boa
parte dos refugiados aos seus lares. A esmagadora maioria dos refugiados
amontoou-se em acampamentos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, na Jordânia, na
Síria e no Líbano. No dia 1º de Maio de 1950 a ONU criou a UNRWA, a agência
internacional que se ocupa deles.

Desde a criação do Estado de Israel, o conflito que o opõe aos palestinos tem sido o epicentro de um conflito entre Israel e o conjunto dos países árabes, com fortes repercussões mundiais. Esse conflito foi, em particular, a causa, ou pelo menos a ocasião, da emigração da maioria esmagadora dos judeus dos países árabes para a Palestina/Israel a partir dos últimos anos da década de 1940. As circunstâncias variaram ligeiramente segundo os países. De um modo geral, pode dizer-se que uns emigraram por causa da hostilidade de que o conflito os tornou alvos nos seus respectivos países e os outros foram "puxados" ou "empurrados" por Israel, desejoso de multiplicar o mais rapidamente possível a sua população judaica por razões nacionalistas, militares e econômicas, repovoando assim o território que havia sido praticamente esvaziado da sua população palestina. De fato, os "judeus orientais" depressa se tornaram maioria em Israel, mas o aparelho de estado e o poder econômico ficaram bem firmes nas mãos dos askenazes. A importância numérica entre os dois grupos mudou entretanto a favor dos askenazes com os numerosos imigrantes vindos, nas últimas décadas, das repúblicas soviéticas, antes e depois da dissolução da União Soviética.
A
guerra de 1967 e as suas conseqüências


A
crescente mancha da invasão judia sobre a Palestina
A
chamada "Guerra dos Seis Dias" fez mais refugiados palestinos, da
Cisjordânia e da Faixa de Gaza, alguns dos quais o eram pela segunda vez.
Calcula-se que o seu número foi superior a 50.000. A maioria foi para a Jordânia.
Os restantes foram para o Egito, a Síria e outros países.
De
1967 a 1995
A
história do conflito israelo-palestino desde 1967 é um rosário de planos de
paz abortados, de esperanças frustradas e, como nos períodos anteriores, de
violência, sangue, destruição e lágrimas. Referiremos só, rapidamente, os
fatos, os acontecimentos e as datas que nos parecem mais marcantes e susceptíveis
de ajudar a compreender a situação atual.
Começaremos
por assinalar uma mudança nos papéis desempenhados pelos intervenientes no
conflito. A anexação da Cisjordânia pela Jordânia em 1950 e a passagem da
Faixa de Gaza para a tutela do Egito levaram a uma espécie de eclipse do povo
palestino. A situação mudou a partir de 1967. O povo palestino voltou a tomar
em mãos o seu destino. Por mais que se tenha esforçado por negar a sua existência,
Israel teve finalmente que reconhecer o povo palestino não só como povo, mas
também como "interlocutor/inimigo" inevitável. Encarnou as aspirações
nacionais palestinas a Organização de Libertação da Palestina (OLP) uma
coligação de partidos ou grupos que havia sido criada em Jerusalém, em 1964.
Tal como foi formulada em 1968, a Carta da OLP, na linha do que sempre fora a
política palestina, propunha-se como objetivo a criação do Estado da
Palestina em todo o território nacional. Isso implicava o desaparecimento do
Estado de Israel. A carta da OLP considerava os judeus que viviam na Palestina
antes da "invasão sionista" como palestinos com pleno direito à
cidadania, como os demais habitantes: muçulmanos, cristãos e de outras religiões
ou etnias.
A
chefia da OLP esteve na Jordânia até 1971. Derrotada no conflito armado que a
opôs ao Governo Jordaniano (Fevereiro e Setembro de 1970) a OLP foi expulsa
desse país em 1971, instalando-se então no Líbano. Na seqüência desses
acontecimentos, alguns grupos palestinos, que se apelidaram "Setembro
Negro", lançaram-se numa campanha de guerrilha internacional, cujas ações
mais espetaculares foram os numerosos desvios de aviões comerciais e o atentado
contra os atletas israelitas que participavam nos Jogos Olímpicos de Munique a
5 e 6 de Setembro de 1972.
No
dia 6 de Outubro de 1973, o Egito e a Síria tentaram, em vão, reconquistar
militarmente cada qual os territórios conquistados por Israel em 1967. No dia
22 do mesmo mês, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 338 que
reafirma a validade da Resolução 242 e apela para um cessar-fogo e para
negociações com vistas a "instaurar uma paz justa e duradoura no Próximo
Oriente". Os combates cessaram três dias mais tarde.
