ISRAEL - HISTÓRIA DAS COMUNIDADES
Edição 59 - dezembro de 2007
No final da tarde de sábado, 29 de novembro de
1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a partilha da Palestina e a
criação de dois estados, um árabe e um judaico. Mal transcorreram 48 horas e os
judeus de Alepo foram vítima de violento pogrom.
Sob o olhar complacente das autoridades governamentais e policiais sírias, foram
incendiadas sinagogas, inclusive a Grande Sinagoga, onde estava guardado o
famoso Keter de Aram Tzoba, o Códex ou Códice de Alepo, orgulho da comunidade.
Ademais, foram vítima de ataque e vandalismo várias instituições judaicas, além
de estabelecimentos comerciais e residências. Milhares de judeus decidem deixar
a Síria. Começava o fim de uma comunidade que, segundo a tradição, se
estabelecera em Aram Tzobá, nome da cidade na Torá, ainda no reinado de David,
quando Joab Ben Zeruiá, seu comandante-chefe, conquistou a região. (Ver Morashá
nº. 26).
O pano de fundo
Os trágicos acontecimentos de dezembro de 1947 ocorreram praticamente um ano
após a França reconhecer a independência Síria. Após o término da 1ª.Guerra
Mundial, quando o país passou para o domínio francês, crescera, principalmente
em Damasco, o nacionalismo árabe. Presente em todo Oriente Médio, este movimento
se opunha ao colonialismo e à política ocidental de envolvimento no mundo árabe.
Na Síria, assim como em outros paises islâmicos, este nacionalismo acabou
infectado por violento anti-sionismo e conseqüente anti-semitismo. A partir da
década de 1930, após a Alemanha nazista estreitar seus laços com os líderes
árabes sírios, intensificou-se no país e principalmente em Damasco a propaganda
anti-judaica.
O movimento nacionalista sírio foi fortalecido ainda mais quando, em 1940, dois
professores formados pela Sorbonne, em Paris, Michel Aflaq e Salah Bitar, fundam
o "Movimento do Renascimento Árabe", em Damasco. Um "clube de discussões" que,
em 1947, tornar-se-ia o partido Baath (ou renascimento, em árabe), até hoje no
poder, na Síria. Apesar de pregar que a nação árabe devia livrar-se da nefasta
influência do Ocidente, Aflaq e Bitar eram fascinados pelas idéias nazistas e o
pan-germanismo. A grande admiração que o movimento nutria por Hitler, fez com
que alguns grupos, como a Organização da Juventude Nacionalista Árabe,
mantivessem estreito contato com a Alemanha nazista. Enquanto o país estava sob
Mandato Francês, as autoridades francesas locais, mesmo na época de Vichy,
defendiam os judeus de ataques de árabes extremistas.
Com a saída dos franceses, o novo governo adotou uma série de medidas
restritivas contra os judeus. Entre estas, a proibição de emigrar para a então
Palestina e a restrição ao ensino do hebraico nas escolas. Nas rádios e nos
jornais, era cada vez mais comum a propaganda anti-sionista e anti-semita,
havendo registros de atos de violência contra os judeus, em Damasco.
O crescente antagonismo entre judeus e muçulmanos, na então Palestina,
cristalizara ainda mais a hostilidade contra os judeus, e o clima de tensão
cresceu durante os debates da ONU sobre a partilha da região e criação de um
estado judaico independente.
Durante os debates da Assembléia Geral, inúmeros delegados árabes fizeram sérias
ameaças contra as comunidades judaicas desses países. Em 24 de novembro, o
delegado egípcio, Heykal Pasha, declarou: "As Nações Unidas... não devem
esquecer o fato de que a solução proposta pode colocar em risco um milhão de
judeus que vivem em países muçulmanos... poderá vir a criar nestes países um
anti-semitismo mais difícil de ser eliminado do que o existente na Alemanha...
fazendo com que a ONU se torne responsável por gravíssimos tumultos e pelo
massacre de grande contingente de judeus"1.
