Depoimento de "Brian Urquhart" 

 TV Cultura - SP., dia 24 de outubro de 1995


Homenagem  aos  50 anos da ONU

(Na visão de BRIAN URQUHART - Ex - Chefe da Força de Paz da ONU)

Quando criança costumava visitar o local onde era o CASTELO DE NAVAM, para ver as fortificações de ARMAGH. Os povos que ali viveram, há mais de 3.000 anos, construíram enormes estruturas como refúgio seguro para os tempos de Guerra. È um exemplo marcante da preocupação ancestral do ser humano com sua segurança, bem como dos esforços que faziam para obtê-la. Hoje em todo  mundo  a  busca  de  segurança  continua. Passei grande parte de minha vida nas NAÇÕES UNIDAS trabalhando na Força de Paz e controle de conflitos.  Estou convencido de que as Nações Unidas, que agora completam meio Século de existência, precisam descobrir novos meios de conquistar a Paz e tornar nossas vidas mais seguras. 

CRISE DAS NAÇÕES UNIDAS

A onda atual do catecismo é crítica, é também um forte indicativo de que os métodos do passado não estão mais funcionando nas circunstâncias atuais. De uns tempos para cá as FORÇAS DE PAZ têm sido vítima da avareza pública.  Mas as críticas têm sido fortes demais e são também mal informadas.  Entre tantas operações da ONU atualmente em curso, somente uma ou no máximo duas são polêmicas. E mesmo essas têm salvo milhares de vidas e  vêm realizando um trabalho considerado essencial  pelo Conselho de Segurança da ONU. Quando a taxa de criminalidade é alta não se deve acabar com a polícia, deve-se reforça-la bem como torna-la mais eficiente.  É isso que devemos fazer com as operações da ONU, de Segurança e de Manutenção de Paz. Mas antes vamos examinar como chegamos a essa conclusão, ou, a esse ponto.

A Primeira Guerra Mundial nunca deveria ter ocorrido. Em 1914 não havia nenhuma instituição internacional, nem meios de se fazer com que as nações usassem o bom senso na tentativa de evitar ou de prevenir a Guerra. O resultado está registrado nas histórias de quatro anos de massacre. A primeira tentativa de se criar uma Organização Mundial foi com a Liga das Nações, a qual foi concebida para evitar que esse tipo de desastre pudesse ocorrer novamente.  A Liga das Nações se enfraqueceu, em parte, porque justamente seus criadores - os EUA, acabaram, de última hora, não entrando nela, isto é desistiram de participar.

Mais tarde as demais Nações participantes acabaram por perder a fé e o entusiasmo, e fracassaram justamente no momento em que poderiam ter feito alguma coisa, e evitar a eclosão da Segunda Guerra. Deveriam unir-se para deter o grande poder de agressão do Japão, da Alemanha nazista e da Itália fascista. E assim chegamos a Segunda Guerra Mundial. Caracterizava-se como uma Guerra que poderia ter sido evitada. Foi terrível e atingiu mais países em relação à Guerra anterior. Depois de seis anos de morte e total destruição, os vencedores decidiram unir-se e estabeleceram, como sucessora da fracassada Liga das Nações, uma organização que fosse forte o bastante para salvar futuras gerações dos horrores da Guerra. Em 1945, antes mesmo de ser proclamada o fim da Segunda guerra mundial, já estava pronto o Plano de um sistema internacional para evitar os desastrosos erros das décadas  de  20 e de 30.  Embora nem todo mundo estivesse em paz, havia bastante otimismo e confiança nas novas bases de uma paz mundial. 

REUNIÃO DA ONU ....