No
mês seguinte, a Liga Árabe, reunida na Cimeira de Argel (26 a 28 de Novembro
de 1973) declarou a OLP único representante do povo palestino. Desde 1970 a
assembléia Geral da ONU afirmava regularmente o direito do povo palestino à
auto-determinação. No dia 13 de Novembro de 1974, Yasser Arafat fez um
discurso na assembléia Geral da ONU. Esta reconheceu aos palestinos o direito
à independência e concedeu à OLP o estatuto de observador. A idéia da criação
do Estado da Palestina só em parte do território nacional, já abordada em
Junho de 1974, foi aceite no 13º Conselho Nacional Palestino, de 12 a 20 de Março
de 1977.
No
dia 17 de Setembro de 1978, foram assinados os acordos de Camp David entre o
Egito, Israel e os EEUU. Israel devolveu o Sinai ao Egito. Paralelamente à
retirada do Sinai, que terminou a 25 de Abril de 1982, Israel intensificou a
colonização da Cisjordânia e do Golã. Em conformidade com os acordos de Camp
David, o Egito e Israel começaram, a 25 de Maio de 1979, negociações sobre um
estatuto de autonomia para os palestinos da Cisjordânia e de Gaza, não
escondendo Israel a intenção de anexar esses territórios no termo dos cinco
anos previstos para a autonomia.
No dia 6 de Junho de 1982, Israel invadiu o Líbano com a intenção declarada de expulsar de lá a OLP. Nos termos de um cessar-fogo negociado sob a égide dos EEUU, as forças da OLP foram evacuadas do Líbano entre 10 e 13 de Setembro desse ano, mudando-se a sua chefia para Tunes. Foi então que se deram os massacres de Sabra e de Chatila. Entre os dias 15 e 16, o exército de Israel ocupou a parte ocidental de Beirute. No dia 16, forças libanesas (milícias cristãs aliadas de Israel) entraram nos campos de refugiados palestinos de Sabra e de Chatila e mataram homens, mulheres e crianças (Embora se utilizem da palavra "cristãs", essas organizações israelitas, "milícias cristãs", não têm o aval, nem a mais remota participação da Igreja Católica, ou das outras Igrejas Cristãs). Os soldados israelitas que cercavam os campos assistiram aos massacres sem intervir. Segundo a comissão de inquérito oficial israelita houve 800 mortos; segundo a OLP, terá havido 1500.

A
dita comissão israelita concluiu que Ariel Sharon, então Ministro da Defesa,
foi indiretamente responsável pelo sucedido.
No
dia 9 de Dezembro de 1987 rebentou a primeira Intifada (insurreição) em Gaza e
na Cisjordânia contra a ocupação.
No
dia 31 de Julho de 1988, o rei Hussein da Jordânia anunciou oficialmente que
rompia "os vínculos legais e administrativos" do seu país com a
Cisjordânia, renunciando à pretensão de soberania sobre esse território que
havia sido anexado pelo seu avô em 1950.
No
19º Conselho Nacional palestino, reunido em Argel, a OLP proclama o Estado da
Palestina no dia 15 de Novembro de 1988, aceita as resoluções do Conselho de
Segurança da ONU 181, 242 e 338 e reafirma a condenação do terrorismo.
Na
seqüência da chamada "Guerra do Golfo", houve a Conferência
Internacional de Madrid (inaugurada no dia 30 de Outubro de 1991) e as primeiras
negociações bilaterais entre Israel e três dos seus vizinhos árabes (Jordânia,
Síria e Líbano). Os palestinos ainda não tiveram a sua delegação própria.
Fizeram parte da delegação jordaniana.
Negociações
secretas entre israelitas e palestinos tidas em Oslo, no Inverno de 1992-1993,
levaram finalmente ao reconhecimento entre Israel e a OLP a 9 de Setembro de
1993. A 13 do mesmo mês Yasser Arafat e Isaac Rabin assinaram em Washington a
"Declaração de Princípios sobre as Disposições Interinas de
'Auto-Governo'". A dita declaração determinava a entrega de parte da
Cisjordânia e da Faixa de Gaza aos palestinos, entrega essa concebida como a
primeira etapa de um processo que deveria desembocar, no prazo de cinco anos, na
solução do conflito que opõe os palestinos e os sionistas/israelitas desde há
quase um século. De fato, Yasser Arafat entrou em Gaza no dia 1º de Julho de
1994 e o exército de Israel terminou a retirada das cidades palestinas, exceto
de Hebron, em Dezembro de 1995. Os palestinos viram nesse fato o começo da
realização do sonho de um estado palestino independente, embora só em cerca
de um quinto da sua pátria e dividido em duas partes (Cisjordânia e Faixa de
Gaza) separadas pelo território de Israel. Incluindo Jerusalém Oriental, a
Cisjordânia tem uns 5.850 Km2.
