A RELIGIÃO MUÇULMANA
Os
fundamentos do Islã.
O islamismo não é uma religião original. Formou-se com base nas religiões
judaica e cristã e sua cultura nasceu do encontro das civilizações altamente
desenvolvidas da Grécia, Pérsia, Egito e Crescente Fértil. O Crescente Fértil
envolvia as ricas terras da Palestina, do Líbano, da Síria e da Mesopotâmia,
atual Iraque. Na parte cultural, os conquistadores foram subjugados pelos
conquistados. Os contos Alf Laylah wá Laylah (As Mil e Uma Noites) eram
originalmente persas, não árabes. Os persas escreveram os mais importantes
livros da Hadith (Tradição), tanto da seita xiíta quanto da sunita. Contribuíram
também na formação de cientistas como o físico e filósofo Avencina (Ibn
Sina), formado nas universidades ocidentais.
Porém, a cultura árabe floresceu esplendidamente durante a Idade Média,
enquanto o "período das trevas", ocasionado pela Inquisição,
colocou a Europa na mais completa escuridão cultural. Devemos aos árabes a
conservação da cultura grega e muitos aspectos culturais europeus
inspiraram-se em costumes árabes. Alguns consideram que a concepção da
cavalaria, na Europa, a arte bélica desenvolvida em volta do cavalo, foi uma noção
que veio do islã.
Paradoxalmente, os muçulmanos preservaram a cultura grega para o Ocidente, que
mais tarde iria ser o fermento do Renascimento, quando os cruzados levaram
aquela cultura e as ciências árabes para a Europa. Enquanto isso, os árabes
permaneceram fiéis aos rígidos ensinamentos do Corão, sem desvio de rota.
Lendo-se o Corão, observa-se que as idéias centrais são repetidas dezenas e
dezenas de vezes, como o sermão de um pároco que discorresse sobre um só
tema. As ilustrações são diversas, os ensinamentos são veementes, nobres e
profundos. O livro sagrado dos muçulmanos afirma como verdadeiras as primeiras
revelações divinas: "Verdadeiramente, nós lhes enviamos a Torá, cheia
de ensinamento e luz" (5: 45). O Corão relaciona os pecados a serem
evitados e as virtudes a serem seguidas.
O Corão prega a liberdade de consciência. É taxativo quando diz que a fé é
uma questão de consciência de cada um e não pode ser imposta: "Proclame:
Esta é a verdade de seu Senhor; então deixe quem quiser, que creia, e deixe
quem quiser, que não creia" (18: 30). Porém, há enunciados corânicos
que vão contra os cristãos e judeus, como veremos adiante. Isto, certamente,
deve ser a causa da intolerância de muitos muçulmanos frente à civilização
ocidental.
O livro dos muçulmanos lembra continuamente as responsabilidades do homem e da
mulher, que devem ser tolerantes com as pessoas nas desavenças. O Corão lembra
aos filhos que eles foram gerados com a dor da mãe, que os carregou no ventre
por mais de 30 meses. Assim, quando a mãe atingir a maturidade, por volta dos
40 anos, o filho deve retribuir a dádiva que recebeu ao vir ao mundo. Ao pai
idoso o mesmo cuidado deve ser concedido.
Socialmente, o Corão é mais evoluído em um aspecto que a Bíblia: o divórcio.
Em nossa sociedade ocidental, o divórcio está cada vez mais presente em nosso
cotidiano, inclusive entre os cristãos, mesmo que os Evangelhos não o
permitam.
Como foi escrito numa época em que o sistema patriarcal era absoluto, quando na
antiga Arábia até as meninas muitas vezes eram enterradas vivas porque o pai
preferia homens, a mulher no Corão tem uma posição inferior. Os religiosos muçulmanos,
no entanto, interpretam a posição secundária da mulher não como uma humilhação,
mas a necessidade de ela precisar do amparo e da assistência do marido,
principalmente na vida material, e da custódia contra o abuso de outros. O
problema todo é o choque dos ensinamentos rígidos do Corão frente à vida
moderna, na entrada do século XXI, quando presenciamos no Ocidente a banalização
de todos os conceitos morais e religiosos.
