A RELIGIÃO MUÇULMANA


Os fundamentos do Islã.

O islamismo não é uma religião original. Formou-se com base nas religiões judaica e cristã e sua cultura nasceu do encontro das civilizações altamente desenvolvidas da Grécia, Pérsia, Egito e Crescente Fértil. O Crescente Fértil envolvia as ricas terras da Palestina, do Líbano, da Síria e da Mesopotâmia, atual Iraque. Na parte cultural, os conquistadores foram subjugados pelos conquistados. Os contos Alf Laylah wá Laylah (As Mil e Uma Noites) eram originalmente persas, não árabes. Os persas escreveram os mais importantes livros da Hadith (Tradição), tanto da seita xiíta quanto da sunita. Contribuíram também na formação de cientistas como o físico e filósofo Avencina (Ibn Sina), formado nas universidades ocidentais.

Porém, a cultura árabe floresceu esplendidamente durante a Idade Média, enquanto o "período das trevas", ocasionado pela Inquisição, colocou a Europa na mais completa escuridão cultural. Devemos aos árabes a conservação da cultura grega e muitos aspectos culturais europeus inspiraram-se em costumes árabes. Alguns consideram que a concepção da cavalaria, na Europa, a arte bélica desenvolvida em volta do cavalo, foi uma noção que veio do islã.

Paradoxalmente, os muçulmanos preservaram a cultura grega para o Ocidente, que mais tarde iria ser o fermento do Renascimento, quando os cruzados levaram aquela cultura e as ciências árabes para a Europa. Enquanto isso, os árabes permaneceram fiéis aos rígidos ensinamentos do Corão, sem desvio de rota.

Lendo-se o Corão, observa-se que as idéias centrais são repetidas dezenas e dezenas de vezes, como o sermão de um pároco que discorresse sobre um só tema. As ilustrações são diversas, os ensinamentos são veementes, nobres e profundos. O livro sagrado dos muçulmanos afirma como verdadeiras as primeiras revelações divinas: "Verdadeiramente, nós lhes enviamos a Torá, cheia de ensinamento e luz" (5: 45). O Corão relaciona os pecados a serem evitados e as virtudes a serem seguidas.

O Corão prega a liberdade de consciência. É taxativo quando diz que a fé é uma questão de consciência de cada um e não pode ser imposta: "Proclame: Esta é a verdade de seu Senhor; então deixe quem quiser, que creia, e deixe quem quiser, que não creia" (18: 30). Porém, há enunciados corânicos que vão contra os cristãos e judeus, como veremos adiante. Isto, certamente, deve ser a causa da intolerância de muitos muçulmanos frente à civilização ocidental.

O livro dos muçulmanos lembra continuamente as responsabilidades do homem e da mulher, que devem ser tolerantes com as pessoas nas desavenças. O Corão lembra aos filhos que eles foram gerados com a dor da mãe, que os carregou no ventre por mais de 30 meses. Assim, quando a mãe atingir a maturidade, por volta dos 40 anos, o filho deve retribuir a dádiva que recebeu ao vir ao mundo. Ao pai idoso o mesmo cuidado deve ser concedido.

Socialmente, o Corão é mais evoluído em um aspecto que a Bíblia: o divórcio. Em nossa sociedade ocidental, o divórcio está cada vez mais presente em nosso cotidiano, inclusive entre os cristãos, mesmo que os Evangelhos não o permitam.

Como foi escrito numa época em que o sistema patriarcal era absoluto, quando na antiga Arábia até as meninas muitas vezes eram enterradas vivas porque o pai preferia homens, a mulher no Corão tem uma posição inferior. Os religiosos muçulmanos, no entanto, interpretam a posição secundária da mulher não como uma humilhação, mas a necessidade de ela precisar do amparo e da assistência do marido, principalmente na vida material, e da custódia contra o abuso de outros. O problema todo é o choque dos ensinamentos rígidos do Corão frente à vida moderna, na entrada do século XXI, quando presenciamos no Ocidente a banalização de todos os conceitos morais e religiosos.

Por isso, não deve causar estranheza que o Corão tenha se cristalizado naqueles princípios que então regiam as sociedades, já que o livro sagrado dos muçulmanos, escrito na “língua dos anjos”, não pode jamais ser modificado. Para os religiosos islâmicos, não pode haver uma "revisão" do Corão, assim como houve a Reforma Protestante - um movimento religioso contra a Igreja Católica estática e corrupta da época. Da mesma forma, as exortações veementes, a rígida moral, os castigos extremos - como a pena de morte para os que renegarem sua religião, ou o corte das mãos dos ladrões -, tudo isso decorre da época em que vivia Maomé. O Antigo Testamento, com a Lei Mosaica, não era menos rigoroso em seus ensinamentos. A pena de morte era prescrita com bastante freqüência.

Assim, de acordo com o rigor que os muçulmanos interpretam seu livro sagrado, observamos as várias nuances no mundo árabe e muçulmano, com países mais liberais de um lado, como o Egito e a Turquia, e de outro lado países mais conservadores, como a Arábia Saudita e o Irã.

A Sharía (Charia ou Lei) significa "caminho do bebedouro", o "caminho que leva a Alá". É a crença ou doutrina islâmica, além do ritual religioso e a moral social, que deve ser aplicada a toda a sociedade muçulmana. Quatro são os fundamentos da Charia: o Corão, a Sunna, o Ijima e o Quias.

Al-Quran ("o Corão" ou "o Alcorão") significa "discurso", "recitação" e é também chamado de Kitab Allah (Livro de Alá). Eterno e imutável, considerado a língua dos anjos, o Corão não pode sequer ser traduzido. Para a unanimidade dos ulema (teólogos muçulmanos), a tradução do Corão para qualquer outro idioma não se considera mais Corão e sim "tradução dos significa-dos dos versículos corânicos". Para os fundamentalistas muçulmanos, devem ser cumpridas todas as determinações do Corão, sem possibilidade de contestações, revisões ou interpretações livres em qualquer época da história humana.

A Sunna (caminho do Profeta) é o conjunto de acontecimentos da vida de Maomé, reunidos na Hadith (Tradição), para preencher as lacunas do Corão, que é imutável. A Hadith começou a ser reunida desde a época omíada.

O Ijima ou "consenso universal" é qualquer crença ou prática, mesmo não contidas no Corão ou na Hadith, que se tornam justificáveis, desde que aceitas pela comunidade muçulmana.

O Quias é a base de interpretação da Charia. É um raciocínio analógico, através do qual novas crenças e modos de conduta são deduzidos. Os conservadores limitam tal princípio, pois pode levar à livre interpretação.

Na doutrina islâmica, convém destacar, ainda, o papel dos religiosos na atualidade.

O mufti é o intérprete máximo da Sharia, a lei islâmica. No antigo império islâmico, a administração das províncias previa o cadi e o mufti. O cadi julgava as questões judiciais e sua autoridade era apenas inferior à do chefe de Estado. Hoje, o Grande Mufti do Egito é a maior autoridade religiosa do país e trabalha em conjunto com o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar.

O alim é um sábio religioso. Os ulema (plural de alim) são os teólogos muçulmanos, os profundos estudiosos e intérpretes do islamismo.

O sheikh é um estudioso da religião e, junto com o imam, normalmente dirige uma mesquita. No Egito, destaca-se o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar, importante centro de teologia não só do Egito mas de todo o mundo muçulmano. Tínhamos um amigo oriundo de Paranaguá-PR estudando na Universidade Al-Azhar para ser um sheikh (xeque).

O imam (imã, sacerdote muçulmano) está associado com uma mesquita em particular, onde lidera as orações, principalmente das sextas-feiras ao meio-dia, quando profere "sermões". É como se fosse o "vigário" da Igreja Católica.


As obrigações do muçulmano


São 5 as principais obrigações do islamita: a shahada, que é o recital do credo "Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta"; a salat, que consiste em orar 5 vezes ao dia, voltado para Meca; a zakat, que é o pagamento de doações, espé-cie de dízimo, para ajudar os pobres; a siam, jejuar no mês sagrado do Ramadã; e fazer, ao menos uma vez na vida, uma peregrinação a Meca, a hajj.

Já cedinho, de madrugada, os alto-falantes das mesquitas chamam os fiéis para a oração: "é melhor rezar do que dormir". Antigamente, era o muezin que chamava, do alto das mesquitas, os fiéis para a oração. Hoje, várias vezes durante o dia e à noite as fitas gravadas e os alto-falantes fazem esse serviço.