Essa primeira Conferência devotará suas energias e trabalhos a um único problema: o de estabelecer uma organização destinada a manter a paz, teríamos então a Carta Fundamental. Os arquitetos da ONU queriam se assegurar de que o tipo de agressão que levou à Segunda Guerra Mundial nunca mais viesse a ocorrer. Mas infelizmente, o tipo de segurança coletiva que eles criaram foi baseada numa aliança formada em tempos de Guerra, pela China, França, Reino Unido, e a então União Soviética. Essas potências se tornaram os cinco Membros Permanentes do Conselho de Segurança, com direito a veto, logo essa unidade acabou dando lugar às hostilidade incessantes da "Guerra Fria". Mas na Conferência para aprovação da Carta das Nações Unidas, O Sr Presidente da assembléia, assim se pronunciou:-..."É meu dever, honra e privilégio anunciar a votação da Carta das Nações Unidas. Convido os Líderes das Delegações que apóiam a aprovação da Carta, para que se levantem e Declarem seus nomes, junto aos de seus países de origem"...A ONU foi concebida como uma Associação de Estados Independentes e soberanos uma vez que seus membros  eram soberanos.  A Carta determinava que a ONU deveria intervir em conflitos internacionais. Mas não deferia interferir em assuntos internos dos países que a formavam. (Nessa Assembléia alguém gritou ..." a Liga está morta! Vida longa às Nações Unidas!".) Quando os 51 países(Estados)  da nova Organização Mundial, que se faziam representar, determinaram uma nova Reunião, onde pela primeira vez, em 1946, o trabalho parecia claro. Repúblicas cansadas de Guerras viam nos EUA como um dos seus salvadores e grande esperança. As implicações internacionais de Armas Nucleares, ou a crescente rivalidade entre Ocidente e Oriente ainda não haviam surgido.

Como ainda não havia uma sede permanente para abrigar a Organização, líderes e ministros dos países foram para a Inglaterra para a Primeira Sessão da Assembléia Geral.  E em Londres, cinqüenta (50) anos depois é difícil resgatar o viço e o entusiasmo daqueles dias primeiros, quando a primeira Assembléia Geral da ONU se reuniu, no Central Hall.  Foi declarado aberto a primeira Sessão da Primeira Assembléia das Nações Unidas. Naquela ocasião, em discurso de boas vindas, o Primeiro Ministro Inglês - CLEMENT ANTLEE - expressou as aspirações de todos quando disse que o maior objetivo da ONU seria não só a negação da Guerra, mas a criação de um mundo de segurança e liberdade, um mundo governado pela justiça e leis da moral.  Disse... "queremos assegurar que a luz prevaleça sobre o poder, e o bem geral sobre todos os objetivos egoístas. Precisamos ter sucesso e teremos".

Com o advento da Guerra Fria, ficou congelada a capacidade dos governantes de atingir um consenso quanto a uma ação conjunta de conter uma agressão.  Em vez disso, surgiram gradualmente outras formas de controle de conflitos. Foi o que chamamos de FORÇA DE PAZ, que surgiu de improviso do Embaixador do Canadá, como uma resposta às necessidades que os conflitos impunham para que se criasse um espaço favorável à negociação e a reconciliação.

 

A TRAGÉDIA DA PALESTINA

(The Palestine Tragedy  -Commentary by Jay Sims "News of the Day" – journal)

A Tragédia na Terra Santa - Dois caminhões com explosivos foram pelos ares em um bairro de Jerusalém, matando 60 pessoas e destruindo vários prédios. Esse atentado alertou a ONU fazendo com que houvesse uma reunião de emergência para discussão do caso que passou a ter repercussão mundial, para uma discussão que o caso requeria. O conselho de Segurança discutiu e aprovou que seria preciso acabar com perdas de vida na Terra Santa. A ordem era..."É preciso que seja decretado cessar fogo na Terra Santa".

