- 06/10 - ATITUDES DIGNAS
Matéria publicada hoje no site www.averdadesufocada.com - Por Emerson
Rogério de Oliveira - Jornal O SUL, Porto Alegre, de 04 OUT 2008.
Relembro um fato inédito que chamou a atenção dos presentes à cerimônia de
entrega de medalhas, realizada no dia 25 de Agosto de 2005, por ocasião das
comemorações do Dia do Soldado, em Brasília. Com a presença de Ministros de
Estado, Comandantes das Forças Armadas, convidados e familiares, foi
entregue a Medalha do Pacificador. Depois do dispositivo pronto, um senhor
idoso, apoiado em uma bengala, vestindo roupas escuras e gravata preta,
portando em seu peito a Medalha do Pacificador, atravessou toda a frente do
dispositivo até o local onde estava a autêntica espada do Duque de Caxias.
Com lágrimas nos olhos, retirou a medalha do peito, elevou ao alto, à
frente, à esquerda e à direita. Depois de beijá-la, colocou-a no seu antigo
estojo e a depositou aos pés da coluna onde estava a espada de Caxias.
Voltou, passou silenciosamente pela frente do dispositivo, indo sentar-se na
arquibancada de cimento, diante do palanque.
Texto completo
Perguntado por que devolveu a medalha, respondeu que ela havia sido
desonrada e desprezada, em flagrante desrespeito à figura do insigne patrono
do Exército, o Duque de Caxias, por já ter sido distribuída a pessoas que
não mereciam tal honra. Disse mais, que, se a recebeu num ato solene, seria
justo devolvê-la também num ato solene.
Esse senhor idoso é o coronel de Infantaria Reformado/Inválido Cícero Novo
Fornari. Na época tinha 74 anos, desses, 43 de serviços prestados ao
Exército e à Pátria.
A imprensa divulgou o fato em poucas linhas, mas eu o destaquei pela sua
atitude digna e corajosa em meu livro Trincheiras Abertas, que lhe chegou às
mãos por um amigo. Em dia recente, ligou-me de Brasília, onde mora, para
agradecer-me e perguntar-me se eu tomara conhecimento do que lhe aconteceu
depois daquele fato. Respondido que não, contou-me que, durante um passeio
com a esposa pelas ruas de Brasília, resolveu entrar em uma loja de
antiguidades - uma mistura de velhos objetos com brechó. Apoiado pela
bengala visitava prateleiras e balcões, olhando as mais variadas
quinquilharias e artigos ali expostos, parando em frente a uma redoma de
vidro onde estavam diversas medalhas militares, cuidadosamente alinhadas num
feltro verde. Atento, o dono da loja aproximou-se, cumprimentou-o e passou a
discorrer sobre o histórico das medalhas, as suas origens, quem as
mereciam..., e, por fim, perguntou se ele desejava comprar uma. Apesar de
não ter obtido resposta, sabia que iria negociar com aquele homem calado,
pois já vira aquele brilho nos olhos de muitos clientes. Abriu a tampa da
redoma e continuou com a explicação, mostrando-lhe a medalha da Primeira
Guerra Mundial, da Segunda, do Serviço Amazônico...
Tentava cativar aquele cliente que parecia paralisado, que ainda não abrira
a boca, mas também não tirara o brilho dos olhos, e, então, o vendedor
apontou o dedo para uma Medalha do Pacificador e perguntou se ele lembrava
do caso daquele coronel do Exército que devolveu a sua Medalha do
Pacificador numa cerimônia em Brasília, depositando-a junto à espada de
Caxias, sob o olhar e o silêncio dos presentes.
O coronel levou um choque. Ergueu a cabeça para aquele homem gentil e
educado, que evocava lembranças de um fato da sua vida. Valeu-se da bengala
para melhor firmar as pernas trêmulas das muitas jornadas, e contendo a
emoção falou pela primeira vez desde que entrara naquela loja: "Não me
lembro, mas deve ter sido um velho "gagá", meio maluco, pra fazer isso!"
Surpreso, o dono da loja retrucou-lhe com veemência, dizendo que ele estava
enganado, pois o coronel era um homem honrado e tomou uma atitude digna
naquele dia, uma vez que essa medalha passou a ser concedida a pessoas que
não preenchiam os requisitos para tal, perdendo, assim, o seu valor.
O coronel sorriu, mostrou-lhe a identidade, e disse-lhe: "Pois saiba o
senhor que esse coronel está à sua frente. Fui eu quem devolveu a medalha".
O coitado do homem ficou pasmo, olhou para a identidade, olhou para o
coronel e, num gesto largo e espontâneo, abraçou-o. Imediatamente pegou a
medalha, empertigou-se, esboçou um gesto solene e prendeu-a no peito do
coronel, dizendo-lhe: "Ela é sua! Estou devolvendo-a para o lugar de onde
nunca deveria ter saído".
A surpresa agora era do velho e experiente militar. Quis impedir-lhe o
gesto, mas não conseguiu. Tentou pagar-lhe o valor da medalha, também não
conseguiu... E o vendedor, com um sorriso largo, disse-lhe: "Coronel, o
senhor mereceu essa medalha pelo seu trabalho e dedicação à Pátria. Estou
feliz por devolvê-la".
Os dois velhos emocionados se abraçaram. O coronel agradeceu-lhe, juntou-se
à mulher e, com passos lentos, auxiliados pela bengala, retirou-se da loja,
levando a sua Medalha do Pacificador no peito. Certamente também levava os
olhos marejados.
Atrás dele, um homem feliz pelo resgate que fizera naquela tarde observava-o
partir, tendo a certeza de que aquele foi o seu melhor negócio do dia.
Gesto isolado, sem pompa e sem testemunhas. Mas nobre e grandioso, porque
esculpido na dignidade das suas atitudes, provando que os valores morais são
cultuados por homens, não por sombras.
Nem tudo está perdido.
Emerson Rogério de Oliveira
Militar Reformado e Escritor
E-mail: emersonroli@terra.com.br
-Então repito;
Gesto isolado, sem pompa e sem testemunhas. Mas nobre e grandioso, porque
esculpido na dignidade das suas atitudes, provando que os valores morais são
cultuados por homens, não por sombras.