A abertura da televisão é feita com leitura de trechos do Corão. Várias vezes durante o dia, na hora do chamamento dos fiéis para a oração, a programação da televisão é interrompida para a leitura do Corão. Da mesma forma, ao sair do ar, a televisão apresenta algumas orações extraídas do livro sagrado.

A 6ª feira é o Yum Al-Guwah, o "Dia da Reunião", o dia por excelência da oração. Nesse dia, o imam sobe ao púlpito e profere dois sermões. Com-parando, seria a missa dos católicos nos domingos e dias santos. O horário é por volta do meio-dia e podíamos ver, em todas as mesquitas do Cairo, o povo aglomerado do lado de fora, aqueles que não conseguiram lugar dentro da mesquita, acompanhando as orações pelos alto-falantes. Todos os fiéis vão chegando com seu pequeno tapete para as orações. Alguns, na falta do tapete, improvisam jornais para ficar em pé ou ajoelhado em cima dos mesmos, como prevê a tradição.

A oração a Alá deve ser feita em um local limpo, por isso a necessidade do uso do tapete. Ao entrar em uma mesquita, o fiel muçulmano deve deixar os sapatos do lado de fora. Na maior parte das mesquitas a entrada é somente permitida aos homens. Os estrangeiros também têm acesso, mas somente em algumas mesquitas são permitidas fotografias ou filmagens. Cada mesquita tem seu mihrab, o nicho indicador da direção de Meca, para onde o fiel muçulmano deve se voltar durante as orações.

Os religiosos muitas vezes admoestam os fiéis, que trocam a mesquita pela televisão, principalmente quando jogam o Zamalek e o Ahli, do Cairo, um clássico que pára a cidade. Seria uma espécie de Fla-Flu dos bons tempos. Ou de um Corinthians versus Palmeiras da atualidade.

Mas não é só nas mesquitas que o fiel faz suas orações. Nem só naqueles horários rígidos anunciados pelos alto-falantes das mesquitas, pelo rádio ou pela TV. Em qualquer local e a qualquer hora o fiel muçulmano pode fazer sua oração. Para a oração, o fiel deve fazer a tagsil, a ablução do rosto e das mãos com água, ou o tayammum, ablução simbólica, que consiste em esfregar areia nas mãos na falta de água, como se segue:

"Para rezar, lavar as faces e as mãos até o cotovelo; passar as mãos secas sobre a cabeça; lavar os pés até o artelho. Se tiver tido relação sexual com suas esposas, tomar banho para se purificar. Se estiver doente ou em viagem ou vier da privada, ou tenha tido relação sexual com suas esposas e não encontrar água, há o recurso do pó limpo, tocando-o com as mãos e passando o pó no rosto e no antebraço" (5: 7-8).

Ajudar os pobres é outra obrigação do muçulmano. Não só oferecendo carne aos pobres no Aid El-Adha, a Festa do Sacrifício, mas também contribuindo com gorjetas aos pedintes nas ruas. E qualquer favor prestado, o pagamento é obrigatório. A zakat, a contribuição purificadora, tem por objetivo a redistribuição da riqueza, maneira de reduzir as diferenças sociais - ao menos em tese. É para purificar os ricos do egoísmo e os pobres da inveja. Se o bauab (porteiro), normalmente um beduíno analfabeto do interior, ajudar a levar as compras até sua casa, ou qualquer pessoa pobre prestar algum favor, você é obrigado a dar um bakshish (gorjeta). Na época do ramadã, os estrangeiros também são convidados a dar alguma contribuição ao bauab, ao carteiro, aos cobradores de energia elétrica e de gás canalizado.

Pudemos observar, numa telenovela em que entendíamos muito pouco, que os árabes até fazem humor com essa obrigação de dar gorjeta aos mais pobres. Um homem rico, ao esperar um elevador, tentou se esquivar do toque de uma pessoa mal vestida, que pedia uma esmola, para evitar a contribuição de gorjeta. No primeiro descuido, o mendigo espanou com a mão uma sujeirinha do ombro do paletó do homem e este não conseguiu escapar da obrigação de dar um bakshish como pagamento pelo "trabalho" executado...

A siam é a 4ª obrigação do muçulmano, que consiste em jejuar no mês sagrado do ramadã. Como já visto anteriormente, durante o ramadã, do nascer ao pôr do sol, o muçulmano não pode se alimentar ou ingerir qualquer tipo de bebida, a não ser em caso de doença, com receita médica.

A última das cinco principais obrigações do islamita é fazer, ao menos uma vez na vida, uma peregrinação a Meca, na Arábia Saudita. Na Hajj (Peregrinação para a Casa de Alá), o peregrino deve chegar à cidade de Meca no sétimo dia do último mês muçulmano, o mês de Dhu'l-hijja, e participar de cerimônias até o 10º dia daquele mês.

A umra é a visitação aos lugares sagrados que o muçulmano deve fazer na Arábia Saudita, cumprindo determinado ritual. Inicialmente, deve visitar a Al-Masquid Al-Haram (a Mesquita Sagrada), no centro da qual se encontra a Caaba. Deve rodear 7 vezes a Caaba, 3 vezes correndo e 4 vezes andando vagarosamente. Deve beijar a Al-Hajar Al-Asuad (a Pedra Negra), que é o meteorito localizado no ângulo leste da Caaba e que serviu de mesa para o sacrifício de Abraão. Deve beber água do poço de Zam-Zam e percorrer, 7 vezes, a distância entre os montes Safa e Marwa ( 405 m de distância). Esta caminhada, de quase 3 km , é para lembrar quando Agar, esposa do profeta Abraão, correu de uma a outra rocha em procura de água para o sedento filho Ismael. Finalmente, a água jorrou da fonte de Zam-Zam e é a mesma água que hoje é usada para beber, para a ablução e para lavar o santuário de Meca. Os muçulmanos atribuem poderes curativos àquela água.

Depois, o fiel muçulmano deve ir ao Monte Arafat e a Mina, para atirar pedras contra colunas baixas, as "lapidações do diabo". Por último, deve sacrificar um animal, no Aid El-Adha, em memória de Abraão, considerado um dos grandes profetas, construtor da Caaba e pai dos árabes, para lembrar que Abraão quase sacrificou seu filho Ismael.

Não-muçulmanos são proibidos de entrar em Meca. Nos check-points são revistados todos os passaportes, para terem a certeza de que todos são muçulmanos. Mulheres são checadas para ver se estão acompanhadas do marido, irmão, pai, filho ou enteado.

Assim como é costume dos cristãos levarem água do Rio Jordão, como lembrança, os muçulmanos levam garrafas de água da fonte de Zam-Zam.

Em 1991, foi permitido o retorno de iranianos para a visitação a Meca, depois de ficarem 4 anos proibidos de entrar na Arábia Saudita. Em 1987, 400 iranianos, fortemente armados, morreram em choques com a polícia saudita.

Durante o Aid El-Adha pudemos ver rebanhos de ovelhas e carneiros sendo tocados por beduínos pelas ruas do Cairo. Aos brados, o beduíno anuncia o seu produto e as pessoas vão descendo de seus apartamentos para a compra do animal. Na rua mesmo, em frente ao prédio, sem nenhuma preocupação com higiene, o beduíno mata o animal, retira as vísceras e parte o bicho em muitos pedaços. Os mais endinheirados compram o animal inteiro, enquanto outros compram apenas alguns pedaços. Às vezes, devido à matança de grande quantidade de animais em um mesmo local, forma-se uma verdadeira lagoa de sangue na rua, com cães e moscas em volta. O sangue coalhado e as vísceras ficam dias na rua, ocasionando mau cheiro, até sumir de vez.


O cisma muçulmano e o fundamentalismo islâmico.


As heresias e os movimentos separatistas começaram logo após a morte de Maomé, fugindo da ortodoxia sunita (de Sunna ou "Caminho do Profeta").

Maomé não tinha herdeiros homens. Isso o preocupava muito e, após a morte de sua mulher Cadidja, passou a ter várias mulheres, em um total de 8 ou 9, para conseguir um herdeiro masculino. Esse, talvez, um dos motivos da permissão da poligamia que foi autorizada, também, para seus seguidores, porém em um número máximo de 4 mulheres. Ou de 2 mulheres, para os escravos.