Com o fim do domínio Inglês na Palestina, em 1948, e o nascimento do Estado de ISRAEL, a ONU caiu numa crise de dimensões internacionais.  A primeira guerra entre Árabes e Israelenses. O Conselho de Segurança exigiu uma trégua e designou como mediador o Conde FOLKE BERNADOTTE, da Suécia.  Ele foi ajudado pelo representante americano na ONU, RALPH BUNCHE. A primeira missão de Bunche foi conseguir a trégua e organizar os Observadores da ONU para monitorá-la e supervisiona-la. Eles seriam o PRIMEIRO GRUPO DE PAZ DA ONU que o mundo conheceu.   Ralph Bunche disse:-..." os observadores da ONU não estão aqui só para reportar violações de trégua, ou deter as já ocorridas, ou em vias de acontecer, mas sim para impedir, através da vigilância, as violações de trégua mesmo que ocorram.". Quando Bernadotte, da Suécia, foi assassinado em Jerusalém, em 1948, Ralph Bunche assumiu o Posto, ele sabia que um cessar fogo não duraria se não houvesse um arranjo permanente para a manutenção da Paz. Em reuniões, na Ilha de Rodes no Mediterrâneo, conseguiu negociar Armistício entre ISRAEL e seus quatro vizinhos Árabes. Por esse feito ganhou o Prêmio Nobel da Paz, daquele ano. Esse Armistício demonstrou a capacidade da ONU para mediar um conflito sério e evitar uma ameaça perigosa contra a Paz, uma vez que a Guerra Fria já era uma evidência. Os Observadores Militares da ONU tornaram-se a Organização de Supervisão da Trégua da ONU, na Palestina, em operação que vigora até os dias de hoje.   Era  composta por pessoas imparciais, objetivas, desarmadas e também muito corajosas.  Sua Missão era manter a trégua sem conceder vantagem a nenhum dos lados (e esse sempre foi o modis operandis da ONU). Um Grupo semelhante a esse foi introduzido em CAXEMIRA para monitorar o cessar-fogo entre o Paquistão e a Índia, em 1948. Após sete anos de relativa paz, uma nova crise irrompeu no Oriente Médio. Gamal Abdel Nasser, o Líder egípcio, nacionalizou a Companhia do Canal de Suez, em julho de 1956.  A França e a Inglaterra reagiram de imediato e com violência, vindo a ter a colaboração e a participação de Israel em um Plano Secreto para tentar derrubar Nasser, com Militares de três Países estrangeiros em ação no Egito, esse conflito virou uma grande e apreensiva crise Internacional, com ameaças de uma nova Guerra Mundial.

Para evitar o desastre Sir LESTER PEARSON, Embaixador do Canadá, fez um apelo dramático na Assembléia Geral da ONU, pedindo ao Secretário Geral que apresentasse, em 48 horas, um Plano de Emergência para formação, com o consentimento das Nações envolvidas, uma FORÇA INTERNACIONAL DE EMERGÊNCIA DA ONU, para assegurar e supervisionar a supressão das hostilidades, de acordo com os Termos da Resolução  acima mencionada. 

A proposta do Ministro do Exterior do Canadá, foi um marco no desenvolvimento do que chamamos nos dias de hoje de FORÇA DE PAZ.  Exatamente a partir desse momento histórico surgiram então os "CAPACETES AZUIS", e a Primeira Força de Paz entrava em ação na história da humanidade.  Desde então, observadores militares desarmados vêm realizando um bom trabalho de monitoramento e de supervisão das tréguas no Oriente Médio e também na Caxemira. Mas é importante relembrar que em  outubro de 1956 tínhamos um Guerra de Verdade, uma Guerra de fato. Não era o suficiente, simplesmente, tentar levar mais observadores militares ao local (Oriente Médio). O que era necessário era isto sim uma FORÇA DE PAZ REAL. A ONU pediu que a França, Inglaterra, mais Israel, saíssem de imediato do Egito. A França e Inglaterra obedeceram de imediato, mas Israel somente depois da chegada da Força de Paz. A  FORÇA DE PAZ DA ONU criou uma zona neutra  que ficava entre as terras do Egito e de Israel, sustentando a trégua e a paz por 10 anos consecutivos. Quando Nasser pediu que as Forças de Paz da ONU deixassem o Egito, em maio/junho de 1967, aconteceu a Guerra relâmpago, cujo desastre resultante foi a GUERRA DOS SEIS DIAS. Cujos fatos vieram demonstrar como pode ser vital e importante a presença de uma Força de Paz, que era pequena em sua estrutura, porém indispensável para a paz no Oriente Médio.

