O
MUNDO ÁRABE
Os
principais pontos em comum no mundo árabe são a língua, a religião e as
tradições islâmicas. Além disso, quase todos os países da região têm sua
economia assentada na exportação de petróleo e um passado de traços
coloniais. nem todos, é bem verdade, foram colonizados no sentido estrito da
palavra, mas sua história foi largamente condicionada pela presença européia,
sobretudo francesa e inglesa. Separados por inúmeras divergências, os árabes
costumam unir-se apenas quando se trata de enfrentar o inimigo comum: o
temido Estado de Israel.

Para
boa parte dos judeus, a formação do Estado de Israel foi o cumprimento de uma
profecia milenar. Expulsos há 2 000 anos da Palestina pelos romanos, formaram,
durante séculos, um povo sem pátria, mas unido pela tradição, pela religião
e pela vaga esperança de retornar à Terra Prometida.
No
século XIX, uma onda de anti-semitismo na Europa fez com que proliferassem
numerosas sociedades cuja atividade principal era reagrupar o povo judeu em uma
nação com território próprio e a salvo de perseguições. Em 1882, Leon
Pinsker
lançou a idéia de um retorno a Sion (uma das colinas de Jerusalém); no mesmo
ano era fundada a primeira colônia agrícola judaica na Palestina.
Quatro
anos mais tarde, Nathan Birnbaum batizou esse movimento pela criação de um
Estado judeu na Palestina com o nome de Sionismo.
Em
1903, os ingleses sugeriram que se concedesse o território de Uganda ao povo
hebreu. No mesmo ano, os participantes do VI Congresso Sionista, em Basiléia,
dividiram-se em sionistas abertos a qualquer solução aceitável (inclusive a
criação de um Estado judeu em Uganda) e “sionistas de Sion”, apegados à
idéia de que esse Estado só poderia ser criado na Palestina.
Em
1917, com a Declaração Balfour, a Inglaterra passou a defender o
estabelecimento de uma pátria para o povo judeu na Palestina, sob a condição
de que nada se fizesse contra os direitos dos árabes. Paralelamente, porém,
Londres acenava com promessas de independência aos árabes, procurando
estimula-los a revoltar-se contra os turcos otomanos, que dominavam a região.
No final da Primeira Guerra, árabes e judeus foram frustrados pela Grã-Bretanha,
que assumiu o controle da Palestina. Os judeus, contudo, continuaram a emigrar
para Jerusalém, onde os atritos com os palestinos se tornaram freqüentes. Por
essa época, surgiram duas organizações sionistas armadas: a Haganah, um
verdadeiro exército clandestino, e a lrgun Zvai Leumi, grupo terrorista de
direita liderado por Menahem Begin.
Em
1947, a lrgun atacou o povoado árabe-palestino de Der Yassin, chacinando cerca
de 250 civis, a maioria mulheres e crianças. No ano seguinte a ONU aprovou a
divisão da Palestina em dois Estados: um judeu e um árabe.
A
14 de maio de 1948, o líder sionista Ben Gurion anunciava a criação do Estado
de Israel. Poucos dias depois, os paises árabes vizinhos atacaram militarmente
nova nação.
A
Guerra prolongou-se até 1949, com a vitória de Israel, que ampliou seu território
de 14 500 km2 para 20 850 km2, anexando inúmeras regiões.
Paralelamente, porém, a Transjordânia apoderou-se da Cisjordânia, com a qual
constituiu a Jordânia, e o Egito incorporou a faixa de Gaza, ambos territórios
pertencentes aos palestinos, segundo a resolução da Organização das Nações
Unidas.

Os grandes prejudicados no conflito árabe-israelense foram os palestinos. Obrigados a abandonar o território que durante séculos foi sua pátria, transformaram-se em centenas de milhares de exilados forçados a viver em acampamentos no Líbano, Síria e Jordânia. Como resposta a essa situação, surgiram movimentos guerrilheiros de vários matizes políticos, como Al Fatah e FPLP (Frente Popular de Libertação da Palestina), coligados na OLP (Organização de Libertação da Palestina), um verdadeiro governo de exílio dos refugiados. Suas atividades incluem desde combates contra tropas israelenses até operações de terroristas, como meio de pressão e de propaganda da causa palestina.