Áli Ibn Ábi Taleb era casado com Fathima, filha do Profeta, e assim, além de primo, tornou-se genro de Maomé. Áli era um dos discípulos mais queridos do Profeta e este uma vez dissera que "para onde Áli for, todos devem ir também". Pouco depois Maomé morreu, sem deixar filho para sucedê-lo e sem estabelecer regras claras de sucessão. Os homens mais chegados a Áli esperavam que este fosse proclamado sucessor do Profeta. Porém, Abu Bakr, sogro de Maomé, foi escolhido para ser o 1º califa.

O xiísmo formou-se com o partido chi'a de Áli, que considerava o califa não um chefe executivo mas como um imam carismático, apontado por Alá. Kufa, no Iraque, era sua capital. Áli acabaria sendo o 4º califa da linha sunita - a ortodoxia muçulmana -, embora tenha se separando dessa linha para ser o 2º ímã da linha xiíta.

A corrente principal do xiísmo é a dos Doze, assim chamada porque acredita que o 12º ímã, Al-Muntazar, desaparecido em 878, continua vivo e reaparecerá, antes do julgamento final, para salvar o mundo. Al-Muntazar significa "o Esperado", o mesmo que "Messias". O primeiro imam foi Maomé. Áli foi o segundo. O terceiro ímã foi Hussein, filho de Áli. Segundo os xiítas, todos os ímãs são destinados ao martírio.

Os xiítas introduziram algumas modificações na prática religiosa: peregrinação por procuração, visita a túmulos de santos e o casamento temporário, a muta. No Irã, ainda hoje o casamento é um contrato que poderá ser desfeito, caso um dos cônjuges assim o desejar.

Os xiítas concentram-se, principalmente, no Irã, Ira-que, Paquistão e sul do Líbano. Da raiz xiíta decorrem seitas dos caradjitas, ismaelitas e zaiditas.

Os ismaelitas formam a corrente dos Sete, pois reconhecem Ismail como sétimo imam e não seu irmão mais jovem, Musa, assim considerado pelos Doze. São ramos dos ismaelitas os drusos, a seita dos assassinos e os fatímidas do Egito. Fatímidas, como foi afirmado, tem o nome derivado de Fathima, filha de Maomé e mulher de Áli.

O Ayatollah Khomeiny, ao instaurar a Revolução Islâmica no Irã em 1979, proclamou o conceito de velayat-e-faqih, que literalmente significa a "guardiania do jurista religioso". O conteúdo dessa doutrina é que um homem de destacado conhecimento da lei islâmica seja designado vali-e-fagih, sucessor do profeta Maomé. Khomeiny tentou, assim, restabelecer o sistema do califado otomano abolido por Mustafa Kamel, na Turquia, em 1924. O sonho maior dos xiítas iranianos é restabelecer o poderoso Império Otomano, comprovado nas palavras de Khomeiny: "Não há fronteiras reais entre nações islâmicas". No entanto, o conceito de Khomeiny chocou-se com a tradição xiíta, fundamentada no messianismo do "12º Imã", e que não aceita o princípio da sucessão.

Deve-se destacar os antecedentes do fundamentalismo islâmico na atualidade. Antes de Khomeiny, no século XVIII, houve o wahabi (fundamentalismo) na Arábia Saudita, derivado do reformador islâmico Mohammed Ibn Abdel Wahab. Neste século, tiveram destaque as ações da Irmandade Muçulmana, fundada em 1928 pelo egípcio Hassan Al-Bauna, com grande influência atualmente em todo o Oriente Médio. Segundo os fundamentalistas, o Profeta usou a mesquita para orar, para a guerra, para a justiça e outros motivos mais.

Convém aqui acrescentar as palavras de John Laf-fin no livro "The Arab Mind":

"A lei islâmica não reconhece a possibilidade de paz com descrentes e infiéis. A parte do mundo não-muçulmano é conhecida na teologia islâmica como 'território de guerra'. A maior parte dos militantes muçulmanos acredita que a tarefa de Maomé não será bem-sucedida enquanto não-muçulmanos tiverem controle de qualquer parte do planeta".

Messianismo semelhante havia antigamente quando a Igreja Católica, ainda sem os ventos ecumênicos de Roma, tinha por objetivo levar o cristianismo a todos os pontos da Terra, sentindo-se na obrigação de impor o Evangelho a todos os povos do mundo. Mesmo que fosse pelo terror, como aconteceu durante a Inquisição. Eu me lembro de um padre que conheci na adolescência, que se sentia muito desgostoso e arruinado por saber que havia milhões e milhões de chineses pagãos, sem perspectiva de serem convertidos à fé cristã. O Concílio Ecumênico pôs um ponto final nessa apreensão e atualmente a Igreja Católica convive pacificamente com todas as outras religiões e prega que todos serão salvos, se levarem a sua religião a sério.

Algo semelhante à antiga postura da Igreja Católica tivemos neste século, com o Movimento Comunista Internacional, tentando impor um sistema econômico-social de abrangência planetária. Pudemos observar, nas últimas décadas, o esforço do comunismo em se estabelecer em todos os países do mundo, quer pela força das armas, quer por eleições livres, para depois aplicar o golpe. De grande apelo popular, por tentar acabar com todas as diferenças sociais, o que presenciamos na verdade foram regimes sanguinários que se estabeleceram à força em vastas áreas do mundo, a exemplo da União Soviética e da China. Nunca o mundo havia presenciado tamanha truculência. Onde o comunismo foi implantado, o fracasso foi estrondoso. Não conseguiram resolver o problema das desigualdades sociais. Igualou-se apenas a miséria.

Hoje, pode-se dizer que o fundamentalismo islâmico - ao menos aquele pregado por Khomeiny e outras correntes extremistas - substituiu o Movimento Comunista Internacional pela mesma ambição de implantar um sistema de vida único a todos os povos: os preceitos da Sharia. Seria talvez a última ideologia em curso no mundo atual. Como visto anteriormente, a parte do mundo que não é islâmica é conhecida na teologia muçulmana como "território de guerra". Assim, não causa estranheza a propagação do islamismo pelo mundo todo, já comportando milhões de adeptos também na Europa e nas Américas. E a jihad dos fanáticos nos atentados contra a Embaixada de Israel na Argentina (1992), no World Trade Center, em Nova Iorque (1993) e no prédio da Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires (1994).

Convém lembrar que a palavra "fundamentalismo" não tem, necessariamente, conotação pejorativa. Significa "fundamento", "alicerce". Segundo os religiosos muçulmanos, é "uma volta à origem, à pureza e aos fundamentos do verdadeiro islã da época de Maomé". O Papa João Paulo II não deixa de ser um fundamentalista quando não aprova o divórcio e não permite o aborto, porque isso contraria o que está prescrito nos fundamentos da religião cristã, os Evangelhos. Atualmente, o termo "fundamentalismo" se tornou sinônimo de fanatismo islâmico extremado, ligado aos movimentos integristas que querem subordinar a vida dos muçulmanos à Sharia, a lei islâmica que integra Religião e Estado em uma única entidade. Nem que seja à base do terror.


Expansionismo muçulmano na atualidade.


Segundo John Laffin (op. cit.), a história tinha se "tornado certa" para os árabes há 14 séculos atrás, quando começou o expansionismo árabe. Segundo o raciocínio do autor, tudo o que o profeta Maomé tinha prometido a seu povo concretizou-se rapidamente: glória e domínio por séculos, em três continentes, a religião muçulmana estendendo-se da costa atlântica da África até a Índia, incluindo a Espanha e Portugal. O povo árabe era realmente o escolhido de Alá. A história - para os árabes - estava "certa".

Porém, com a saída dos árabes da Península Ibérica e, posteriormente, com a fragmentação do Império Otomano, a sujeição de muitos países árabes ao imperialismo inglês e francês, a história tinha se tornado "errada".

Segundo a análise de Laffin, após a Guerra Árabe-Israelense de 1973, com o embargo do petróleo árabe às nações do Ocidente, os árabes estavam novamente em destaque. O "choque" do petróleo foi sentido em todo o mundo industrializado, os preços mais do que quadruplicaram e seus efeitos se fizeram sentir também no Brasil de uma forma cruel, pois importávamos mais de 80% do óleo cru. Para os árabes em particular, e para os muçulmanos em geral, depois da "guerra do petróleo", a história novamente estava tomando rumo "correto".