Foi um lamentável erro do Sr. U Than, então Secretário Geral da ONU em 1967, aceitar a retirada da Força de Paz do Oriente Médio, sem uma  negociação ou sem uma última tentativa de preservação daqueles soldados da Paz na Região. Durante a sua Missão, a Força de Paz da ONU planejou sua operação como uma técnica de conflitos, seu princípio constitui-se como a base de outras operações que se sucederam. No  inicio  das  operações  das  Forças  de Paz no Egito, o então Secretário Geral da ONU,  DAG HAMMARSKJOLD , em discurso à frente de toda tropa da Força de Paz, no Egito, disse, em locução vibrante:..."vocês como Membros da Força de Paz da ONU, estão participando de uma experiência nova na história da  humanidade.  Vocês  Soldados da Paz - da  primeira Força de Paz Internacional desse tipo - vieram de Pátrias distantes, não para fazer a Guerra, mas para servir a justiça, à paz e a ordem sobe a autoridade das Nações Unidas.  Vocês têm o apoio de milhões em todo o mundo."

Desde a crise de Suez, militares e civis, milhares de pessoas de mais de uma centena de países serviram na Força de Paz em todas as partes do mundo.  E as  Forças de Paz da ONU provaram ser um dispositivo muito útil, não só no Oriente Médio, mas também em vários outros lugares, como em Chipre, no Congo, enfim um sem número de outros lugares, mas essa modalidade teve início no Oriente Médio. Três princípios devem ser respeitados, e sempre foram respeitados:- Em primeiro lugar, as partes envolvidas no conflito devem aceitar a presença da Força de Paz, para ajuda-las a resolver seus problemas, suas diferenças. Em segundo, deve haver um cessar fogo. Terceiro, a Força de Paz nunca usa armas, exceto para casos de autodefesa.

Com o passar do tempo, as Forças de Paz da ONU ampliaram em muito o âmbito de suas atividades, Enfatizo a ligação entre a paz, a democracia e a estabilidade, indo até o monitoramento de eleições em países que apresentam conflitos sociais, como na Nicarágua, El-Salvador, Etiópia, Moçambique, Camboja, etc.  também monitoramento dos Direitos Humanos é um fator importante para as Forças de Paz da ONU. Combatentes dos países em conflitos, minas desarmadas, desativadas.  Refugiados são ajudados a retornar a seus lares, e a distribuição de ajuda humanitária, tornou-se possível nas missões dos soldados da Paz. A idéia original da ONU, em relação à paz e a segurança, era a de uma ação coletiva às ameaças a paz e aos atos de agressão. Uma Força de Paz consiste de unidades armadas (em Geral armamentos leves) que se interpõe entre as partes, formando uma Força Neutra. Esse era o elemento radicalmente novo da concepção de PEARSON (Ministro das Relações Exteriores do Canadá e Secretário Geram da ONU em 1948) DAG HARMMARSKJOLD, que em 1956 era o então Secretário Geral da ONU, foi ao Cairo para conseguir permissão de Nasser, para que a Força de Paz operasse no território egípcio.

A primeira Força de Paz foi então reunida em menos de 10 dias.  Seus soldados foram os primeiros a usar, os hoje famosos "CAPACETES AZUIS" O secretário Geral da ONU - Dag Hammarskjold - então se pronunciou em reunião às Autoridades da ONU...."Cavalheiros, acho que todos nós estamos recompensados pelo rápido desenvolvimento dessa Força, que passa a ser uma experiência nova para a ONU". Na verdade quem organizou a primeira Força foi Ralph Bunches, Dag Hammarskjold assumiu a liderança política e criou os conceitos básicos e princípios que regeriam as operações da Força de Emergência da ONU.  Pediu ao Senhor Bunche que informasse sobre a situação da Força de Paz, disse..." as respostas têm sido encorajadoras,  a ONU tinha ofertas voluntárias (inclusive o Brasil), e as ofertas não param de chegar. Na verdade a ONU  tinha ofertas de mais tropas do que provavelmente iria necessitar.

As Forças de  Emergência foram recebidas calorosamente, e desfilando em território egípcio foram muito aplaudidas de maneira festiva pelo povo do Egito. As Forças de Emergência são um exemplo de importância da velocidade quando se monta uma operação de manutenção de Paz. Nos dias de hoje já não se consegue fazer isso tão bem. Muitas das operações da ONU foram e têm ido bem sucedidas, mas o sucesso nunca atrai tanta a atenção do mundo quanto ao fracasso, por isso o esforço de todos, sempre deve ser reverenciado para que reine a Paz entre os homens de vontade.  