CONFLITO ABERTO
Em 1956, Israel, aproveitando-se da confusão criada com a nacionalização do
canal de Suez pelo Egito, desencadeou uma guerra com o objetivo de alargar
suas fronteiras. Em 1957, sob pressão norte-americana, suas forças recuaram até
as antigas fronteiras. A tensão permanente no Oriente Médio, porém, provocaria
novos conflitos abertos.
Em
1967, o Egito bloqueou o estreito de Ácaba. Em represália, os judeus atacaram
no Sinai, na Jordânia e na Síria. Foi, a chamada Guerra dos Seis Dias, ao fim
da qual os israelenses ocupavam a península do Sinai, a margem leste do canal
de Suez, a faixa de Gaza e toda a margem oeste do Jordão, além das colinas de
Golan, na Síria.
Em
1973, Egito e Síria empreenderam uma ação militar para retomar os territórios
perdidos em 1967. Um acordo provisório de paz, contudo, foi obtido com a mediação
da ONU. Apesar disso, os atritos continuaram. Ainda em 1973, para forçar a
retirada das tropas israelenses dos territórios ocupados, a Liga Árabe cortou
o fornecimento de petróleo à Europa, Japão e EUA, ao mesmo tempo em que
aumentou consideravelmente seu preço, contribuindo para a crise econômica
mundial que persiste até hoje. Uma das últimas ações militares ocorreu em
1982, quando o Exército israelense invadiu o Líbano e obrigou os palestinos a
retirar-se de suas bases.

No
início do século XIX praticamente todo o mundo árabe se encontrava sob o domínio
dos turcos, ou seja, do Império Otomano, que desde o início da Idade Moderna
assumira o papel do extinto império muçulmano, tomando a si a tarefa de
divulgar o Islã em vastas regiões da África, Europa e Ásia.
No
final do século XIX, porém, o império turco agonizava, enquanto a Inglaterra
e a França se lançavam à conquista de colônias por toda à parte. Seria a
Inglaterra, aliás, a grande beneficiária da herança dos otomanos. Para melhor
controlar suas rotas marítimas com a Índia — a “pérola do Império Britânico”-,
a Inglaterra ocupou violentamente o porto de Áden (saída para o mar Vermelho)
e, depois, o litoral da Arábia meridional e oriental até o Kuwait e o Bahrein.
Em 1914, o Egito foi igualmente anexado ao Império Britânico.
Por
essa época, outras potências européias já haviam assegurado sua presença no
mundo árabe: os franceses controlavam a Argélia desde 1830, a Tunísia (1881)
e parte do Marrocos (1912), juntamente com a Espanha. Em 1912, a Itália passou
a dominar a Líbia.
Durante
a Primeira Guerra Mundial, os Aliados (liderados pela Inglaterra) conheceram uma
série de fracassos no Oriente Médio. O ataque otomano ao canal de Suez foi
facilmente repelido, mas o avanço britânico através do Sinai não conseguiu
ir além de Gaza, enquanto na Arábia os turcos avançavam até as portas de Áden.
Em 1916, príncipes árabes resolveram sublevar-se contra o Império Otomano:
era o que alguns chamariam mais tarde de “Despertar Árabe” Conscientes de
que os árabes não estavam militarmente preparados para enfrentar os turcos, os
ingleses decidiram ajudá-los. Foi quando entrou em cena oficial britânico
Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o famoso Lawrence da Arábia, que assumiu a
liderança militar da Revolução, organizando as tropas de Hussein Ibn Ali,
xerife de Meca, e comandando as operações contra os turcos. Em 1917-18,
Lawrence e seu aliados árabes apoiaram as tropas do general Allenby e ocuparam
Damasco. Na verdade, os árabes só se sublevaram contra os turcos diante da
promessa dos ingleses de conceder-lhes a independência. O próprio Lawrence,
apesar de oficial britânico, sentia-se fiador dessa promessa. Como conselheiro,
acompanhou a delegação árabe à Conferência de Paz em Versalhes, onde
percebeu que as negociações, conduzidas pela França e pela Grã-Bretanha, não
passavam de uma arapuca armada contra seus crédu1os aliados. Ambas as potências
pretendiam dividir o antigo Império Otomano na Arábia em duas esferas de influência.
Os franceses receberam mandatos no Líbano e na Síria. Os britânicos obtiveram
mandatos no Iraque, Palestina e Transjordânia (mais tarde Jordânia). A península
Arábica acabou integralmente nas mãos de uma dinastia árabe pró-inglesa —
os Saud — e a partir de 1924 passou a chamar-se Arábia Saudita.
Lawrence,
amargurado com a traição inglesa, recusou o cargo de vice-rei da Índia em
troca dos seus serviços prestados ao Império Britânico e alistou-se na Forca
Aérea como simples recruta.
O chamado mundo árabe é constituído por dezenove países, doze dos quais são asiáticos (Síria, Líbano, Jordânia, Iraque, Arábia Saudita, Iêmen, Iêmen do Sul, Sultanato de Omã, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait) e sete africanos (Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos, Mauritânia, Sudão). Estende-se, portanto, do oceano Atlântico ao golfo Pérsico, abrigando cerca de 165 milhões de habitantes. Embora não constituam um Estado autônomo, os palestinos são representados na Liga Árabe pela OLP (Organização de Libertação da Palestina), criada em 1964. Cercado de nações árabes por todos os lados, o Estado de Israel representa, desde que foi criado, em 1948, o principal fator de tensão na região, responsável pela eclosão de várias guerras.

