HOMENAGEM AO GEN.MEDEIROS - TEXTO E FOTOS
General
Octavio Aguiar de Medeiros
28
out 1922 -
05 set 2005
Israel
Blajberg (*)
Os dias de setembro costumam
ser frios. E foi numa destas típicas tardes geladas das Agulhas Negras que
comitivas vindas de diversas partes do Brasil se reuniram na AMAN, para marcar o
primeiro aniversário do passamento do Gen Medeiros.
Era como se a natureza também
quisesse homenagear o General, fazendo com que o dia fosse um dos mais frios do
ano, evocando o clima tradicional que caracteriza a cidade e a Academia aonde
ele chegou em 1959, ainda nas fases iniciais da carreira que mais a frente
levaria aquele homem simples e decidido a ocupar
tantas e tão relevantes funções.
O General Octavio Aguiar de
Medeiros nos deixou justamente no primeiro dia do mês de Elul do calendário
hebraico.
Elul, último do ano, é o mês
de preparação para os grandes Dias Festivos do Ano Novo, quando a Bíblia
registra que Moises recebeu a Torá e carregando as Tábuas gravadas com os Dez
Mandamentos, encontrou o Bezerro de Ouro no acampamento. Quebrou as Tábuas e no
dia seguinte subiu novamente ao Monte Sinai para rezar pelo perdão de D'us. 40
dias depois desceu trazendo consigo
as segundas Tábuas e a Divina mensagem de perdão.
O Grande Arquiteto do
Universo, ao permitir que seu filho Octavio partisse em Elul, nos legou uma
mensagem em honra a correção e a postura do grande Soldado que foi. Pois Elul
é o mês da tribo de Gad, cujo pai, o Grande Patriarca Jacob mandou que
organizasse um acampamento e uma legião. Como Gad, o General Medeiros foi um
grande líder militar.
Portanto, a alma do General
Medeiros mercê em vida de sua modéstia e resignação diante de toda
adversidade, mereceu grande piedade do Criador, incorporando-se a corrente da
vida eterna no significativo mês de Elul.
Já
trazia do berço uma linhagem de
militares, e a Engenharia brasileira possivelmente perdeu um ilustre nome, eis
que chegou a se matricular e cursar por algum tempo a tradicional Escola
Polytechnica do Largo de São Francisco, até que o resultado do exame médico
na Escola Militar do Realengo foi reconsiderado, determinando o seu ingresso na
carreira das armas.
O
Cadete do Realengo iria percorrer toda a hierarquia até o último posto, mas
certamente foi aqui na AMAN onde viveu alguns dos seus melhores dias comandando
o Curso de Artilharia, tanto é que foi o local escolhido pelos seus antigos
Cadetes das turmas de 1959 a 1962 para prestar a homenagem na forma de uma placa
recordatória, paradigma a novas gerações de Artilheiros.
O
ônibus vindo do Rio se detém diante no novo prédio do Comando, onde um busto
dourado recorda o Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, idealizador
da Academia.
Cumprimentos,
reencontro de antigos camaradas, um café quente, e logo nos dirigimos à
maquete, onde o General Farias descreve as mudanças que ocorreram desde o tempo
em que aqueles jovens Cadetes do final da década de 60, hoje Generais e Coronéis,
passaram alguns anos de suas vidas.
Em
seguida nos dirigimos ao Curso de Artilharia. Diversos do grupo se quedam
pensativos. Durante o percurso do ônibus, um turbilhão de pensamentos e
saudades ao divisar os pátios que se sucedem, os alojamentos, lembranças das
formaturas, das manobras, o dia clareando, o frio igual ao do dia de hoje, meses
seguidos dedicados à instrução e ao estudo, até o dia tão sonhado onde numa
manhã festiva cada qual recebeu da madrinha a tão sonhada espada de Oficial do
Exército.
O
ônibus se detém diante do Curso de Artilharia. Os acordes de vibrante dobrado
executado pela Banda interrompem devaneios dos que sonhavam com aqueles tempos.
Ao
longo da alameda as peças tão familiares, desde o obuseiro 105 mm M2A1 até os
Krupp e Schneider 75 do tempo da hipo, familiares para os mais antigos, e mais
além os L-118 Light Gun, M 56 Otto Melara, M 108 AP, novas siglas nem todas
alcançadas na Ativa.
Alguns
do grupo já não voltavam há anos, encantando-se em rever aquelas instalações,
a galeria dos antigos comandantes, os parques, as salas de instrução. Mas o
tempo passou e novas tecnologias são exibidas aos antigos cadetes. Tudo muda,
apenas o espírito dos Velhos Artilheiros permanece, sob a égide de Mallet e da
Santa Bárbara, que entronizada em seu Oratório protege a seus devotos.
A
solenidade se inicia, sob o manto de uma emoção palpável. Os oradores se
sucedem em vibrantes alocuções, recordando como se fosse hoje o
então Major Medeiros. Era como se ele próprio pudesse ainda estar ali,
naquela mesma sala ... O friozinho
da tarde com o céu nublado parece tornar as palavras ainda mais carregadas da
sua lembrança.
Ao
fundo de suaves acordes da Canção da Artilharia interpretada pela Banda de Música,
sua rica biografia é lida para os presentes, enumerando as comissões que
exerceu. Sempre destacadas, desde o berço da Reserva nos CPOR Curitiba e Belo
Horizonte, até a AMAN; de Tel-Aviv, nosso primeiro Adido, abrangendo a Guerra
do Yom Kippur, até a Amazônia, já General de 4 estrelas; do Gabinete Militar
a sensível área das Informações, onde jamais permitiu um único deslize, o mínimo
desvio de conduta que fosse.
Da
parede, seu filho mais novo descerra o tecido verde-amarelo que sobre a placa
pendia, revelando os dizeres ora legados para as futuras gerações de Cadetes
que por ali passarem, eternizando no bronze toda a memória
de uma vida dedicada à Artilharia de Mallet e ao Exército de Caxias, em
suma ao Brasil.
A
cerimônia chega ao final, com a última estrofe da Canção da Artilharia
entoada pelos presentes. As palavras saindo da pequena ante-sala do Curso se
espalham pelo gramado em volta; o vento gelado das Agulhas Negras que começa a
soprar no finalzinho da tarde as recolhe e carrega para os vales profundos da
montanha, tantas vezes percorridos pelo Major Medeiros e seus Cadetes em
elaboradas manobras, escolas de fogo, Exercícios de longa duração, como que a
querer procurá-lo. Quem sabe paira por ali ?
Após
a confraternização no coquetel, retornamos para casa. A noite vai chegando,
escurecendo o interior do ônibus, estimulando o silêncio e o repouso.
Entrecortando os pingos de chuva que batem nas janelas, do firmamento remoto
estendendo-se ao longo da planície e superando colinas suaves, ouvem-se
trovoadas distantes, como se fossem
salvas de imaginários canhões ao longe.
Recostados na poltrona, a imaginação fazendo com que a alma oscile no éter, nos instantes que medeiam até que o sono chegue fica a certeza de que alguma força sobrenatural desejou homenagear a memória do General, pelo estrondo poderoso daquela que domina no mar, no ar, na terra ...

(*)
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iblaj@telecom.uff.br
05 set 2006