Boas notícias, em geral, não interessam a mídia,  as manchetes estão voltadas para o sensacionalismo. Talvez, o que não  fora previsto quando da criação da ONU, é que o mundo estava mudando rapidamente, uma evolução que nenhum cientista, ou nenhuma autoridade poderia prever, mas que não deveria ser omitido, no entanto a ONU ao menos deveria acompanhar essas mudanças com a mesma rapidez do acontecido.  Por exemplo, pode-se ver o nome das 185 Nações Soberanas Membros da ONU no momento atual, considerando que o número de componentes, no inicio da ONU, começou com 51 Nações). Com esse considerável aumento do número das Nações Membros evidentemente surgiram novas questões.  É bom lembrar que a ONU foi criada para lidar com problemas entre Países (Estados), hoje em dia a maior parte das ações e necessidade de intervenções são entre conflitos étnicos e políticos de ordem interna de vários países. 

A ONU ultimamente não tem interferido em conflitos  entre países, e sim em desentendimentos políticos e étnicos internos. No final da Guerra Fria, as operações da ONU começaram a se ater  mais à segurança humana e menos no sentido internacional da segurança, o que na verdade é considerado um avanço.  

Veremos a seguir os resultados dessa mudança mais  tarde. A idéia original da ONU, em relação a Paz, e a Segurança, era a de uma ação coletiva frente as ameaças de paz e aos atos de agressão de uma Nação contra outra.  E  mesmo essa atividade tem sido exercida ocasionalmente no Conselho de Segurança da ONU. Em 1950, uma comissão da ONU denunciou ataques feitos por tropas Norte Coreanas no Paralelo 38 (Coréia do Norte - apoiada pelos Soviéticos, versus Coréia do Sul - apoiada pelos Norte Americanos). O Conselho de Segurança da ONU se reuniu imediatamente determinando que a Coréia do Norte deveria recuar suas forças até  a coordenada geográfica do paralelo 38.  Os Delegados Soviéticos não compareceram perante o Conselho de Segurança da ONU, pois a China era representada por Delegados de Governos Nacionalistas de Formosa e não pelo Governo de Pequim, conforme queriam os soviéticos.

A ONU estava sendo acionada para resolver de imediato esse impasse, e como não havia uma organização militar internacional efetiva, então e por isso foi concedido poderes aos EUA para o comando unificado das Forças na Coréia.  Nessa oportunidade foi sancionado, às tropas dos EUA, o uso da Bandeira da ONU. A Operação na Coréia envolveu muitos países. Foi quase o que aconteceu quando os fundadores tinham em mente quando falavam em uma ação contra uma agressão. 

Foi semelhante a Operação TEMPESTADE NO DESERTO - contra o Iraque, e que foi conduzido pela ONU, porém não foi a ONU que travou a Batalha. Porém numa operação de Paz, como a ocorrido no Oriente Médio, e em outras Operações de Paz, a chamada Força de Paz da ONU não esteve, e nem estará nunca equipada para uma ação de Guerra e não creio que tenhamos, no futuro, envolvimento da ONU, em eventos de grandes ações de força.  Se isso ocorrer será com o consentimento das partes.  Espera-se que sejam conduzidas com a autoridade  e competência da ONU, o que é diferente de dizer que serão conduzidas com recursos da ONU, ou sob o  seu comando.

Sem sombras de dúvidas, a ONU age melhor como Força de Paz, ele deveria deixar que a Guerra, ou o uso da força, sejam feitas por governos nacionais, em cooperações, às vezes com a autorização da ONU, como foi o caso da Guerra no Golfo, ou na Bósnia, mas, subcontratando os países mais bem preparados, em termos de recursos financeiros, com capacidade militar ou mesmo interesse nacionais. A Participação da ONU nas Operações  como Tempestade no Deserto, ou a Restauração da Democracia no Haiti, demonstram que se as condições são adequadas, as idéias originais das Forças são válidas.  E as ações clássicas da Força continuam a Ter um valor inestimável para a preservação da Paz.