As palavras de Al-Hussayni, observador palestino na ONU, não foram diferentes.
Ele alertou o plenário de que "a situação dos judeus no mundo árabe ficaria
muito precária. Governos, em geral, nem sempre conseguem evitar a excitação da
violência em meio às massas"2. Segundo o New York Times, já em fevereiro de
1947, Faris Al-Khuri, delegado sírio nas Nações Unidas, fizera ameaças: "Teremos
dificuldade de proteger os judeus no mundo árabe".
As ameaças não eram vazias, pois, em todo mundo árabe, os políticos haviam
criado um clima de histeria, ajudados pela mídia que bombardeava seus leitores
com matérias sobre a "perfídia" e o "perigo" sionista.
Dias de violência
Naquele 29 de novembro de 1947, em todas as partes do mundo, os judeus estavam
atentos às vozes que vinham dos aparelhos de rádio. Assim que o resultado da
votação foi transmitido, houve júbilo e orações de agradecimento, por toda a
parte. Milhares saíram às ruas, abraçando-se e chorando. Em Jerusalém, apesar de
já ser madrugada quando terminou a votação, uma multidão dançava e cantava nas
ruas. Em todo o mundo árabe, porém, a situação era tensa, sentindo-se no ar a
frustração e o ressentimento que tomava conta das massas, já incendiadas pelos
discursos de líderes mais exaltados.
Em Alepo, no domingo, 30 de novembro, dia seguinte à votação, a população árabe
acordou calma. Apesar de ser dia de trabalho, as autoridades haviam fechado a
cidade, ficando, árabes e judeus, em casa. Mas, no dia seguinte, segunda-feira,
as ruas foram tomadas por grupos de árabes exaltados. O governo, que dera ordens
para que nenhum judeu fosse morto ou ferido, autorizou o ataque e a destruição a
qualquer propriedade pertencente a eles. Tendo recebido o sinal verde das
autoridades, começam então a invadir, destruir e queimar, fossem sinagogas,
locais de estudo, escolas ou residências. As lojas cujos donos eram judeus eram
marcadas, para, a seguir, serem saqueadas e destruídas. A violência que se
abateu sobre os judeus da cidade não poupou nem a Grande Sinagoga e nem mesmo o
"Códex de Alepo".
A Grande Sinagoga é incendiada
No livro Aleppo, City Of Scholars, de autoria do Rabi David Sutton, há relatos
de rabinos que testemunharam a destruição e incêndio da Grande Sinagoga, cuja
parte mais antiga e ainda remanescente data do século 5 E.C.
Nas primeiras horas da manhã daquela segunda-feira, 1º. de dezembro, soldados
foram deslocados para a porta e o entorno da Grande Sinagoga para protegê-la,
mas os eventos que se seguiram provaram que a suposta proteção não passava de
uma grande farsa.
Segundo relato do Rabino Moshe Tawil, na época diretor do Midrash Degel Torah,
naquela manhã, dois líderes da comunidade, Rahmo Nehmad e Siahu Shamah,
reuniram-se com o prefeito da cidade, que também ocupava o posto de chefe da
polícia. Na reunião, pediram garantias e segurança para a comunidade, tendo o
prefeito assegurado sua proteção contra todos os perigos que pudessem surgir.
Porém, relembrou o Rabino Tawil, ao voltar do encontro, Shammah revelou ter
percebido que não poderia confiar na palavra do prefeito.
Como atestou o Chacham Haim Levi - na época, diretor do Talmud Torá e que
futuramente iria ocupar o posto de Rabino-chefe na Argentina - no início da
tarde daquele mesmo dia, uma multidão de árabes enraivecidos foi-se agrupando
nas proximidades da Grande Sinagoga, gritando: "A Palestina é nossa terra e os
judeus, nossos cachorros". Essas provocações não suscitaram qualquer reação de
parte das autoridades locais.