A Faixa de Gaza tem uns 365 km2.
Desde
1995
No
dia 4 de Maio de 1999 terminou o período da autonomia palestina previsto na
"Declaração de Princípios". Sob a instigação do Presidente dos
EEUU, Bill Clinton, Yasser Arafat e Ehud Barak assinaram, no dia 4 de Setembro
do mesmo ano, o memorando de Charm ech-Cheikh, que redefinia o calendário para
a aplicação do memorando de Wye River e, além disso, estipulava a abertura de
dois corredores seguros entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, a libertação
de mais um grupo de prisioneiros palestinos e o começo das negociações sobre
todas as questões ainda em suspenso. Tudo isso ficou letra morta. Bill Clinton
convocou de novo Yasser Arafat e Ehud Barak com os quais se reuniu em Camp David
de 11 a 24 de Julho. As negociações avançaram, mas não se chegou a um
acordo. Seguiram-se ainda outras tentativas de negociações instigadas
igualmente por W. Clinton, prestes a terminar o seu mandato. A última dessas
tentativas teve lugar em Taba (Egito) de 21 a 27 de Janeiro de 2001, dias antes
de os israelitas escolherem Ariel Sharon para seu primeiro-ministro em vez de
Ehud Barak.
Resumindo:
Os acordos de Oslo não criaram a dinâmica de paz que deles se esperava.
Praticamente não se foi além da aplicação do que se previa que fosse só a
sua primeira fase. É verdade que Israel se retirou das oito zonas urbanas da
Cisjordânia e de cerca de 80% da Faixa de Gaza, deixando assim a maioria
esmagadora dos palestinos sob a jurisdição exclusiva da Autoridade Palestina10.
Repare-se, no entanto, que as oito zonas urbanas da Cisjordânia são ilhas num
mar israelita11.
Não havendo contigüidade territorial entre elas, estão isoladas umas das
outras. Em condições "normais", essa situação obstrui seriamente a
circulação de pessoas e bens e, por conseguinte, todas as atividades,
nomeadamente a atividade econômica, dos palestinos. Em situações de
"crise", ela permite ao exército israelita reocupar em poucos
minutos, e com poucos meios (uns quantos tanques e buldózeres) as cidades
palestinas ou sitiá-las, encarcerando nelas os seus habitantes. Pelo contrário,
os colonos israelitas continuaram a evoluir à vontade num espaço aberto,
dispondo para isso de uma moderna rede rodoviária própria, que não só lhes
permite circular na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas também os liga ao
território de Israel. Longe de parar, como deveria ter acontecido em
conformidade com o espírito do "Processo de Oslo", a colonização,
sobretudo da Cisjordânia, intensificou-se. Cresceram os Assentamentos de
Colonos já existentes e criaram-se outros novos. Para esse efeito,
confiscaram-se mais terras. Isto e o não-cumprimento por parte de Israel de
outros acordos levaram os palestinos a perder a confiança no "processo de
Oslo". A frustração, à altura da imensa esperança que o dito processo
havia suscitado, levou os palestinos à beira da explosão. A visita de Ariel
Sharon, então chefe da oposição israelita, à Esplanada das Mesquitas em
Jerusalém, no dia 28 de Setembro de 2000, serviu de rastilho. O horror do que
desde então se passa na Palestina tem ecoado ruidosamente em todo o mundo dia
após dia, graças aos meios de comunicação social.

Algumas
conclusões e reflexões
Para
terminar, algumas conclusões e reflexões. Começaremos por um apanhado dos
pontos de divergência fundamentais que existem atualmente entre a Autoridade
Palestina e Israel.
1
– A questão dos refugiados. Israel recusa-se a aplicar a Resolução 194.
Aprovada pela assembléia Geral da ONU a 11 de Dezembro de 1948 e reafirmada
todos os anos, essa resolução reconhece aos refugiados o direito de
regressarem aos seus lares ou de serem indenizados, se assim o preferirem.