Em cerimonial de transição, no Haiti, da Força de Paz Multinacional da ONU, o Secretário Geral da ONU - "BOUTROS BOUTROS GHALI" - DISSE..." em nome da ONU, agradeço a Força Multinacional e aos EUA, sob a liderança do Presidente Clinton.  A Operação Restauração da Democracia, fez jus a seu nome." Hoje a maior parte de suas operações está ligada a conflitos civis e étnicos em Estados desintegrados, como: Iugoslávia, Ruanda, Somália.  Essas são as Operações mais controvertidas na Guerra travada em 1960, no Congo, com o envolvimento da ONU que se deu logo após o país se tornar independente da Bélgica. O Congo mergulhou no caos.  A Bélgica mandou suas tropas  para proteger seus interesses e restaurar a ordem. Houve  uma Batalha entre as tropas Belgas e o Exército Nacional do Congo. O novo governo do Congo pediu ajuda para a então Secretário Geral da ONU. DAG HAMMARSKJOLD, quando a ONU chegou, três dias após a solicitação, teve que assumir a administração do País. Não havia, sequer, uma autoridade central efetiva.  A ordem civil havia entrado em colapso, e três grupos rivais entraram em disputa pelo poder no país.  Hoje, esse tipo de situação é bem conhecida e até comum. Mas no Congo havia problemas adicionais: a Guerra Fria, a rivalidade étnica, e a interferência das superpotências. Tudo isso dificultava muito as operações. 

A ONU ficou dividida, suas operações provocavam um confronto nítido e dramático entre o Secretário Geral - Dag Hammarskjold - e  o mandatário Soviético Nikita Kruschev (URSS), com agressões verbais e ameaças na Assembléia Geral. Kruschev alegava que o colonialismo é intervencionista, dizia que era deplorável, e que estavam fazendo seu trabalho sujo no Congo, através do Secretário Geral da ONU e toda sua equipe. Kruschev chegou, inclusive, a pedir o afastamento e a renuncia de Hammarskjold, o qual rebateu todas as acusações, dizendo entre outras, que permanecia no cargo e em seu posto durante todo seu mandato como um Servidor da Organização e no interesse das Nações, enquanto elas assim o quiserem.

Um ano após esse episódio, Dag Hammarskjold foi morto em uma queda de avião na África, enquanto tentava trazer a Paz para o Congo. Quando a ONU saiu do Congo, quatro anos mais tarde,  tinha conseguido atingir o objetivo que desejava.  Todas as forças estrangeiras haviam se retirado.  Ela (a ONU) ajudou o governo congolês a assumir suas responsabilidades em todo o país. E  mesmo enfrentando três movimentos separatistas preservou o Estado e as fronteiras que tinha quando se tornou independente.  A operação foi tão grande e complexa quanto às operações mais recentes da ONU. Infelizmente, depois da saída da ONU, o Congo retornou às suas histórias de intrigas e intervenções.

Temos um novo problema:- a Guerra Fria acabou e também o processo de  descolonização. Estamos, agora, em um mundo cheio de conflitos étnicos e morais que estavam, de certa forma,  congelados pela Guerra Fria.   A antiga motivação para a ONU agir, com o medo de que o conflito se espalhasse e criasse um confronto nuclear, entre o Ocidente e o Oriente, agora foi substituída por uma ação muito menos poderosa, que foi a pressão para agir por motivos humanitários.  

A ONU tem sido chamada à ação porque os governos não têm nem vontade, muito menos interesse de agir por meios próprios, mas também não querem ser vistos como se não estivessem tomando nenhuma iniciativa.  Por isso a ONU tende a ser vista como um “bode expiatório" nas mais difíceis situações, como na antiga Iugoslávia.  Não é exagero chamar isso de areia movediça... Por que é tão difícil lidar com ela? A ONU tem lidado com pessoas que estão determinadas a ficar no poder a qualquer custo, para isso vemos camponeses sendo equipados  com armas modernas e sofisticadas.