No final da tarde a sinagoga foi atacada. Os mais exaltados subiram nos ombros
de outros, inclusive de soldados, para conseguir pular o muro e entrar no pátio.
Assim que o fizeram, escancararam os portões da sinagoga e a multidão enfurecida
varou para dentro.
Entre os que observavam os terríveis acontecimentos estavam o Rabino Moshe Tawil,
que vivia no bairro de Jamileyé, e o Rabino Yitzhak Chehebar e esposa, que
avistavam a Grande Sinagoga da janela de sua casa.
Em menos de meia-hora, árabes ensandecidos arrancaram 40 Torot dos setes
Hechalot (Aaron Hacodesh) da sinagoga. Jogaram-nas no pátio, rasgaram os rolos
sagrados e depois atearam fogo. Quase dois mil tefilin foram atirados à mesma
fogueira. Os soldados, além de sequer tentar impedir a violência, incentivaram e
ajudaram o vandalismo.
Quando os bombeiros chegaram para supostamente apagar o incêndio que já ameaçava
alastrar-se por todo o edifício, ao invés de usar água para apagar o fogo,
jogaram diesel e querosene nos textos sagrados, alimentando as chamas.
Em seguida, a turba árabe atacou casas de judeus, saqueando-as e as incendiando.
A violência durou a noite inteira e somente nas primeiras horas da manhã os
soldados sírios surgiram para dispersar a multidão.
O Rabino Moshe Tawil relembrou que, no dia seguinte, o prefeito e chefe da
polícia - o mesmo que "garantira" tranqüilidade e segurança à comunidade - foi
até o local. "Chegou com um sorriso no rosto e sua expressão não mudou quando
viu a destruição. Na realidade, não parecia nem um pouco alterado com o que via,
mais parecia satisfeito, e continuou a sorrir", completara em seu depoimento o
pesaroso o rabino.
O Keter é salvo
O incêndio que atingiu a Grande Sinagoga danificou o Keter de Aram Tzoba, o
manuscrito mais antigo que se conhece do texto completo da Torá. Zelosamente
guardado há mais de 600 anos, entre suas paredes, esse Códice era mantido em um
cofre de ferro, dentro do local chamado de Caverna de Eliahu Hanavi. O cuidado
era tanto que pouquíssimas pessoas eram autorizadas a consultá-lo.
O Keter foi recuperado e salvo por membros da comunidade, mas por causa da
confusão reinante na cidade, não se sabe ao certo a seqüência exata dos fatos.
Nove diferentes relatos foram identificados pelo pesquisador Amnon Shamosh,
autor do livro The Story of the Aleppo Codex.
O que se sabe é que, por alguns dias, os judeus não tiveram acesso à sinagoga,
pois, após as chamas destruírem grande parte de sua estrutura, o exército
assumiu o controle do local, proibindo a entrada de judeus. Segundo uma das
versões, teria sido Mordechai Faham, personagem importante na história do Keter,
que, disfarçado de beduíno, entrou na sinagoga e salvou o manuscrito antes que o
fogo o consumisse. Em seguida, entregou-o ao shamash da sinagoga que o levou a
Moshe Mizrahi, Rabino chefe de Alepo.
Outros, porém, contam que o Keter ficou abandonado nas ruínas, durante quatro
dias, até que foi permitida a entrada dos judeus no local. Os primeiros foram um
grupo de rabinos que encontraram o manuscrito em uma pilha de cinzas e
escombros. Nesse primeiro grupo estavam os rabinos Sadek Harari e Yaakob Attiah,
além dos rabinos Moshe Tawil, Yitzhak Chehebar e Shelomo Zafrani, que, nos dez
anos seguintes, desempenhariam um papel fundamental, pois foram eles que
conseguiram esconder o Keter em diferentes locais até conseguir retirá-lo da
cidade. Os rabinos logo constataram a falta de muitas de suas páginas; das 487
folhas originais só 295 foram recuperadas. Juntaram, contudo, todo o material e
o entregaram ao Rabino-chefe Moshe Mizrahi. Este imediatamente o levou para a
casa de um amigo cristão, o cônsul da Áustria. Assim que a situação se
estabilizou, o precioso manuscrito foi escondido entre mercadorias, em um
almoxarifado pertencente a Yaakob Hazan, secretário da comunidade. Nos dez anos
seguintes, em várias ocasiões o governo sírio chegou a perguntar ao Rabino Tawil
pelo paradeiro do Keter, ao que ele respondia ter sido destruído.