Por isso, não deve causar estranheza que o Corão tenha se cristalizado
naqueles princípios que então regiam as sociedades, já que o livro sagrado
dos muçulmanos, escrito na “língua dos anjos”, não pode jamais ser
modificado. Para os religiosos islâmicos, não pode haver uma "revisão"
do Corão, assim como houve a Reforma Protestante - um movimento religioso
contra a Igreja Católica estática e corrupta da época. Da mesma forma, as
exortações veementes, a rígida moral, os castigos extremos - como a pena de
morte para os que renegarem sua religião, ou o corte das mãos dos ladrões -,
tudo isso decorre da época em que vivia Maomé. O Antigo Testamento, com a Lei
Mosaica, não era menos rigoroso em seus ensinamentos. A pena de morte era
prescrita com bastante freqüência.
Assim, de acordo com o rigor que os muçulmanos interpretam seu livro sagrado,
observamos as várias nuances no mundo árabe e muçulmano, com países mais
liberais de um lado, como o Egito e a Turquia, e de outro lado países mais
conservadores, como a Arábia Saudita e o Irã.
A Sharía (Charia ou Lei) significa "caminho do bebedouro", o
"caminho que leva a Alá". É a crença ou doutrina islâmica, além
do ritual religioso e a moral social, que deve ser aplicada a toda a sociedade
muçulmana. Quatro são os fundamentos da Charia: o Corão, a Sunna, o Ijima e o
Quias.
Al-Quran ("o Corão" ou "o Alcorão") significa
"discurso", "recitação" e é também chamado de Kitab
Allah (Livro de Alá). Eterno e imutável, considerado a língua dos anjos, o
Corão não pode sequer ser traduzido. Para a unanimidade dos ulema (teólogos
muçulmanos), a tradução do Corão para qualquer outro idioma não se
considera mais Corão e sim "tradução dos significa-dos dos versículos
corânicos". Para os fundamentalistas muçulmanos, devem ser cumpridas
todas as determinações do Corão, sem possibilidade de contestações, revisões
ou interpretações livres em qualquer época da história humana.
A Sunna (caminho do Profeta) é o conjunto de acontecimentos da vida de Maomé,
reunidos na Hadith (Tradição), para preencher as lacunas do Corão, que é
imutável. A Hadith começou a ser reunida desde a época omíada.
O Ijima ou "consenso universal" é qualquer crença ou prática, mesmo
não contidas no Corão ou na Hadith, que se tornam justificáveis, desde que
aceitas pela comunidade muçulmana.
O Quias é a base de interpretação da Charia. É um raciocínio analógico,
através do qual novas crenças e modos de conduta são deduzidos. Os
conservadores limitam tal princípio, pois pode levar à livre interpretação.
Na doutrina islâmica, convém destacar, ainda, o papel dos religiosos na
atualidade.
O mufti é o intérprete máximo da Sharia, a lei islâmica. No antigo império
islâmico, a administração das províncias previa o cadi e o mufti. O cadi
julgava as questões judiciais e sua autoridade era apenas inferior à do chefe
de Estado. Hoje, o Grande Mufti do Egito é a maior autoridade religiosa do país
e trabalha em conjunto com o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar.
O alim é um sábio religioso. Os ulema (plural de alim) são os teólogos muçulmanos,
os profundos estudiosos e intérpretes do islamismo.
O sheikh é um estudioso da religião e, junto com o imam, normalmente dirige
uma mesquita. No Egito, destaca-se o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar,
importante centro de teologia não só do Egito mas de todo o mundo muçulmano.
Tínhamos um amigo oriundo de Paranaguá-PR estudando na Universidade Al-Azhar
para ser um sheikh (xeque).
O imam (imã, sacerdote muçulmano) está associado com uma mesquita em
particular, onde lidera as orações, principalmente das sextas-feiras ao
meio-dia, quando profere "sermões". É como se fosse o "vigário"
da Igreja Católica.
As obrigações do muçulmano
São 5 as principais obrigações do islamita: a shahada, que é o recital do
credo "Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta"; a salat, que
consiste em orar 5 vezes ao dia, voltado para Meca; a zakat, que é o pagamento
de doações, espé-cie de dízimo, para ajudar os pobres; a siam, jejuar no mês
sagrado do Ramadã; e fazer, ao menos uma vez na vida, uma peregrinação a
Meca, a hajj.
Já cedinho, de madrugada, os alto-falantes das mesquitas chamam os fiéis para
a oração: "é melhor rezar do que dormir". Antigamente, era o muezin
que chamava, do alto das mesquitas, os fiéis para a oração. Hoje, várias
vezes durante o dia e à noite as fitas gravadas e os alto-falantes fazem esse
serviço.