A Força de Paz da ONU acaba sendo colocada diante dessas situações para garantir a ajuda humanitária, ou garantir segurança nos enclaves, como foi o caso da Bósnia. Mas a expectativa da opinião pública, é que elas (as Forças da ONU) acabem com a guerra o que não é a sua Função.  Não têm recursos para isso.  Quando se vai a Estados em situação de colapso, ou a lugares onde há conflitos étnicos, pode-se distribuir alimentos, usar sua presença militar para permitir que a paz seja negociada ou garantir tempo e espaço para um acordo político. Tendo feito isso, deve haver incentivos para que líderes restabeleçam as instituições nacionais, e passem a viver em uma sociedade civilizada.  Mas o que fazer quando não há líderes ou quando há líderes demais?????A ONU retirou suas Forças da Somália. Uma mistura complexa de ajuda humanitária,  reconstrução política e manutenção da paz, combinada com a falta de  uma autoridade civil, faz da Somália um exemplo de um novo tipo de problemas que o mundo terá de enfrentar no futuro. 

Qual a capacidade da ONU reagir de modo rápido e efetivo nessas situações?  Crê-se que no caso da Ruanda o genocídio é um dado novo no debate.  Deve-se aceitar esse novo conceito e problema. Precisa-se achar uma resposta para essa questão, para não enfrentarmos situações como a que tivemos em Ruanda.  Treze países participaram dessa operação.  Quando se pediu tropas pata atuar em Ruanda  nenhum deles disse sim,  isso nos leva a seguinte questão:- Como seria se a ONU tivesse tropas permanentes que pudessem ir para lá? (Ruanda). Mas se a ONU tiver um Exército permanente deverá ser apenas para ir rapidamente ao local e assim preencher uma lacuna até que a Força de Paz chegue.   Só para preencher a lacuna e depois se retirar. A questão da capacidade de deslocamento rápido foi discutida na reunião em Viena, para celebrar os 50 anos das Nações Unidas.  É óbvio que essa capacidade poderia formar mais efetivos às ações da ONU.  Mas quais governos, realmente,  querem isso??  - E mais importante ainda,  quem  arcaria com os custos?

As atividades da ONU na preservação da Paz estão cada vez mais caras, complexas e muito perigosas.  Se não houver uma vontade política para resolver essa questão não poderemos impor a Paz.  Não teremos capacidade de impor o cumprimento das Leis. Não cabe a ONU assumir essa tarefa.  Em outras palavras,  o papel das Nações Unidas é o de auxiliar na preservação da Paz.

Apesar da facilidade que há no Conselho de Segurança, nossa capacidade, nessa fase de pós Guerra Fria, de chegar a um acordo, é muito difícil. Como também é difícil a ONU chegar ao local do crime dentro de um prazo razoável. O objetivo de uma Força de reação rápida seria preencher uma lacuna que existisse tanto no tempo quanto na função entre a Força de Paz da ONU e outras ações concretas previstas no Capítulo Sete (Normas da ONU).  A primeira reação não precisa ser o emprego maciço de forças.  Poderia ser uma equipe Diplomática, poderia ser um grupo de observação,  uma força parcial, ou um grupo de ação policial.   Mas parece que o problema não é entrar no conflito, essa parte é fácil.   Sair do conflito é a parte mais difícil. Não creio que nenhum de nós saiba realmente o que fazer nessas ocasiões e novas situações. Não tenho as respostas e acho que ninguém as tem.  Mas, conclui o Sr. Brian Urquhart,  está claro que temos que pensar em formas de fazer as copias não só diferentes, mas melhores se quisermos lidar com as situações para as quais a ONU não foi preparada para enfrentar.  Ou seja, agir em território de Estado em colapso,  tratar de problemas humanos em larga escala e não de questões internacionais freqüentemente em lugares onde não há nenhuma autoridade legítima. Se aprendi algo nesses anos, é que, de qualquer forma que façamos as coisas sempre iremos enfrentar a  oposição da ESTABLISHENT.

 

Trabalho de elaboração e cópia por Theodoro Silva Junior (Integrante do 10º Contingente do BATALHÃO SUEZ).  

Programa e Reportagem  do depoimento de "Brian Urquhart" apresentado na TV Cultura -SP - no dia 24 de outubro de 1995.  Homenagem  aos  50 anos da ONU.


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