Em 1957, os rabinos Moshé Tawil e Shlomo Zaafrani entregaram o precioso
manuscrito a Mordehai Faham que o levou secretamente para a Turquia e, de lá,
finalmente, para Jerusalém, em 1958.Chegando a Israel, foi entregue ao Instituto
Ben-Zvi e colocado em compartimento especial, climatizado. E em 1986 foi levado
para restauração nos laboratórios do Museu de Israel, onde passou a ser exposto.
O fim de uma comunidade
Apesar de variarem os números, acredita-se que por volta de 10 mil judeus
vivessem em Alepo, em novembro de 1947. O violento pogrom deixa um pesado saldo.
Tinham sido arrasados 18 sinagogas, 150 residências, 50 lojas, 5 escolas, um
orfanato e um centro de juventude. Haviam queimado 1.500 Sifrei Torá e um grande
número de livros e manuscritos. Os prejuízos materiais da destruição foram
avaliados, na época, em US$ 2,5 milhões.
Apesar de se terem registrado vários casos de solidariedade por parte de
vizinhos e amigos árabes, os acontecimentos daqueles primeiros dias de dezembro
de 1947 eram um sinal muito claro de que a vida judaica na Síria seria cada vez
mais precária e perigosa. Milhares decidem deixar Alepo o mais rápido possível.
Mais de 6 mil deixaram a cidade nos dias e meses que se seguiram, a maioria
atravessando as fronteiras para a Turquia e o Líbano, onde se estabeleceram ou
seguiram viagem para Israel, Europa, Estados Unidos ou América do Sul.
Deixaram a cidade, como fugitivos, clandestinamente, para nunca mais voltar.
Fecharam as portas procurando não chamar a atenção dos vizinhos árabes e se
foram. Deixaram tudo para trás - propriedades, lojas, dinheiro e lembranças. Não
podiam levar consigo nada que despertasse a suspeita de estarem fugindo. Alguns
saíram disfarçados de árabes ou beduínos. Muitos foram de trem até o Líbano ou
de carro por uma das duas estradas que levavam até Beirute. Em várias ocasiões
as autoridades chegaram a parar os transportes que levavam os judeus, mas, após
os apelos feitos por influentes membros da comunidade judaica, mudavam de idéia,
deixando-os seguir viagem.
A situação piorou após a criação do Estado de Israel, em 1948.
Os judeus se tornaram verdadeiros reféns das autoridades; as perseguições e
discriminações se tornavam cada vez mais severas e comuns. Apesar da proibição
de deixar a Síria, as lideranças organizaram-se para facilitar a partida. Os
riscos eram grandes, pois, se capturado, um judeu que tentasse fugir podia ser
executado ou condenado à prisão perpétua, em regime de trabalhos forçados. Em
1950, três anos após o pogrom, apenas 4 mil judeus ainda viviam em Alepo; em
1960 havia mil e, hoje, o número dos que lá permanecem é insignificante. A
Grande Sinagoga foi parcialmente reconstruída, em 1992, e uma placa recorda os
trágicos eventos de dezembro de 1947.
Bibliografia
· Beker, Avi - The Forgotten Narrative: Jewish Refugees from Arab Countries,
Jewish Political Studies Review, 2005, Jerusalem Center for Public Affairs
· Rabi Sutton, David, Aleppo, City Of Scholars
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 19/12/2007 17:15
assunto ORIENTE MÉDIO >> ISRAEL - HISTÓRIA DAS COMUNIDADES