A abertura da televisão é feita com leitura de trechos do Corão. Várias
vezes durante o dia, na hora do chamamento dos fiéis para a oração, a
programação da televisão é interrompida para a leitura do Corão. Da mesma
forma, ao sair do ar, a televisão apresenta algumas orações extraídas do
livro sagrado.
A 6ª feira é o Yum Al-Guwah, o "Dia da Reunião", o dia por excelência
da oração. Nesse dia, o imam sobe ao púlpito e profere dois sermões.
Com-parando, seria a missa dos católicos nos domingos e dias santos. O horário
é por volta do meio-dia e podíamos ver, em todas as mesquitas do Cairo, o povo
aglomerado do lado de fora, aqueles que não conseguiram lugar dentro da
mesquita, acompanhando as orações pelos alto-falantes. Todos os fiéis vão
chegando com seu pequeno tapete para as orações. Alguns, na falta do tapete,
improvisam jornais para ficar em pé ou ajoelhado em cima dos mesmos, como prevê
a tradição.
A oração a Alá deve ser feita em um local limpo, por isso a necessidade do
uso do tapete. Ao entrar em uma mesquita, o fiel muçulmano deve deixar os
sapatos do lado de fora. Na maior parte das mesquitas a entrada é somente
permitida aos homens. Os estrangeiros também têm acesso, mas somente em
algumas mesquitas são permitidas fotografias ou filmagens. Cada mesquita tem
seu mihrab, o nicho indicador da direção de Meca, para onde o fiel muçulmano
deve se voltar durante as orações.
Os religiosos muitas vezes admoestam os fiéis, que trocam a mesquita pela
televisão, principalmente quando jogam o Zamalek e o Ahli, do Cairo, um clássico
que pára a cidade. Seria uma espécie de Fla-Flu dos bons tempos. Ou de um
Corinthians versus Palmeiras da atualidade.
Mas não é só nas mesquitas que o fiel faz suas orações. Nem só naqueles
horários rígidos anunciados pelos alto-falantes das mesquitas, pelo rádio ou
pela TV. Em qualquer local e a qualquer hora o fiel muçulmano pode fazer sua
oração. Para a oração, o fiel deve fazer a tagsil, a ablução do rosto e
das mãos com água, ou o tayammum, ablução simbólica, que consiste em
esfregar areia nas mãos na falta de água, como se segue:
"Para rezar, lavar as faces e as mãos até o cotovelo; passar as mãos
secas sobre a cabeça; lavar os pés até o artelho. Se tiver tido relação
sexual com suas esposas, tomar banho para se purificar. Se estiver doente ou em
viagem ou vier da privada, ou tenha tido relação sexual com suas esposas e não
encontrar água, há o recurso do pó limpo, tocando-o com as mãos e passando o
pó no rosto e no antebraço" (5: 7-8).
Ajudar os pobres é outra obrigação do muçulmano. Não só oferecendo carne
aos pobres no Aid El-Adha, a Festa do Sacrifício, mas também contribuindo com
gorjetas aos pedintes nas ruas. E qualquer favor prestado, o pagamento é
obrigatório. A zakat, a contribuição purificadora, tem por objetivo a
redistribuição da riqueza, maneira de reduzir as diferenças sociais - ao
menos em tese. É para purificar os ricos do egoísmo e os pobres da inveja. Se
o bauab (porteiro), normalmente um beduíno analfabeto do interior, ajudar a
levar as compras até sua casa, ou qualquer pessoa pobre prestar algum favor,
você é obrigado a dar um bakshish (gorjeta). Na época do ramadã, os
estrangeiros também são convidados a dar alguma contribuição ao bauab, ao
carteiro, aos cobradores de energia elétrica e de gás canalizado.
Pudemos observar, numa telenovela em que entendíamos muito pouco, que os árabes
até fazem humor com essa obrigação de dar gorjeta aos mais pobres. Um homem
rico, ao esperar um elevador, tentou se esquivar do toque de uma pessoa mal
vestida, que pedia uma esmola, para evitar a contribuição de gorjeta. No
primeiro descuido, o mendigo espanou com a mão uma sujeirinha do ombro do paletó
do homem e este não conseguiu escapar da obrigação de dar um bakshish como
pagamento pelo "trabalho" executado...
A siam é a 4ª obrigação do muçulmano, que consiste em jejuar no mês
sagrado do ramadã. Como já visto anteriormente, durante o ramadã, do nascer
ao pôr do sol, o muçulmano não pode se alimentar ou ingerir qualquer tipo de
bebida, a não ser em caso de doença, com receita médica.