Se anteriormente era dado destaque ao expansionismo árabe, dominando vários povos através da jihad, hoje deve-se dar destaque ao expansionismo muçulmano, que está se fortalecendo nas repúblicas da Ásia Central, após a queda da União Soviética, no sudeste asiático e na Oceania. Como se sabe, o islamismo, hoje, é a religião que mais cresce no mundo.

Com a derrubada do Xá Rehza Pahlavi e a ascensão do Ayatollah Khomeiny ao poder no Irã, ocorreu o 2º "choque" do petróleo. O preço do barril de petróleo chegou a atingir o valor estratosférico de 34 dólares. Khomeiny encurralou os EUA, ao tomar reféns americanos na Embaixada dos EUA em Teerã, começou a expurgar seus desafetos, promovendo execuções sumárias e mostrou a que veio: seus seguidores promovem atentados em todo mundo, fazem tremer o coração financeiro do mundo ocidental - o World Trade Center, em Nova Iorque - e mandam "evangelizadores" para todos os pontos do mundo onde haja comunidades muçulmanas, para pregar a "revolução islâmica". Pode-se dizer, como diria John Laffin, que a história para os muçulmanos, hoje, está mais "correta" do que nunca.

Para comprovar isto, basta estender o mapa-múndi na mesa e examinar os conflitos atualmente existentes no mundo. Há em torno de 50 países com conflitos diversos, principalmente étnicos. Destes, pelo menos duas dezenas envolvem muçulmanos, que desejam implantar o fundamentalismo religioso no país ou pregam o separatismo de alguma província. Senão, vejamos alguns exemplos.

No Egito, a partir de 1992, se tornaram freqüentes os atentados de fundamentalistas islâmicos. O Egito sempre foi um país muito tolerante, coexistindo cristãos, judeus e muçulmanos na mais perfeita harmonia. Existem muitos templos coptas, às vezes ao lado de mesquitas, assim como diversas sinagogas. Ultimamente, essa harmonia foi quebrada pelo ataque dos fundamentalistas, que metralham as autoridades do país, os turistas estrangeiros e os cristãos coptas. Os ataques aos cristãos coptas dá-se principalmente no bairro cairense de Imbaba e em cidades do Alto Egito, como Assiut, ninho de fundamentalistas islâmicos. Em Assiut, em maio de 1992, ataques de extremistas causaram a morte de 14 cristãos coptas e 3 muçulmanos.

Em 1990, no primeiro ano em que estávamos no Egito, foi assassinado o Presidente do Parlamento Egípcio, Dr. Rifaat Mahgoud. Os autores do crime foram componentes do movimento fundamentalista Al-Jihad (Guerra Santa), o mesmo movimento que havia assassinado o Presidente Sadat em 6 Out 81. Em 1993, o Primeiro Ministro egípcio Atef Sedki também sofreu um atentado, porém teve mais sorte que o Dr. Rifaat.

Em 1991, extremistas islâmicos incendiaram uma igreja copta e várias lojas comerciais dirigidas por cristãos, no bairro de Imbaba. Além de seu mercado de camelos, Imbaba é conhecida por sua extrema pobreza, ruas sem asfalto, vazamentos de água que alagam tudo, altas taxas de analfabetismo, sem infra-estrutura e onde 600.000 pessoas se comprimem em 2 km² de área. O Governo não se faz presente no bairro e por isso Imbaba foi "adotata" pelos fundamentalistas islâmicos. Basta dizer que após o terremoto que afetou o Egito em 12 de outubro de 1992 o auxílio dos fundamentalistas chegou a Imbaba muito antes do Governo. Isto mostra a fácil penetração de grupos extremistas em locais pobres, cuja população não tem nada mais a perder e tem na religião sua última esperança. Se o Governo nada faz, o povo clama por Alá. O Egito se ressente muito desses últimos atentados contra os cristãos coptas, contra o Governo e contra turistas, pois depois do Canal de Suez é no turismo que o Egito tem a sua maior fonte de divisas estrangeiras.

No Sudão observa-se uma "faxina étnica" semelhante àquela observada na Bósnia-Herzegovina. O governo muçulmano, com apoio financeiro e pessoal do exterior, persegue os cristãos no sul do país, que a custo conseguem ainda se manter no território, sabe Deus até quando. Como é sabido por todos, depois do Irã e da Arábia Saudita, o Sudão também implantou a Sharia - a lei islâmica absoluta, que administra o país e seu povo conforme as regras estabelecidas no Corão.

Em Israel, a intifada (rebelião) nos territórios ocupados (Gaza e Cisjordânia) dificilmente acabará depois do recente acordo do governo de Ytzhak Rabin com a OLP de Yasser Arafat. Os grupos armados Hamás e Jihad Islâmica rejeitam qualquer tipo de acordo com o país judeu, pois são movimentos de resistência islâmicos que combinam a fé fundamentalista com o nacionalismo palestino. Não aceitam, sequer, a existência do Estado de Israel. Por isso, é provável que haja, também, uma intifada em Gaza e Jericó contra o incipiente governo de Arafat. Acrescente-se aos grupos citados a militância do Hizbullah, de origem iraniana, que atua no Líbano, em confronto permanente contra os israelenses na sua autoproclamada "zona de segurança", no sul do Líbano.

Na Argélia, um golpe militar impediu que os fundamentalistas da Frente Islâmica de Salvação tomassem o poder no segundo turno das eleições livres de 1991. O país vive uma guerra civil que já matou milhares de contendores e dezenas de estrangeiros - normalmente estrangulados. Em 24 de dezembro de 1994, extremistas islâmicos seqüestraram um Airbus da Air France em Argel, para vingar o apoio francês ao regime militar da Argélia, resultando na morte de 3 reféns e dos 4 seqüestradores. Os extremistas pretendiam explodir o avião com todos os passageiros nos céus de Paris.

No Senegal, pessoas são obrigadas a fugir ou são mortas pelo governo controlado por muçulmanos e rebeldes.

Na Bósnia-Herzegovina, após a humilhação na Batalha de Kosovo, há mais de 5 séculos, os sérvios promovem contra os muçulmanos, como vingança, uma "limpeza étnica" nos moldes medievais, como já abordamos anteriormente.

Na Geórgia, pertencente à antiga URSS, os muçulmanos querem a independência da Abcásia, ou anexação à Rússia. Da mesma forma, a Ossétia do Sul, de maioria muçulmana, quer se unir à Ossétia do Norte. Na mesma região do Cáucaso há o conflito da Chechênia, de maioria muçulmana, que proclamou sua independência da Rússia em 1991. A Inguchétia, também de maioria muçulmana, se opõe à Rússia devido à humilhante deportação de seus habitantes realizada por Stálin em 1944.

Na Nigéria, dentre os vários conflitos étnicos, destaca-se o grupo husta, muçulmano, e os iorubás, cristãos.

Na Índia, que tem uma população de mais de 100 milhões de muçulmanos, o conflito mais grave dos últimos tempos ocorreu quando hindus incendiaram uma mesquita em Ayodhia, em 1992. O conflito se propagou pelo mundo todo, como rastro de pólvora, ocasionando milhares de mortes em outros países, além da Índia. Em Bangladesh, até crianças foram queimadas vivas. Atentados contra templos hindus foram observados em várias partes do mundo, inclusive na Grã-Bretanha. A província de Cachemira, na Índia, de maioria muçulmana, luta por sua emancipação ou por sua anexação ao Paquistão.

Em Bangladesh há choques entre muçulmanos e budistas, na região das Colinas de Chittagong.

Na Birmânia mais de 250 mil muçulmanos fugiram para Bangladesh nos últimos anos, para escapar da ditadura militar.

Na China, em Xinjiang, o governo reprimiu uma revolta de muçulmanos de origem turca, em 1990.

Nas Filipinas - único país asiático de maioria cristã - observa-se uma guerra entre o governo e separatistas muçulmanos da Ilha de Mindanao.

Na Indonésia, há uma década houve muitos choques entre muçulmanos e o governo do general Suharto. Os muçulmanos radicais se recusaram a aceitar a Pancasila, ideologia de princípios hinduístas. Hoje, a ditadura de Suharto mantém a situação sob controle, com dificuldade, mas é bom lembrar que mais de 80% da população da Indonésia é muçulmana.

Podemos ainda acrescentar a perseguição muçulmana que os drusos sofrem na Síria, os curdos no Iraque e na Turquia, e os maronitas no Líbano, onde houve um atentado dentro de uma igreja pouco depois do massacre na Mesquita dos Patriarcas, em Hebron. Os maronitas são cristãos do Líbano que seguem a doutrina de São Maron.