A
Síria, que até 1954 permaneceu na órbita da França, é um dos países mais
conturbados do mundo árabe, sofrendo com a corrupção em altos escalões do
poder, o marasmo econômico e a escalada da violência interna, desencadeada,
sobretudo pelo grupo extremista Confraria dos Irmãos Islâmicos.
Protetorado
britânico até 1932, o Iraque tornou-se República em 1958, integrando em 1963,
com a Síria e o Egito, a República Árabe Unida (RAU), de vida curta. A
situação interna, problemática devido ao prolongamento da guerra com o Irã
(iniciada em 1980), tornou-se crítica com a intensificação de operações
terroristas dos movimentos xiitas de inspiração iraniana.
Independente
da França após a Segunda Guerra Mundial, o Líbano é, hoje, um país
praticamente destruído pela luta interna entre as facções cristã e muçulmana
e pelas operações de guerra entre palestinos e judeus.
Antiga colônia italiana, a Líbia tornou-se uma República em 1969, quando o golpe militar liderado pelo coronel Khadafy, aboliu a monarquia. A partir de então, o pais passou a ter um papel de liderança no mundo árabe graças às posições radicais do coronel Khadafy, que incentiva a ala mais radical dos palestinos, defendendo a tese da total expulsão dos judeus da região.
Como
se não bastasse, o Oriente Médio é, além disso, palco de uma infinidade de
conflitos localizados. É o caso da guerra entre o Irã e o Iraque (o Irã é um
país não árabe, mas profundamente muçulmano), que lutam pelo controle do
golfo Pérsico, onde se encontra a principal reserva mundial de petróleo.
A Líbia tem inúmeros pontos de atrito com o Egito e o Sudão. Paralelamente, no deserto do Saara, há anos se desenrola uma dessas “guerras esquecidas” (no sentido de que pouco se fala delas no Ocidente): a da Frente Polisario, que se acha empenhada em conquistar a independência das populações do Saara. Entretanto, o principal problema da região é a guerra latente entre os palestinos, apoiados pelos árabes, e Israel. Essa guerra caracteriza-se pelas ações terroristas de ambas as partes.