A última das cinco principais obrigações do islamita é fazer, ao menos uma
vez na vida, uma peregrinação a Meca, na Arábia Saudita. Na Hajj (Peregrinação
para a Casa de Alá), o peregrino deve chegar à cidade de Meca no sétimo dia
do último mês muçulmano, o mês de Dhu'l-hijja, e participar de cerimônias
até o 10º dia daquele mês.
A umra é a visitação aos lugares sagrados que o muçulmano deve fazer na Arábia
Saudita, cumprindo determinado ritual. Inicialmente, deve visitar a Al-Masquid
Al-Haram (a Mesquita Sagrada), no centro da qual se encontra a Caaba. Deve
rodear 7 vezes a Caaba, 3 vezes correndo e 4 vezes andando vagarosamente. Deve
beijar a Al-Hajar Al-Asuad (a Pedra Negra), que é o meteorito localizado no ângulo
leste da Caaba e que serviu de mesa para o sacrifício de Abraão. Deve beber água
do poço de Zam-Zam e percorrer, 7 vezes, a distância entre os montes Safa e
Marwa (
Depois, o fiel muçulmano deve ir ao Monte Arafat e a Mina, para atirar pedras
contra colunas baixas, as "lapidações do diabo". Por último, deve
sacrificar um animal, no Aid El-Adha, em memória de Abraão, considerado um dos
grandes profetas, construtor da Caaba e pai dos árabes, para lembrar que Abraão
quase sacrificou seu filho Ismael.
Não-muçulmanos são proibidos de entrar
Assim como é costume dos cristãos levarem água do Rio Jordão, como lembrança,
os muçulmanos levam garrafas de água da fonte de Zam-Zam.
Em 1991, foi permitido o retorno de iranianos para a visitação a Meca, depois
de ficarem 4 anos proibidos de entrar na Arábia Saudita. Em 1987, 400
iranianos, fortemente armados, morreram em choques com a polícia saudita.
Durante o Aid El-Adha pudemos ver rebanhos de ovelhas e carneiros sendo tocados
por beduínos pelas ruas do Cairo. Aos brados, o beduíno anuncia o seu produto
e as pessoas vão descendo de seus apartamentos para a compra do animal. Na rua
mesmo, em frente ao prédio, sem nenhuma preocupação com higiene, o beduíno
mata o animal, retira as vísceras e parte o bicho em muitos pedaços. Os mais
endinheirados compram o animal inteiro, enquanto outros compram apenas alguns
pedaços. Às vezes, devido à matança de grande quantidade de animais em um
mesmo local, forma-se uma verdadeira lagoa de sangue na rua, com cães e moscas
O cisma muçulmano e o fundamentalismo islâmico.
As heresias e os movimentos separatistas começaram logo após a morte de Maomé,
fugindo da ortodoxia sunita (de Sunna ou "Caminho do Profeta").
Maomé não tinha herdeiros homens. Isso o preocupava muito e, após a morte de
sua mulher Cadidja, passou a ter várias mulheres, em um total de 8 ou 9, para
conseguir um herdeiro masculino. Esse, talvez, um dos motivos da permissão da
poligamia que foi autorizada, também, para seus seguidores, porém em um número
máximo de 4 mulheres. Ou de 2 mulheres, para os escravos.
Áli Ibn Ábi Taleb era casado com Fathima, filha do Profeta, e assim, além de
primo, tornou-se genro de Maomé. Áli era um dos discípulos mais queridos do
Profeta e este uma vez dissera que "para onde Áli for, todos devem ir também".
Pouco depois Maomé morreu, sem deixar filho para sucedê-lo e sem estabelecer
regras claras de sucessão. Os homens mais chegados a Áli esperavam que este
fosse proclamado sucessor do Profeta. Porém, Abu Bakr, sogro de Maomé, foi
escolhido para ser o 1º califa.
O xiísmo formou-se com o partido chi'a de Áli, que considerava o califa não
um chefe executivo mas como um imam carismático, apontado por Alá. Kufa, no
Iraque, era sua capital. Áli acabaria sendo o 4º califa da linha sunita - a
ortodoxia muçulmana -, embora tenha se separando dessa linha para ser o 2º ímã
da linha xiíta.