A "onda verde" (cor islâmica), antes apoiada pelos EUA para criar um cinturão de defesa na Ásia Central contra a "onda vermelha" da antiga URSS, é um feitiço que virou contra o feiticeiro. A República Islâmica do Irã é a que está mais se empenhando em ocupar o vácuo do poder na região após a dissolução da União Soviética. As ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, como o Azerbaijão e o Cazaquistão, estão sendo intensamente "evangelizadas" pelos mullahs do Irã.

O cientista político Samuel Huntington, conhecido por suas instigações intelectuais e previsões ousadas, em famoso artigo escreveu sobre "conflito de civilizações". Garantiu o professor de Harvard que uma Terceira Guerra Mundial, se houver, será uma guerra entre civilizações. Dentre as várias civilizações hoje existentes no planeta, Huntington destacou a civilização ocidental e a islâmica.

Esta futura guerra poderia ser bem mais dramática que aquelas dos cruzados contra os árabes. As cimitarras árabes e as lanças dos cristãos poderiam dar lugar à jihad nuclear. Com o aumento de atentados de extremistas muçulmanos, o World Trade Center, em Nova Iorque , poderia tremer, em futuro próximo, não com detonação de cargas de dinamite mas, quem sabe, ser pulverizado por uma bomba nuclear caseira.

Segundo Huntington, do confronto de duas civilizações surgem duas hipóteses vistas na história: ou uma se funde à outra, ou uma destrói a outra. Já disse o escritor Rudyard Kipling que "o Ocidente é o Ocidente e o Oriente é o Oriente, e os dois jamais se encontrarão". Se isso for verdade, será mesmo que uma dessas civilizações irá destruir a outra? Muitos fundamentalistas islâmicos não têm dúvidas de que o próximo milênio verá a consolidação do governo dos muçulmanos sobre todo o mundo.


A intolerância islâmica.


"Com certeza, a religião verdadeira na estima de Alá é o Islamismo, isto é, completa submissão a Ele, e aqueles a quem foi dado o Livro (judeus e cristãos) somente discordam em inveja mútua, após o conhecimento ter chegado a eles" (3: 20).

"Vós que credes, não tenhais os judeus e os cristãos como vossos amigos, pois eles são amigos uns dos outros. Se algum de vós os tiver como amigos, vireis a ser um deles" (5: 52).

Lendo os versículos corânicos acima, pode-se constatar a intolerância que há no islamismo, em relação às outras religiões. Por isso, talvez, o motivo de fundamentalistas islâmicos não aceitarem a convivência pacífica com outros credos religiosos. Porém, há uma brecha para o ecumenismo, se traduzirmos "Alá" por "Deus", como se segue:

"Seguramente, sobre os crentes (muçulmanos), os judeus, os cristãos e os sabeus (de Sabá, atual Iêmen), aqueles que verdadeiramente crêem em Deus e no Último Dia (Juízo Final) e agem retamente, terão a recompensa de seu Senhor e nenhum medo se apossará deles ou lhes afligirá" (2: 63).

Este último texto corânico, como afirma Mohamad Ahmad Abou Fares em seu livro “Jesus Cristo na Visão de um Muçulmano”, "deixa patenteado que, qualquer que seja a seita, desde que se crê em Deus e no Juízo Final, e se pratiquem boas ações, as pessoas estarão a salvo: nada deverão temer, e nem ficarem apreensivos quanto à salvação".

Como se pode constatar, depende do enfoque que um muçulmano faça ao ler seu livro sagrado para ele se posicionar frente às pessoas de outros credos. Poderá ser de uma intolerância absoluta ou de uma convivência amigável. Muitos fatos, ao longo dos tempos, mostram que a intolerância islâmica tem-se manifestado freqüentemente, como podemos comprovar nos episódios a seguir expostos.

Uma prova típica de intolerância é o observado na localização da Esplanada das Mesquitas, dentro dos muros da velha Jerusalém. Aquelas mesquitas impedem que, hoje, os judeus construam seu Terceiro Templo. Por que os muçulmanos foram construir as mesquitas justamente naquele lugar mais sagrado dos judeus, onde antigamente havia sido erigido o Templo de Salomão? Não seria o mesmo que, se a Arábia Saudita algum dia viesse a ser tomada por inimigos, e estes fizessem erguer seus templos justamente na praça onde fica a Caaba?

As muralhas da antiga Jerusalém tinham 8 portas que permitiam o ingresso das pessoas para o interior da cidade. Hoje, só 7 portas permitem o ingresso, pois uma foi lacrada, a Porta Dourada. Segundo a tradição judaica, um dia chegará o Messias, que irá entrar por aquela Porta. Para impedir que isso aconteça, os árabes lacraram a Porta Dourada com pedras...

Em Betânia, agora dentro da Grande Jerusalém, fica o túmulo de Lázaro. Para impedir que os peregrinos cristãos chegassem até aquele local, os árabes fecharam a entrada do túmulo, construindo uma mesquita em seu lugar. Posteriormente, um frade franciscano construiu um outro caminho, dentro da rocha, até as profundezas do túmulo, por onde os peregrinos hoje conseguem ter acesso até o seu interior.

O local onde - segundo a tradição cristã - Jesus subiu aos céus hoje comporta a Capela da Ascensão, que é na realidade uma pequena mesquita. Para a comemoração da Festa da Ascensão do Senhor, os cristãos recebem permissão para a celebração da missa e de outras cerimônias religiosas na Capela. Porém, enquanto os cristãos participam da festa, alto-falantes de outra mesquita, nas imediações, são colocados a volume máximo, tirando a concentração dos fiéis.

O leitor deve se lembrar do grave incidente que ocorreu depois que uma mesquita em Ayodhia, na Índia, foi incendiada por hindus, em 1992. Houve tumultos e depredações de templos hindus em todas as partes do mundo. Na realidade, os hindus estavam apenas querendo retomar o local onde antigamente havia um templo hindu, que marcava o local de nascimento do deus Rama, e que foi destruído para dar lugar à construção de uma mesquita.

Há poucos anos atrás, os muçulmanos construíram uma mesquita bastante próxima da Basílica de São Pedro, no Vaticano. O símbolo do hilal (lua-crescente) se fez representar, quase que lado a lado, junto a um dos maiores símbolos do cristianismo: a Igreja de Roma. Porém, será que os muçulmanos permitiriam que se construísse uma igreja católica ou algum templo protestante em Meca? Com certeza, isso eles jamais permitirão, pois os não-muçulmanos sequer têm autorização para ingressar naquela cidade. Mas eles se julgam no direito de construir templos onde bem desejarem, mesmo que seja em sítios sagrados de outras religiões - caso do Templo de Salomão em Jerusalém e do templo hindu na Índia. Como dizem alguns teólogos islâmicos, a parte do mundo governada por não-muçulmanos é um "território de guerra".

Tomamos conhecimento das dificuldades dos aliados em convencer os sauditas a permitir a presença das forças ocidentais em seu território para combater Saddam Hussein, na Operação Tempestade no Deserto, para a retomada do Kuwait. Muitas "costuras" políticas foram feitas, muitas restrições superadas antes de permitirem o desembarque das tropas do general Schwarzkopf naquele território árabe. Provavelmente, eles só devem ter permitido a presença dos "infiéis" em seu país pela iminência de uma invasão iraquiana, o que Saddam poderia ter feito sem muita dificuldade, pois a Arábia Saudita não tinha força militar suficiente para impedir que isso viesse a ocorrer.

Um episódio narrado por John Laffin (op. cit.) é contundente: "Na Guerra Civil do Iêmen (1962-65), na qual tropas egípcias estavam envolvidas, dois egípcios, um copta e um muçulmano, ambos membros bem conhecidos de famílias de classe alta e amigos de longa data, ficaram feridos num mesmo combate. A guarnição do caminhão tinha ordens de recolher os muçulmanos antes dos cristãos. Assim, o muçulmano foi salvo e o cristão morreu no campo, provavelmente trucidado por tribos iemenitas".

Além dessa intolerância de muçulmanos contra não-muçulmanos, podemos acrescentar aquela violência de muçulmanos contra eles próprios, principalmente escritores e artistas que não se moldam nos ditames do islamismo ou que escrevem palavras julgadas ofensivas ao Corão.

