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A MALDIÇÃO DA MÚMIA |
Por Dacilio de Abreu Magalhães
Um dia eu fiz uma crônica que está no Site e ocupa lugar de destaque, o que muito me honra.
Eu fiz um discurso na solenidade
comemorativa do 16º aniversário da outorga do Premio Nobel da Paz 1988 às Forças
de Paz das nações Unidas no 4º BIB, em Osasco e procurei incrementá-lo com
partes marcantes da crônica e tanto na crônica como no discurso, eu usei o título
“O que é o Batalhão Suez?”.
Na realidade, o que é o Batalhão Suez? Algumas centenas de ex-militares
frustrados que não tiveram a oportunidade de ver seu trabalho reconhecido e que
choram quando nós mesmos, colegas de luta, organizamos uma festividade como
faziam nossos pais quando éramos crianças e que completávamos mais um aninho
de vida. Choram e choram muito como chorou um colega do Sul, já falecido, na
cerimônia da entrega simbólica do diploma do Premio Nobel da Paz 1988, no pátio
do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo e como eu chorei, a ponto de ser
atendido pela esposa do Ten. Cel. Edivaldo e de não ter podido desfilar na
solenidade de 09 de outubro último.
Eu deveria ter começado a crônica e o discurso com uma afirmativa e não com
uma pergunta; talvez se eu afirmasse “O
que foi o Batalhão Suez”, ao invés de perguntar “O
que é o Batalhão Suez?”, as palavras e a emoção da solenidade como um
todo, poderia calar melhor no coração das autoridades ali presentes e ai dar
inicio a alguma iniciativa em prol do reconhecimento e proteção desses
verdadeiros cidadãos brasileiros, desses desconhecidos patriotas e desses
Boinas Azuis descartáveis que mostram a todo o momento o que é amar a esse
nossos querido Brasil.
Já fizemos dezenas de solenidades em quartéis, em casa de Leis, em praça pública;
já desfilamos por esse Brasil afora e não foram poucas as autoridades que nos
viram vibrar, quando, em cada batida do pé direito no chão, colocamos pra fora
toda a emoção e orgulho de ser um militar do Exército Brasileiro e de ter
participado de uma importante missão internacional de paz.
Já dei entrevista em radio, jornais, revistas e emissoras de TV; já falei que
essa foi a mais longa e mais importantes de todas as Operações de Paz da ONU,
já contei que retiramos minas com as próprias mãos, que dormimos em barracas
de lona com um calor sufocante, que convivemos em local de condições endêmicas,
que enfrentamos a solidão do deserto e o terror da guerra. Fiz ver durante as
entrevistas que embora estivéssemos numa missão de paz, convivemos
diuturnamente num teatro de guerra, que estendemos a mão antes mesmo de apontar
nossos fuzis, que demos a vida para proteger povos irmão e que não fomos para
essa missão com a finalidade de destruir cidades, de dizimar famílias, de
matar ou mutilar seres humanos, muito pelo contrario, no exercício da sagrada
missão de promover a paz de povos irmãos, tivemos uma irreparável perda.
Parece que vivemos num país de cegos e surdos ou que estamos sob a Maldição
das Múmias egípcias. Nem o povo palestino e nem Cristo Reis dos Reis,
Faraó dos Faraós, o maior de todos os pacificadores, que andou por aquelas
plagas, semeando amor e a compreensão entre os homens, escapou dessa maldição.
O importante é a sensação do dever cumprido, o importante é saber que muitas
vidas se salvaram e outras até nem foram atingidas enquanto por lá estivemos.
É um bom sinal; é a prova de que executamos de maneira perfeita, com carinho,
com dedicação e, sobretudo com resignação, toda a tarefa que a Organização
das Nações Unidas nos confiou.
A mídia brasileira está voltada para o Haiti. Falam elogiando o General
Comandante e a operação como um todo, chegando até a sugerir que essa tropa
treinada, possa ajudar o Brasil nessa onda de violência urbana que assola nosso
país e propuseram até o Prêmio Mandela para os nossos colegas do Haiti. Eu
cansei de falar nas reportagens que fiz que, ao invés de descartarem os cabos e
soldados do Batalhão Suez, homens treinados em fronteira internacional de
grande periculosidade e de envolvimentos de todas as ordens, que se
aproveitassem esses militares nas nossas fronteiras, evitando assim que as
drogam chegasses aos nossos filhos, parentes, amigos e vizinhos, que as nossa
divisas se evadissem de nosso território e que esses valorosos militares não
se considerassem os Capacetes Azuis
descartáveis.
É claro que gostaríamos de ostentar a medalha brasileira do Pacificador,
apresentá-las tantas vezes quantas fossem solicitadas pelos nossos filhos,
netos, amigos e demais parentes, mas, temos que aceitar a argumentação das
nossas autoridades que dizem que o Exército não tem verba para agraciar pouco
menos de três mil ex-integrantes do Batalhão Suez; ficamos mais uma vez
frustrados. Nós não somos uma Instituição Governamental, não temos verbas
milionárias, mesmo assim, a Associação Brasileira de Integrantes do Batalhão
Suez - RS, com um quadro social de pouco mais de oitocentos associados. Consegue
idealizar, regularizar e agraciar mais de trezentas autoridades, o que
corresponde a dez por cento do que o nosso Exército deveria ter feito, pois a
Medalha do Pacificador, é direito nosso e quem disse isso foi o Presidente
Juscelino Kubschek de Oliveira e o Ministro da Guerra Mal. Henrique Dufle
Teixeira Lote quando assinaram a Lei que considera como de Serviço Relevante a
Missão Suez.
- Que coisa heim!
O pai não pode dar ao filho o presente a que tem direito, sob a alegação de
que não tem dinheiro para adquiri-lo. O Filho, de uma forma consegue um
dinheirinho, compra um presente para o pai e na hora de presenteá-lo diz:
- Estou lhe dando esse presente porque me orgulho muito de você.
É! Dona Múmia; você pode até ter nos lançado a sua maldição porque
escalamos a sua Pirâmide, porque adentramos nela, o seu túmulo sagrado ou
porque vivemos no seu território por mais de dez anos. A sua maldição pode até
ter surtido efeito lá no Congresso Nacional, em Brasília quando perdemos a
equiparação como os Heróis da FEB e quando um Coronel do nosso Exército, com
seu espírito maldoso encarnado, disse que a Missão Suez foi uma página negra
na história do Brasil, mas, seu espírito não conseguirá se dividir em três
mil e fazer com que deixemos de nos orgulharmos de ser brasileiros, de sermos
patriotas a ponto de deixar rolar as lágrimas quando ouvimos o Hino Nacional ou
quando desfilamos nas principais Capitais, mostrando, principalmente aos nossos
jovens que representar o Brasil em Missões internacionais de paz, é algo
indescritível.
Vou esquecer um pouco essas mágoas e lembrar que o Comitê Nobel do Parlamento
Norueguês, em 28 de setembro de 1988 reconheceu o nosso trabalho,
outorgando-nos o mais cobiçado premio de todos os tempos, o Premio Nobel da Paz
e me sinto feliz porque vejo que a cada dia, um de nossos colegas, manda buscar
a sua medalha de Premio Nobel da Paz 1988 e que talvez, em futuro breve,
possamos conseguir que essa medalha chegue também para os menos favorecidos.
Repouse em paz....Dona Múmia!
Dacilio de Abreu Magalhães
3º Contingente – 1958
De: Dacilio Magalhaes <dacilio@yahoo.com.br>
Data: Fri, 5 Nov 2004 22:46:44 -0300 (ART)