A corrente principal do xiísmo é a dos Doze, assim chamada porque acredita que
o 12º ímã, Al-Muntazar, desaparecido em 878, continua vivo e reaparecerá,
antes do julgamento final, para salvar o mundo. Al-Muntazar significa "o
Esperado", o mesmo que "Messias". O primeiro imam foi Maomé. Áli
foi o segundo. O terceiro ímã foi Hussein, filho de Áli. Segundo os xiítas,
todos os ímãs são destinados ao martírio.
Os xiítas introduziram algumas modificações na prática religiosa: peregrinação
por procuração, visita a túmulos de santos e o casamento temporário, a muta.
No Irã, ainda hoje o casamento é um contrato que poderá ser desfeito, caso um
dos cônjuges assim o desejar.
Os xiítas concentram-se, principalmente, no Irã, Ira-que, Paquistão e sul do
Líbano. Da raiz xiíta decorrem seitas dos caradjitas, ismaelitas e zaiditas.
Os ismaelitas formam a corrente dos Sete, pois reconhecem Ismail como sétimo
imam e não seu irmão mais jovem, Musa, assim considerado pelos Doze. São
ramos dos ismaelitas os drusos, a seita dos assassinos e os fatímidas do Egito.
Fatímidas, como foi afirmado, tem o nome derivado de Fathima, filha de Maomé e
mulher de Áli.
O Ayatollah Khomeiny, ao instaurar a Revolução Islâmica no Irã em 1979,
proclamou o conceito de velayat-e-faqih, que literalmente significa a
"guardiania do jurista religioso". O conteúdo dessa doutrina é que
um homem de destacado conhecimento da lei islâmica seja designado vali-e-fagih,
sucessor do profeta Maomé. Khomeiny tentou, assim, restabelecer o sistema do
califado otomano abolido por Mustafa Kamel, na Turquia, em 1924. O sonho maior
dos xiítas iranianos é restabelecer o poderoso Império Otomano, comprovado
nas palavras de Khomeiny: "Não há fronteiras reais entre nações islâmicas".
No entanto, o conceito de Khomeiny chocou-se com a tradição xiíta,
fundamentada no messianismo do "12º Imã", e que não aceita o princípio
da sucessão.
Deve-se destacar os antecedentes do fundamentalismo islâmico na atualidade.
Antes de Khomeiny, no século XVIII, houve o wahabi (fundamentalismo) na Arábia
Saudita, derivado do reformador islâmico Mohammed Ibn Abdel Wahab. Neste século,
tiveram destaque as ações da Irmandade Muçulmana, fundada em 1928 pelo egípcio
Hassan Al-Bauna, com grande influência atualmente em todo o Oriente Médio.
Segundo os fundamentalistas, o Profeta usou a mesquita para orar, para a guerra,
para a justiça e outros motivos mais.
Convém aqui acrescentar as palavras de John Laf-fin no livro "The Arab
Mind":
"A lei islâmica não reconhece a possibilidade de paz com descrentes e
infiéis. A parte do mundo não-muçulmano é conhecida na teologia islâmica
como 'território de guerra'. A maior parte dos militantes muçulmanos acredita
que a tarefa de Maomé não será bem-sucedida enquanto não-muçulmanos tiverem
controle de qualquer parte do planeta".
Messianismo semelhante havia antigamente quando a Igreja Católica, ainda sem os
ventos ecumênicos de Roma, tinha por objetivo levar o cristianismo a todos os
pontos da Terra, sentindo-se na obrigação de impor o Evangelho a todos os
povos do mundo. Mesmo que fosse pelo terror, como aconteceu durante a Inquisição.
Eu me lembro de um padre que conheci na adolescência, que se sentia muito
desgostoso e arruinado por saber que havia milhões e milhões de chineses pagãos,
sem perspectiva de serem convertidos à fé cristã. O Concílio Ecumênico pôs
um ponto final nessa apreensão e atualmente a Igreja Católica convive
pacificamente com todas as outras religiões e prega que todos serão salvos, se
levarem a sua religião a sério.
Algo semelhante à antiga postura da Igreja Católica tivemos neste século, com
o Movimento Comunista Internacional, tentando impor um sistema econômico-social
de abrangência planetária. Pudemos observar, nas últimas décadas, o esforço
do comunismo em se estabelecer em todos os países do mundo, quer pela força
das armas, quer por eleições livres, para depois aplicar o golpe. De grande
apelo popular, por tentar acabar com todas as diferenças sociais, o que
presenciamos na verdade foram regimes sanguinários que se estabeleceram à força
em vastas áreas do mundo, a exemplo da União Soviética e da China. Nunca o
mundo havia presenciado tamanha truculência. Onde o comunismo foi implantado, o
fracasso foi estrondoso. Não conseguiram resolver o problema das desigualdades
sociais. Igualou-se apenas a miséria.