Dentre as pessoas atingidas por essa intolerância podemos citar Salman Rushdie, um indiano naturalizado inglês, que escreveu o livro Versos Satânicos e ocasionou a ira do Ayatollah Khomeiny. Rushdie foi condenado pela fatwa (decreto religioso) islâmica e sua cabeça posta a prêmio: 3 milhões de dólares para o muçulmano que tirar sua vida ou 1 milhão de dólares se o autor do crime for um não-muçulmano. Se estivéssemos na época da Inquisição, e se o Papa João Paulo II se valesse do mesmo rigor, o escritor Gore Vidal seria condenado à fogueira por ter escrito palavras blasfemas contra Cristo em seu livro Ao Vivo do Calvário.

Outra pessoa perseguida é a escritora de Bangladesh, Taslima Nasrin, que fugiu de seu país e se refugiou na Suécia para escapar da perseguição de fundamentalistas islâmicos. Ela é acusada de distorcer o sentido do Alcorão ao propor direitos iguais entre homens e mulheres e de escrever temas relacionados a sexo, um tabu para as mulheres islâmicas.

Em junho de 1992, o escritor egípcio Farag Fouda foi morto por dois extremistas no Cairo e um porta-voz da Sociedade Islâmica, grupo fundamentalista do Irã, assim se pronunciou: "Quem quer que advogue as idéias de Fouda merece ser morto de acordo com a norma do Islã". E em 14 de outubro de 1994, o escritor egípcio Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz - considerado a consciência do mundo árabe -, foi esfaqueado na garganta, após sofrer várias ameaças de morte por parte de fundamentalistas islâmicos. Seu romance Children of Gebelawi, pelo qual foi condenado à morte pelos zelotes islâmicos, passou a ser vendido "como tortas quentes" - segundo afirmou o jornal Al-Ahram de 29 Dez 94 - 4 Jan 95.


A mulher no Islã.


A mulher islâmica é bastante discriminada na sociedade muçulmana. Ela deve ser submissa ao pai ou ao marido. Muitas vezes não tem sequer o direito de escolher o futuro marido, que é imposto pelos pais em troca de acordos pecuniários, embora o Profeta tenha dito: "Não se case com uma viúva sem o seu consentimento, nem com uma virgem sem sua permissão".

É óbvio que o mundo muçulmano não é monolítico. Existem significativas diferenças entre os seus diversos países, alguns mais liberais como o Egito, a Turquia, o Paquistão e a Tunísia, outros extremamente conservadores como a Arábia Saudita, o Irã e o Sudão. Quem não se lembra das mulheres dirigindo seus carros em protesto, na Arábia Saudita, após a Guerra do Golfo, exigindo direito idêntico ao dos homens em conduzir um simples veículo pelas ruas? Foram todas reprimidas e mandadas de volta para casa para se recolherem à subordinação de seus maridos. Lá, as mulheres não têm permissão para sair de casa sem a companhia de um mihram, que pode ser o marido, o pai, o sogro, o irmão, o filho ou o enteado. E a vestimenta para as mulheres, mesmo para as estrangeiras, deve incluir lenço na cabeça e vestido longo cobrindo os calcanhares. Há tempos atrás, a embaixatriz brasileira foi agredida em uma loja na Arábia Saudita por zelosos soldados porque não estava vestindo roupas islâmicas.

Por outro lado, podemos destacar a posição que as mulheres têm atualmente no Paquistão. Benazir Butho, escolhida pela segunda vez Primeira-Ministra daquele país em 1993, é uma das poucas mulheres a governar um país muçulmano, ao lado das colegas Tansu Ciller, da Turquia, e Khaleda Zia, de Bangladesh.

Muitas mulheres islâmicas, na atualidade, protestam contra a prática da circuncisão feminina, que consiste em extirpar o clitóris, para que a mulher não sinta prazer sexual. Principalmente por não ser prescrito no Corão. Os homens muçulmanos acreditam que a circuncisão feminina irá lhes garantir mulheres fiéis.

Como eco à conturbada Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, levada a efeito no Cairo em 1994, a CNN filmou uma cerimônia de circuncisão feminina naquele país. Enquanto a menina emite um grito lancinante, os parentes riem e berram em comemoração (Time, 26 Set 94).

Geralmente, a mutilação do órgão sexual feminino é feita sem anestesia, ocasionando infecções e até a esterilidade. Esta é, sem dúvida, a pior coisa que pode acontecer a uma mulher islâmica: não ter filhos. A procriação é extremamente valorizada na sociedade muçulmana e o marido normalmente pede o divórcio quando não tem herdeiros ou só tem herdeiros femininos. Este anacronismo - a circuncisão feminina - persiste na atualidade não somente entre os muçulmanos, mas também entre outros grupos religiosos do Oriente Médio e da África, incluindo cristãos.

Apesar dessa discriminação contra as mulheres islâmicas que perdura até hoje, o Corão redimiu as mulheres em muitos aspectos. Segundo nos ensina Dr. Hassam Al-Alcheik em seu livro O Lugar da Mulher no Islã, antigamente, antes de Maomé, muitos árabes enterravam as meninas vivas, para evitar que fossem desonradas. As meninas pereciam na areia pela mão de seu próprio pai, como o descrito no Corão: "Quando a alguém é anunciado o nascimento de uma filha, seu semblante se torna sombrio e ele se torna profundamente agitado. Ele tenta se ocultar do povo pela má nova que lhe foi anunciada. Deverá preservá-la apesar da desgraça acontecida ou enterrá-la?" (16: 59-60).

O enterro das meninas vivas é censurado e proibido pelo Corão: "São perdedores aqueles que matam seus filhos néscia e estupidamente na sua cega ignorância, e se descartam do que Alá agraciou, forjando mentiras a respeito de Alá. Já estão perdidos e jamais serão encaminhados" (6: 149).

Segundo Dr. Hassam (op. cit.), algumas passagens corânicas enaltecem a posição da mulher na sociedade islâmica:

"A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e seja crente, conceder-lhe-emos uma vida agradável e o recompensaremos com um galardão superior ao que houver feito" (16: 97).

"Aqueles que difamam as mulheres castas, inocentes e crentes, serão malditos neste mundo e no outro e sofrerão severo castigo" (24: 23).

"Ó crentes, não vos é permitido tomar as mulheres (de parentes) como herança contra a vontade delas". (4: 20).

Os direitos das mulheres nem sempre são levados à risca pelos homens. No Egito, muitos crimes hediondos são cometidos por mulheres que não aceitam maus tratos e a presença de rivais em casa. Normalmente , a pena imposta a um marido que tenha matado sua mulher é sensivelmente menor que aquela imposta a um homem que tenha matado o amante de sua mulher. É o tipo de crime ainda bastante popular em muitos pontos do planeta, onde predomina o machismo, que tenta compensar com a morte a "perda da honra".

Há crimes violentos no Egito, como o do marido que viajou para outro país em busca de melhor salário, a mulher arranjou outro parceiro e quando o marido voltou foi degolado pelos amantes. Ou do caso do homem que levava prostitutas para dentro de casa, se embebedava, fumava haxixe e espancava a mulher. A conseqüência não podia ter sido pior: a mulher aproveitou o sono profundo do marido, jogou gasolina em cima e tocou fogo. No Cairo, é famoso um pavilhão de detentas, onde as mulheres são conhecidas como "assassinas de maridos".

Um caso escabroso, abordado pelos jornais durante semanas a fio, aconteceu quando estávamos no Egito. Uma mulher cortou o marido em pedacinhos, que foram guardados em sacos de plástico na geladeira. Aos poucos, a mulher ia jogando na lixeira os pedaços do marido até o dia em que foi descoberto o crime.


O final dos tempos.


Para o islamismo, o apocalipse será antecipado pelo Anticristo, falso Messias, que aparecerá entre o Iraque e a Síria. Cristo aparecerá para matar o Anticristo. Interessante é observar que o Apocalipse da Bíblia também cita o mesmo local como o cenário da última batalha que está por vir, a batalha de Armagedon, perto de Nazaré, em Israel.

os profetas e os mártires terão acesso direto ao paraíso. Todas as outras pessoas que não sejam profetas ou mártires serão julgadas por Alá quando soar o chamado do anjo Israfil. Além de Maomé, último e maior de todos os profetas, há outros importantes profetas na religião muçulmana, como Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus.

"Não tenhais em conta como mortos aqueles que foram imolados pela causa de Alá. Em verdade, eles estão vivendo na presença de seu Senhor e estão preparados" (3: 170).