A
partir do final da Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se no Oriente Médio e no
norte da África o pan-arabismo - movimento que tinha por objetivo estabelecer
uma aliança de caráter político econômico-militar entre os países de língua
árabe e cultura islâmica.
Assim,
em 23 de março de 1945, era criada a Liga Árabe, à qual aderiram inicialmente
a Arábia Saudita, o Iraque, a Jordânia, a Síria, o Líbano e o Egito. Mais
tarde juntaram-se a esse núcleo inicial o Iêmen (ainda em 1945), a Líbia
(1953), o Sudão (1956), o Marrocos e a Turquia (1958), o Kuwait (1961), a Argélia
(1962), o Iêmen do Sul, Bahrein, a Federação dos Principados Árabes, Omã,
Qatar (1971), a Mauritânia (1973), a Somália (1974), a Palestina (1976) e o
Djibuti (1977).
Fundamentada
sobre a igualdade de seus membros, a Liga tem por objetivo a consolidação das
relações entre seus participantes, a defesa da independência e da soberania
nacional dos vários países árabes, a colaboração na resolução de
problemas comuns e a co-participação em realizações no campo econômico
(como, por exemplo, a regulamentação do comércio), além da difusão de
normas higiênicas, tendo em vista a profilaxia e cura de doenças
infecciosas.
A
primeira ação importante da organização, ainda em 1945, foi à luta contra a
manutenção das tropas francesas no Líbano e na Síria. Mais tarde, ela se
destacaria na unificação das forças árabes contra o Estado de Israel.
Sediada
no Cairo até 1979, a Liga Árabe funciona hoje em Tunis, capital da Tunísia.
Do
ponto de vista político, alguns países árabes consideram-se progressistas. É
o caso, por exemplo, da Síria, da Líbia, da Argélia, e da República Popular
do Iêmen. No pólo oposto, os emirados do golfo Pérsico e a Arábia Saudita,
com suas organizações e estruturas políticas feudais, pertencem ao bloco dos
“reacionários”. Outros, como o Egito e a Jordânia, possuem regimes políticos
em moldes que se pretendem semelhantes aos dos países ocidentais.
Os
diferentes regimes implicam também diferenças no que se refere às alianças
internacionais. Alguns, como a Arábia Saudita, são pró-americanos; outros, como
a Líbia, são pró-soviéticos. Um terceiro grupo prefere se enquadrar no bloco
dos “não-alinhados”.
Em
1973, o mundo árabe parecia emergir como uma nova potência política no cenário
internacional. Unidos pela poderosa arma do petróleo, temperados na luta
comum contra Israel, pareciam constituir-se numa força capaz de, por exemplo,
abalar a economia do mundo ocidental. De fato, isso ocorreu quando o OPEP
(Organização dos Países Exportadores de Petróleo), onde os árabes são
maioria, resolveu aumentar o preço do petróleo. Por trás dessa demonstração
de força, porém, havia um mundo dividido, marcado por guerras, por divergências
políticas internas e externas, pelo descontentamento de grupos étnicos não
integrados (como os curdos, no Iraque) e pela miséria da população.
Na
verdade há pouco em comum, por exemplo, entre o Egito e o Kuwait, embora
ambos façam parte do mundo árabe. Enquanto uma grande massa de miseráveis
nasce, vive e morre nas ruas do Cairo, sem jamais ter acesso a escolas ou mesmo
a moradia, no Kuwait — que detém a maior renda per capita do mundo (18
435 dólares em 1979) — a população recebe gratuitamente assistência
médica, educação até a universidade, incluindo roupas, alimentação, livros
e alojamento. Entretanto, para observar o contraste entre a miséria e a opulência,
não é necessário se deslocar de um país para outro. Na maior parte dos
Estados árabes, uns poucos privilegiados desfrutam de uma vida opulenta,
enquanto as massas continuam a viver nas mesmas condições de fome e miséria
de cem anos atrás. Aliados a isso, velhos costumes, como cortar a mão dos ladrões
e impor às mulheres o uso de véu no rosto, imprimem à região um caráter
medieval em plena era contemporânea.

Conhecido
na Antiguidade como Império Persa, o Irã foi governado de 1941 a 1979 pelo xá
Reza Pahlevi, que, com métodos ditatoriais, tentou modernizar o país, nos
moldes ocidentais. Tal política despertou o ódio das massas populares e dos líderes
religiosos — os aiatolás —, que não viam com simpatia a ocidentalização
do país e o conseqüente afastamento do povo dos princípios do Corão (a “Bíblia”
islâmica).
A
resistência contra o xá não era apenas de caráter religioso: tanto a corrupção
administrativa como a ingerência dos EUA na política interna do país tendiam
a exacerbar o descontentamento popular. De fato, os norte-americanos haviam
conseguido transformar o xá num leal defensor dos interesses dos EUA e adversário
da URSS no golfo Pérsico, num momento em que a influência soviética no
Oriente Médio estava em plena expansão. Esses fatos, além da política
repressiva do xá, colaboraram para a sua deposição em 1979 e para a instauração
da República islâmica em 1980.
Liderada
pelo aiatolá Khomeini, a revolução Iraniana pode ser compreendida como parte
de um movimento mais geral de procura de identidade nacional por parte dos países
que conheceram uma situação de colônia. Khomeini, porém, não conseguiu
pacificar o Irã. Desde que assumiu o poder, milhares pessoas foram presas e
assassinadas. A esse quadro soma-se ainda a crise desencadeada pela guerra
contra o Iraque.