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ANTES DA GERAÇÃO 60 |
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Por Jorge Buescu
Há meio século, em 1956, teve
lugar uma guerra esquecida mas cheia de lições: a invasão do Egito pelo Reino
Unido, França e Israel. À parte o sucesso israelita no Sinai, esta guerra
representou para as potências européias um falhanço militar e um desastre
político, sendo travada já quando decorriam as operações militares na ONU por
ação dos Estados Unidos da América.
Suez, 1956, representou provavelmente o último estertor, alimentado pelos
resíduos da era imperial e pela recente vitória aliada na II Guerra, das ilusões
inglesas e francesas sobre constituírem potências globais. O choque brutal
despertou-os para a realidade. Superpotências havia duas, os EUA e a URSS, e
nenhum país da Europa continental poderia voltar a ser, como na era imperial,
uma potência global, como a Inglaterra de Anthony Eden ainda julgava ser. Neste
sentido, a União Européia tem parte das suas raízes em Suez. O mundo mudou com
esta guerra esquecida.
Mas há muitas outras razões pelas quais deveríamos recordar Suez. Foi a primeira
vez em que os cidadãos e a opinião pública de uma democracia ocidental
contestaram fortemente, em Inglaterra, a chamada às armas, o que precipitou a
queda de Eden. Os Estados Unidos não compreenderam esta lição antes do Vietnam.
E há muito em comum entre Suez, 1956 e Iraque, 2003.
A crise de Suez foi precipitada por Gamal Abdel Nasser, um líder populista que
avançou com a ideia do pan-arabismo anti-israelita, a ser liderado,
evidentemente, pelo Egipto e por si próprio. A nacionalização do canal de Suez,
no verão de 1956, foi a gota de água para a França e Reino Unido, e precipitou a
ação militar, que hoje sabemos ter sido secretamente concertada com Israel.
Para a opinião pública, a intervenção militar foi vendida como necessária para
“manter a liberdade de circulação no canal”. Na verdade, não há hoje dúvidas de
que o objetivo era derrubar o regime de Nasser. Para isso, Nasser foi
diabolizado, o perigo para o resto do Mundo foi exagerado e, quando se verificou
que era injustificado, a febre da guerra foi levada a ponto de ebulição
comparando as políticas de compromisso com Nasser com apaziguamento a Hitler
(Munique tinha sido apenas 18 anos antes!). Isto foi há 50 anos. Mas, mutatis
mutandis, soa como se tivesse sido há 4.
Pessoalmente, sempre tive (e continuo a ter) dúvidas e nunca certezas, ao
contrário de tantos políticos e comentadores tão convictos, sobre o Iraque.
Ninguém sabe como vai acabar a aventura anglo-americana. Mas sabemos hoje,
graças a Bob Woodward (o mesmo Woodward que, com Carl Bernstein, revelou ao
Mundo o escândalo Watergate), que a administração Bush já tinha esboçado planos
para invadir o Iraque visando a mudança de regime antes do 11 de Setembro;
depois disso apenas os acelerou. Os paralelos entre Suez 1956 e Iraque 2003 são
impressionantes. É curioso, aliás, que o triângulo Estados Unidos – Reino Unido
– França tenha sido o mesmo nas crises do Suez e do Iraque; só o vértice que se
apoiou na ONU, em ambos os casos, foi diferente.
Uma das ironias do destino de Suez é que, seis meses depois da guerra, tudo
tinha voltado ao normal: o canal tinha sido reaberto e esteve sempre aberto à
circulação internacional. O casus belli não existia. Por outro lado, a vitória
de Nasser foi de Pirro: o pan-arabismo à la Nasser não vingou. A Síria chegou
unir-se com o Egito em 1958, sob o domínio deste, na República Árabe Unida,
primeiro passo para a unificação árabe. Mas a Síria declarou a secessão 3 anos
depois, e o sonho de Nasser ficou por ali. Nasser morreu em 1970 e o Egito
continuou a chamar-se República Árabe Unida até 1971, altura em que voltou a
chamar-se simplesmente Egito.
O resto é história pós-geração de 60: o Egito tornou-se no estado árabe mais
moderado, que continua a ser; o sucessor de Nasser, Anwar el-Sadat, foi o
primeiro líder árabe a assinar a paz com Israel, e pagou com a vida essa
dissensão. O Egipto é, de todos os estados árabes, o único que no século XXI se
assemelha minimamente a uma democracia ocidental.
É pena que a crise de Suez esteja, meio século depois, tão esquecida. Suez é um
exemplo perfeito do lugar-comum, que neste caso não podia ser mais verdadeiro,
de que quem não conhece a História está condenado a repeti-la. Sobretudo quando
o nome do aventureirismo ocidental parece ser, meio século depois, Irão. Também
aqui não consigo ter certezas. O leitor consegue?
Leituras recomendadas:
Suez, de Keith Kyle (Weidenfeld e Nicholson, 1991);
Suez 1956, de Barry Turner (Hodder e Stoghton, Londres, 2006);
Plan of attack, de Bob Woodward (Simon e Schuster, 2004).
De: "Theodoro da Silva Junior"
<theojr@terra.com.br>
Data: Fri, 13 Jul 2007 23:52:48 -0200
Assunto: Suez - antes da geração de 60