Este é um dos principais apelos que os fundamentalistas islâmicos fazem a seus fiéis, para receberem um "passaporte" direto aos céus, ao se imolarem pela causa de Alá. Por isso não é de estranhar a auto-imolação dos fedayin, que carregam explosivos no próprio corpo ou em viaturas e, como kamikazes suicidas, se atiram sobre o inimigo gritando o nome de Alá. A Al-Fatha (A Conquista), grupo armado da OLP de Yasser Arafat, durante muito tempo treinou seus fedayin no Oriente Médio para promover atentados suicidas contra os judeus. Como se sabe, a guerrilha dos fedayin (voluntários da morte) foi a resposta egípcia aos ataques de Israel a Gaza, em 1955. Em Israel, muitos muçulmanos, incluindo mulheres, se aproximam de guarnições ou patrulhas de soldados e acionam os explosivos escondidos sob suas túnicas.

No Líbano, durante a guerra civil, os EUA foram obrigados a retirar seus soldados do país depois que um carro-bomba - certamente com motorista suicida - matou quase 2 centenas de americanos em um acampamento militar. Acredita-se que um suicida muçulmano, dirigindo um furgão cheio de dinamite, também tenha feito ruir o prédio da associação judaica em Buenos Aires , no dia 18 de julho de 1994, matando em torno de 100 pessoas. Da mesma forma, um "voluntário da morte" teria ocasionado o atentado a um ônibus no centro de Tel Aviv, no dia 19 de outubro de 1994, matando 22 pessoas.

Convém lembrar que o martírio era também incentivado, antigamente, pela Igreja Católica, por ocasião das Cruzadas para a libertação da Terra Santa, nas mãos dos árabes, a exemplo do que afirmou o Papa Urbano II: "Agora prometemos-lhe guerras que trazem consigo a recompensa do martírio glorioso, guerras que garantem o direito à glória temporal e eterna". São Bernardo também glorificava a matança de não-cristãos: "...sem recear ter pecado ao matar o inimigo, nem temer sua própria morte, visto que nem o ato de morrer nem o de causar a morte de outrem, quando for por Cristo, contém nada de criminoso; ao contrário, merece uma recompensa gloriosa" (Cf. Templários: Os Cavaleiros de Deus, de Edward Burman). Será por sua "valentia" que São Bernardo se transformou em nome de raça de cachorro?

O verso número 36 do capítulo 13 Al-Ra'd (O Trovão) diz claramente que as descrições no Corão sobre o paraíso são simbólicas: "O paraíso prometido para os retos é como se rios corressem por ele, com frutas intermináveis e também com sombra". No céu, os eleitos muçulmanos encontrarão sempre sombra, água potável, leite, vinho e mel, e terão a companhia de belas mulheres virgens, de grandes olhos brilhantes (37: 49-50). O paraíso terá, ainda, fontes perfumadas com cânfora e gengibre e conterá rios e jardins com frutas diversas, como tâmaras, bananas, uvas e romãs. Os eleitos vestirão trajes de seda fina, enfeitar-se-ão com braceletes de ouro e utilizarão taças de ouro e prata.

Os culpados serão lançados no inferno, que tem 7 portões: os infiéis passarão por seis portões e os muçulmanos pecadores pelo sétimo. Dezenove anjos guardam o fogo do inferno e a comida dos pecadores será sempre muito quente ou muito gelada.

Já que escrevi sobre o fogo eterno, convém citar uma anedota sobre um inferno bem particular: o inferno militar. Um milico, ao ser levado por um diabo para o inferno, descobriu que havia um inferno para cada grupo distinto de pecadores: políticos corruptos, comerciantes ladrões, traficantes de drogas e armas, assassinos, blasfemadores, tipos diversos de pecadores, e um inferno só para militares. Em todas as bocas do inferno havia guardas tomando conta dos condenados, para que não fugissem. O militar só estranhou que não havia nenhum soldado tomando conta do "portão das armas" do inferno militar. O diabo então explicou: "Não precisa, eles se puxam uns aos outros para dentro do inferno quando alguém tenta fugir".


Alguns capítulos corânicos.


Fatihah


O primeiro capítulo do Corão, Fatihah (que significa "Abertura"), é também chamado de "Sumário do Corão". Em apenas 7 versos concisos esse capítulo resume toda a doutrina islâmica, que começa dizendo "Em nome de Alá, o Misericordioso e Compassivo". Segundo a Fatihah, Alá é o Mestre do Dia do Julgamento (Juízo Final), a quem somente se deve adorar e a quem o fiel muçulmano pede que mostre o caminho reto a ser seguido. Nas aberturas de cerimônias civis ou religiosas, na abertura e no encerramento das transmissões de TV, ou na formalização do noivado, a Fatihah é sempre recitada.


Maryam - Mãe de Jesus.


O capítulo 19 do Corão chama-se Maryam (Maria), que em árabe quer dizer "devota". A Virgem Maria dos cristãos, mãe de nosso Salvador, tem destaque especial no livro sagrado dos muçulmanos. Nenhum nome de mulher é citado no Corão, nem a mãe de Maomé, nem sua filha Fátima. Maria, porém, é citada 34 vezes. Isto demonstra a veneração e a exaltação que o islamismo tem por ela.

No Corão, a concepção de Jesus ocorreu de modo muito parecido com o narrado na Bíblia, na passagem em que Maria indaga como é possível ter um filho se nenhum homem a tocou e ela continua virgem: "O anjo disse: Assim seja, pois o Senhor disse: Isto é fácil para mim" (19:17).

Não é feita, no Corão, nenhuma citação de José, esposo de Maria. Quando Imran - o pai de Maryam - morre, Zacarias passa a tutelá-la.

Segundo o Corão: "Jesus ensinou: Eu sou um servo de Alá, Ele deu-me o Livro (Bíblia) e me fez profeta" (19:31).

O Corão não admite o conceito de Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo: "Não está de acordo com sua Majestade Alá que Ele tenha junto a si mesmo um filho" (19:35).

Jesus é citado em outros capítulos do Corão, além do 19º. Segundo o Corão, Jesus não morreu na cruz, porém de morte natural e os judeus e cristãos continuarão a acreditar em sua morte (5:115). Ainda de acordo com o Corão, Jesus era um profundo conhecedor da Torá, os 5 primeiros livros do An-tigo Testamento, que conhecemos por Pentateuco (5:111).


Bani Israel.


Bani Israel significa "Filhos de Israel" e compreende o 17º capítulo do Corão. Nesse capítulo, destaca-se o Livro dado por Deus a Moisés, a Torá. Há várias exortações, como: "Não se aproxime sequer do adúltero; verdadeiramente, ele é uma coisa ruim e um mau caminho. Não destrua a vida que Alá tem declarado sagrada, salvo por justa causa. Não se aproxime da propriedade do órfão durante sua menor idade, exceto com o melhor propósito" (17:32-37).

Nessa passagem, podemos notar como é altamente perigoso a falta de definição do que seria uma "causa justa" para matar um semelhante nosso, ou o que poderia ser esse "melhor propósito" para discernir sobre o destino dos bens de um órfão. Afirmações vagas desse tipo talvez expliquem as ações de grupos fundamentalistas muçulmanos em tirar vidas humanas em atentados que ocorrem todo dia. No caso, pela "justa causa" de Alá. Vale lembrar, também, que Just Cause (Causa Justa) foi o codinome da operação americana que promoveu a invasão no Panamá, em 1989...

Em Bani Israel destaca-se a missão de Moisés em resgatar os hebreus da tirania do faraó, levando-os para fora do Egito e atravessando o Mar Vermelho. A peregrinação pelo deserto, durante 40 anos, como castigo divino, a chuva de maná, a idolatria do bezerro de ouro, tudo é muito seme-lhante ao que está escrito na Bíblia.

Nessa surata, deve-se destacar, ainda, o modo como o fiel muçulmano deve rezar: "Observai a oração em diferentes tempos, entre o pôr do sol e a profunda escuridão da noite, e recitai o Corão prostrados. A recitação do Corão prostrado é especialmente agradável a Alá" (17:79). A atitude que o fiel muçulmano tem durante a oração - a prostração - é um costume antigo, também utilizado por nosso Mestre: "E, adiantando-se um pouco, (Jesus) prostrou-se com o rosto em terra, orando ..." (Mateus, 26:39).

