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O BRASILEIRO DA PAZ |
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Sarajevo é ainda hoje uma cidade que traz na
sua arquitetura as marcas da guerra. Ruínas, resquícios de bombardeios,
misturam-se com bares, cafés, lojas e comércio em geral. O movimento de pessoas
- durante a noite uma multidão de jovens invade as ruas - enche de vida e
esperança a tentativa de apagar as lembranças de um dos mais sangrentos
conflitos dos últimos tempos. É ali, no murmurinho de gente, artistas se
apresentando nas ruas por uns trocados e turistas, que fica um bar chamado
Brasil. O Bar Brasil é um dos badalados pela cena local. Na verdade o repertório
musical brasileiro é restrito e dá lugar ao kitsch pop-latino de Rick Martin ou
Jennifer Lopez.
Mas quem já se preocupa com isso?
Um amigo acabara de visitar Sarajevo, anos
atrás, e contava de sua viagem. A paz tem o efeito de uma chuva sobre o campo,
depois de um longo período de seca: O verde brota por todos os lados como por
mágica. Assim são as pessoas nas ruas de Sarajevo, irradiando esperança,
procurando ser feliz e esquecer o passado. Ou no mínimo adormecê-lo.
O amigo, que não é brasileiro, me dizia que
por duas vezes algo lembrara nosso país durante sua permanência na cidade: O Bar
Brasil e a presença de um brasileiro que estava em missão pela ONU. Um
brasileiro típico na aparência e no costume de não soltar o celular, dizia ele.
Nunca imaginamos a fatalidade que reservava o destino daquele brasileiro.
Sérgio Vieira de Mello era um brasileiro
típico, independente de sua aparência e do celular.
Em Sarajevo ele ainda não havia alcançado o auge de sua trajetória, interrompida
tragicamente com sua morte sob os escombros de um velho prédio na longínqua
Bagdá.
Vieira de Mello, como viria a ficar conhecido
na imprensa internacional, fez sua carreira sem nunca ter pertencido aos quadros
oficiais da diplomacia ou do governo brasileiro. Era desses brasileiros que
partem para sempre, fazem sua vida, sem nunca abandonar completamente a idéia de
um dia voltar. Mesmo sabendo que jamais voltarão. Outra coisa típica de
brasileiro.
Talvez esse enraizamento inconsciente ajude a
enfrentar obstáculos naturais para quem deixa suas origens. Qualquer coisa a
gente retorna, e pronto. Funciona como um derradeiro refúgio em caso de dúvidas.
Vieira de Mello não teve chance de refúgio em sua última missão.
Olhar o mundo com olhos de brasileiro é
diferente de olhar o mundo com olhos de norte-americano, inglês, alemão, árabe,
asiático.
No Brasil a mistura de raças encontra-se no
mais avançado estágio que se conhece. A mistura cultural, o clima, a situação
geográfica, a colonização, tudo faz do Brasil, no conjunto, um país diferente do
resto do planeta.
As injustiças sociais, nascer e crescer vendo um assombrador desnível econômico e a falta de perspectivas para boa parte da população também fazem parte da formação de um brasileiro.
Em uns isso desperta uma visão crítica, em
outros revolta, em muitos a indiferença. Não tão maniqueísta assim, é verdade,
mas em linhas gerais dessa forma.
Sérgio Vieira de Mello não tinha intenção de
levar a paz ao mundo, quando deixou o Brasil. Sorbonne era o sonho de boa parte
dos conterrâneos de classe média de sua geração. Mas com certeza seus olhos de
brasileiro o ajudaram na ascensão para um dos melhores profissionais da ONU.
Suas missões davam-se no terreno dos vencidos,
humilhados e perseguidos. Intermediar, negociar interesses antagônicos,
organizar ajuda humanitária e governos, sem apresentar-se com a arrogância dos
vencedores, olhando e tratando de igual para igual os interlocutores, não de
cima para baixo, é uma virtude que exige mais que diplomacia. Para isso é
necessária uma aptidão que brota dos sentimentos. Qualquer um, seja de onde for,
pode possuir este talento. Mas no seu caso, o coração de brasileiro facilitou as
coisas. Foi guiando sua habilidade para enfrentar para enfrentar os conflitos.
E muitas vezes no seu caminho, sua
nacionalidade abriu as portas. O terceiro mundo tem uma grande simpatia para com
o Brasil. Mais do que o primeiro. Em todos os lugares por onde passou, ele
deixou a convicção de que agia pela solidariedade, pelo interesse coletivo, sem
estrelismo, sem (pseudo) superioridade.
Há duas coisas que não são necessárias, nem
Sérgio Vieira de Mello concordaria. A primeira, querer idolatrá-lo como herói. A
morte fazia parte dos riscos de seu trabalho. Como profissional competente, ele
era consciente do perigo que rondava permanentemente suas atividades. E, com
segurança, não foi a primeira vez que sua vida esteve por um fio. No mesmo
atentado morreram muitas outras pessoas, além de Vieira, que estavam ali
cumprindo o seu dever. Ele não era um Dom Quixote.
Segundo, a procura pelos culpados deve se
restringir ao campo da criminalística. Politizar sua morte, colocando a carapuça
na cabeça do povo iraquiano seria contraproducente e iria de encontro aos seus
próprios princípios.
Seja quem for, o ou os assassinos são
decididamente extremistas, pertencentes a uma minoria movida pelo ódio. Eles não
são representativos em nenhuma sociedade, nem a iraquiana nem de qualquer outra
nacionalidade.
Políticas seriam talvez as circunstâncias que
fizeram os extremistas chegar tão próximos a Vieira. A situação que o levou ao
Iraque. A prepotência com a qual não apenas os iraquianos têm sido tratados.
Mesmo assim é preciso ter cuidado no terreno das hipóteses e das teorias.
Por fim nada resta do que o profundo lamento
que segue uma morte prematura, injusta e violenta. Distante da família, distante
da terra natal, distante da paz, a morte assume um caráter ainda mais trágico.
Vieira foi impedido de cumprir sua missão. Quem sabe uma missão impossível.
Somente o tempo irá responder. Sobra a esperança de que um dia, como Sarajevo,
Bagdá possua também seu Bar Brasil e suas ruas emanem o murmurinho de jovens e
turistas.
Como os campos que se enchem de verde após a chuva redentora. Mesmo sabendo que
faltará o brasileiro da ONU. E que em Bagdá raramente chove.