Israel nega-se até a reconhecer a sua responsabilidade moral e legal pela existência
dos refugiados. Durante décadas "legitimou" essa recusa dizendo que
os palestinos abandonaram as suas casas por ordem dos países/exércitos árabes,
que lhes teriam prometido o regresso dentro de pouco tempo. Ora, os estudos dos
chamados "novos historiadores" israelitas da última década
confirmaram o que os historiadores palestinos sempre disseram e os bons
conhecedores da questão sabiam há muito, para não falar das vítimas: Essa
versão da origem do problema dos refugiados palestinos é uma invenção da
propaganda israelita. Por isso, Israel funda agora abertamente a recusa do
regresso dos refugiados no que é, e sempre foi, a verdadeira razão: O regresso
dos refugiados mudaria a composição étnica de Israel, que se
"arriscaria" a deixar de ser um estado majoritariamente judaico. Ora,
foi precisamente para evitar esse "perigo" que Israel expulsou muitos
dos refugiados de suas casas.
Os
refugiados palestinos são, de fato, muito numerosos.
A 30 de Junho de 1999, a UNRWA recenseava 3.600.000. Não entram nesse número
os que se tornaram refugiados em 1967 (mais de 50.000) e os seus descendentes.
Sabe-se que existem mais umas centenas de milhar de palestinos que foram
deslocados e não constam nas listas da UNRWA.
2
– Jerusalém Oriental. A parte oriental de Jerusalém foi conquistada em 1967.
O plano da internacionalização de Jerusalém (na sua totalidade, indo até Belém)
tendo sido aparentemente abandonado, a parte oriental da cidade é um dos territórios
ocupados em 1967, que a Resolução 242 do Conselho de Segurança ordena
devolver. O fato de Israel a ter anexado e de lhe ter alargado as fronteiras não
muda de forma alguma o seu estatuto do ponto de vista da legalidade
internacional. Essas medidas foram aliás declaradas nulas repetidas vezes pelas
instâncias da ONU. No que se pode considerar um gesto de boa vontade, a
Autoridade Palestina aceita ceder a Israel a soberania sobre partes de Jerusalém
Oriental, nomeadamente o chamado "Muro das Lamentações", o único
vestígio das construções ligadas ao templo judaico que se conhece12.
Por ser o lugar do antigo templo judaico, do qual nada é visível, Israel opõe-se
à soberania palestina sobre a Esplanada das Mesquitas, a qual com o santuário
do Domo do Rochedo e a Mesquita de El-Aqsa, bem visíveis, é o terceiro lugar
santo do islamismo.
3
– Assentamentos de Colonos. No decurso dos 35 anos de ocupação da Cisjordânia
e da Faixa de Gaza, Israel criou mais de duas centenas de Assentamentos de
Colonos sobretudo na Cisjordânia. Para esse efeito, apoderou-se de todos os
recursos hídricos e da maioria das terras da Cisjordânia: umas declarou-as
baldias e as outras, nomeadamente as que pertenciam aos refugiados ou a outras
pessoas ausentes em 1967, confiscou-as. Calcula-se que há hoje 200.000
israelitas a viver na Cisjordânia e outros tantos em Jerusalém Oriental, ao
lado de cerca de 2.000.000 de palestinos. Na Faixa de Gaza há 6.900 israelitas,
que dispõem de cerca de 20% do território, ao lado de cerca de 1.200.000
palestinos, dos quais cerca de 70% são refugiados. 33% dos palestinos da Faixa
de Gaza vivem nos campos de refugiados administrados pela UNRWA. Superpovoada, a
Faixa de Gaza é um dos territórios do mundo com maior densidade demográfica.
A
instalação de cidadãos civis do estado ocupante num território ocupado é
explicitamente proibida pela IV Convenção de Genebra relativa à Proteção
das Pessoas Civis em Tempo de Guerra que Israel assinou. Por isso, a colonização
israelita de Jerusalém Oriental e dos demais territórios ocupados foi muitas
vezes declarada ilegal pelas instâncias da ONU (Conselho de Segurança e
assembléia Geral). Nas mesmas ocasiões as ditas instâncias internacionais
exortaram Israel a anular todas as medidas tomadas no sentido da colonização
dos territórios ocupados.
Ainda
é preciso assinalar algumas imagens correntes do conflito israelo-palestino que
deformam completamente a realidade.
1 – Embora haja uma imensa admiração pelas proezas de Israel, nomeadamente pelas suas façanhas militares, tende-se não raro a pensar que as partes envolvidas no conflito israelo-palestino têm forças mais ou menos iguais. Ora, isso é inteiramente falso. Israel é uma grande potência militar não só regional, mas também mundial. Tem um dos exércitos mais poderosos do mundo.