Além de Maryam e Bani Israel, outros nomes bíblicos dão o título a capítulos ou suratas do Corão. O capítulo 12 refere-se a Yusuf (José). Não é o esposo de Maria, porém o filho de Jacó, vendido por seus irmãos a mercadores do Egito. O capítulo número 14 é o de Ibrahim (Abraão), pai dos árabes e dos judeus. O capítulo 10 é o de Yunus (Jonas). Estes últimos são todos grandes profetas do islamismo, incluindo ainda Da'ud (Davi), Dhul-Kifl (Ezequiel), Idris (Enoch), além de Adão, Noé, Elias, Jesus e outros.


A beleza das mesquitas


Nas mesquitas não há estátuas. O islamismo proíbe a mimese, a imitação da figura humana, que na cultura greco-romana atingiu seu mais alto grau de elaboração, esculpindo estátuas perfeitas, e que na cultura cristã viria a se tornar uma obra de intenso fulgor, principalmente com as pinturas e esculturas do Renascimento. Por isso, as mesquitas são enfeitadas internamente apenas com desenhos de letras árabes, repetindo centenas ou milhares de vezes o nome de Allah, com muitos arabescos e detalhes em dourado. Há até uma arte árabe em que letras utilizadas no Corão, a língua árabe, formam desenhos de grande impacto visual. Além disso, assim como nós no Ocidente gostamos de ter alguma reprodução de pintores famosos como Da Vinci ou Van Gogh, os árabes enfeitam as paredes de suas casas com uma profusão de quadros com textos corânicos escritos em letras douradas.

O chão das mesquitas é forrado com dezenas e até centenas de tapetes, dependendo do tamanho dos templos. Quando recolhidos, para limpeza ou obra na mesquita, os tapetes chegam a formar montanhas nas naves e nos vastos corredores, como vi-mos na Mesquita de Ibn Tulun, no Cairo. No Egito, os tapetes das mesquitas são feitos de lã, que pode ser local ou importada da Austrália.

A planta central e a cúpula das mesquitas tiveram origem bizantina, com elementos armênios. A ornamentação riquíssima tem fonte copta (cristã do Egito). As mesquitas mais monumentais são as do Cairo, de Kairum (Tunísia), de Omar (Jerusalém) e as mouriscas da Espanha: nas cidades de Córdoba, Toledo e Alhambra. Porém, o Taj Mahal, na Índia, mausoléu que o imperador Shah Jahan construiu para sua mulher Mamtaz Mahal, é a obra suprema da arquitetura islâmica.


Algumas prescrições corânicas.


Em 1994, fez sucesso nas manchetes de todo o mundo o rapaz americano condenado a sofrer chibatadas, em Singapura, devido à sua ação nefasta em pichar veículos naquele país. O mais interessante é que uma pesquisa nos EUA mostrou que os americanos aprovaram, em sua maioria, aquela punição heterodoxa. No Brasil bem que poderíamos utilizar esse tipo de castigo para punir os pichadores de monumentos e igrejas.

No Corão, vários tipos de castigo prevêem o uso da chibata. "Flagele a adúltera e o adúltero, a cada um deles, com 100 vergastadas..." (24: 3). A pena para os caluniadores de uma mulher casta será de 80 vergastadas, caso não tragam 4 testemunhas para provar a acusação (24: 5).

Os ladrões devem sofrer rigoroso castigo: "Corte fora as mãos do homem que rouba e da mulher que rouba, em retribuição de sua ofensa, como uma exemplar punição de Alá" (5: 39).

Um homem casado pode deixar de ter relação sexual com sua mulher por um período de, no máximo, 4 meses, após o qual deverá se reconciliar com sua esposa ou divorciar-se (2: 227-228). A relação sexual é proibida durante a menstruação da mulher, durante o período de retiro na mesquita, durante o jejum, no mês sagrado do ramadã (durante o dia) e durante o período da peregrinação a Meca (2: 188-189).

"O homem é impetuoso por natureza" (21: 38). Talvez, por isso, pode ter até 4 mulheres, desde que as trate eqüanimemente: "Você deve aprender de que não será correto ter relações com órfãs, se você casar com mais de uma delas, então case-se com outra mulher que seja agradável a você, 2 ou 3, ou 4; porém, se você sentir que não irá tratar cada uma delas com justiça, então case-se somente com uma, ou com aquela sobre a qual você tenha mais autoridade. Este é o melhor modo de você evitar a injustiça" (4: 4-5).

O Corão considera pecado dar apelido a alguém (49: 12). O político Leonel Brizola não seria um bom muçulmano, pelo seu esporte preferido de dar apelidos a seus desafetos, especialmente durante as campanhas para eleições presidenciais: "sapo barbudo", "filhote da ditadura" e outros.

Para testemunhas, 2 mulheres valem 1 homem: "Procure duas testemunhas dentre seus homens; e se 2 homens não estiverem disponíveis, então um homem e duas mulheres, dentre os que você desejar como testemunhas, de tal forma que se uma das duas mulheres estiver em perigo de esquecimento, a outra refrescará sua memória" (2: 283).

No Corão não existe a noção de "pecado original", como prega a religião cristã. Segundo o Corão, a natureza humana, originalmente, é pura: "... e siga a natureza determinada por Alá, a natureza conforme Ele tem criado a humanidade. Não se deve alterar a criação de Alá. Esta é uma fé eterna. Porém, muitos não sabem" (30: 31).

"Em caso de divórcio, as mães devem amamentar suas crianças por 2 anos inteiros, no local onde é desejado completar a amamentação, e o pai da criança deve ser responsável pelo sustento da mãe durante aquele período, de acordo com o costume" (2: 234). É óbvio que essa obrigação não é somente para as divorciadas, mas um lema para toda mulher muçulmana que tenha filhos.

"Povo do Livro, por que você rejeita os sinais de Alá, tendo sido testemunha disto? Povo do Livro, por que você confunde verdade com falsidade e afasta a verdade deliberadamente?" (3: 71-72). O "Povo do Livro" são os judeus e os cristãos. Comumente, o Corão identifica o livro dos judeus como sendo a Torá e o livro dos cristãos como sendo os Evangelhos, o que não é de todo correto, pois não englobam todo o Antigo e Novo Testamento. As exortações, feitas com veemência, sempre têm como alvo o Povo do Livro. Por que não estão incluídos também, por exemplo, os budistas e os hinduístas?

A zakat é uma espécie de dízimo que os mais bem aquinhoados doam aos pobres, e é prescrito no Corão: "Observai as orações e pagai a zakat, pois, pelo tudo de bom que derdes, antes de guardar para vós, encontrareis junto de Alá" (2: 111). A exemplo da Igreja Católica, que prega a doação do dízimo mas que não consegue incrementar o preceito, da mesma forma os vários países muçulmanos aplicam a zakat a seus fiéis, alguns com mais sucesso que outros.

"Abraão não foi nem judeu, nem cristão, ele foi sempre temente a Alá e obediente a Ele" (3: 68). Implicitamente, essa frase afirma que, para o Corão, Abraão é um muçulmano, já que o termo "muçulmano" (muslim em árabe) significa o "ato de se entregar", no caso, a Alá. Na verdade, as três religiões monoteístas - a judia, a cristã e a islâmica - originaram-se a partir de Abraão.

Quanto à obrigação da mulher casada vestir o purdah (véu islâmico), o Corão prescreve que somente os familiares mais chegados podem ver o seu cabelo, como o marido, o pai, o sogro, os filhos, as senhoras, os empregados que não têm desejo de sexo e as crianças que não têm conhecimento do relacionamento entre sexos (24: 31-32). A obrigação das mulheres muçulmanas solteiras vestirem o purdah foi uma imposição dos religiosos islâmicos, não do Corão.

A cobrança de riba (juro) para empréstimo de dinheiro é proibida. "Aqueles que se devotam à usura ficam como aquele que satã tem ferido de insanidade. Isto se dá porque eles ficam dizendo: 'O comércio de comprar e vender é também como emprestar dinheiro a juros'; pois Alá tornou legal o ato de vender e comprar e tornou ilegal a cobrança de juros" (2: 276). Muitos muçulmanos encontraram uma forma de fugir desta regra e chamam os juros de "aluguel".

Félix Maier
ttacitus@hotmail.com

----------

Obs.: O autor viveu dois anos no Cairo (1990-92) e escreveu “Egito – uma viagem ao berço de nossa civilização”, editado em 1995 pela Thesaurus, Brasília. O livro encontra-se na Livraria da UnB e na Livraria da Rodoviária.


VOLTAR