Hoje, pode-se dizer que o fundamentalismo islâmico - ao menos aquele pregado
por Khomeiny e outras correntes extremistas - substituiu o Movimento Comunista
Internacional pela mesma ambição de implantar um sistema de vida único a
todos os povos: os preceitos da Sharia. Seria talvez a última ideologia em
curso no mundo atual. Como visto anteriormente, a parte do mundo que não é islâmica
é conhecida na teologia muçulmana como "território de guerra".
Assim, não causa estranheza a propagação do islamismo pelo mundo todo, já
comportando milhões de adeptos também na Europa e nas Américas. E a jihad dos
fanáticos nos atentados contra a Embaixada de Israel na Argentina (1992), no
World Trade Center,
Convém lembrar que a palavra "fundamentalismo" não tem,
necessariamente, conotação pejorativa. Significa "fundamento",
"alicerce". Segundo os religiosos muçulmanos, é "uma volta à
origem, à pureza e aos fundamentos do verdadeiro islã da época de Maomé".
O Papa João Paulo II não deixa de ser um fundamentalista quando não aprova o
divórcio e não permite o aborto, porque isso contraria o que está prescrito
nos fundamentos da religião cristã, os Evangelhos. Atualmente, o termo
"fundamentalismo" se tornou sinônimo de fanatismo islâmico
extremado, ligado aos movimentos integristas que querem subordinar a vida dos muçulmanos
à Sharia, a lei islâmica que integra Religião e Estado em uma única
entidade. Nem que seja à base do terror.
Expansionismo muçulmano na atualidade.
Segundo John Laffin (op. cit.), a história tinha se "tornado certa"
para os árabes há 14 séculos atrás, quando começou o expansionismo árabe.
Segundo o raciocínio do autor, tudo o que o profeta Maomé tinha prometido a
seu povo concretizou-se rapidamente: glória e domínio por séculos, em três
continentes, a religião muçulmana estendendo-se da costa atlântica da África
até a Índia, incluindo a Espanha e Portugal. O povo árabe era realmente o
escolhido de Alá. A história - para os árabes - estava "certa".
Porém, com a saída dos árabes da Península Ibérica e, posteriormente, com a
fragmentação do Império Otomano, a sujeição de muitos países árabes ao
imperialismo inglês e francês, a história tinha se tornado
"errada".
Segundo a análise de Laffin, após a Guerra Árabe-Israelense de 1973, com o
embargo do petróleo árabe às nações do Ocidente, os árabes estavam
novamente
Se anteriormente era dado destaque ao expansionismo árabe, dominando vários
povos através da jihad, hoje deve-se dar destaque ao expansionismo muçulmano,
que está se fortalecendo nas repúblicas da Ásia Central, após a queda da União
Soviética, no sudeste asiático e na Oceania. Como se sabe, o islamismo, hoje,
é a religião que mais cresce no mundo.
Com a derrubada do Xá Rehza Pahlavi e a ascensão do Ayatollah Khomeiny ao
poder no Irã, ocorreu o 2º "choque" do petróleo. O preço do barril
de petróleo chegou a atingir o valor estratosférico de 34 dólares. Khomeiny
encurralou os EUA, ao tomar reféns americanos na Embaixada dos EUA em Teerã,
começou a expurgar seus desafetos, promovendo execuções sumárias e mostrou a
que veio: seus seguidores promovem atentados em todo mundo, fazem tremer o coração
financeiro do mundo ocidental - o World Trade Center,
Para comprovar isto, basta estender o mapa-múndi na mesa e examinar os
conflitos atualmente existentes no mundo. Há em torno de 50 países com
conflitos diversos, principalmente étnicos. Destes, pelo menos duas dezenas
envolvem muçulmanos, que desejam implantar o fundamentalismo religioso no país
ou pregam o separatismo de alguma província. Senão, vejamos alguns exemplos.
No Egito, a partir de 1992, se tornaram freqüentes os atentados de
fundamentalistas islâmicos. O Egito sempre foi um país muito tolerante,
coexistindo cristãos, judeus e muçulmanos na mais perfeita harmonia. Existem
muitos templos coptas, às vezes ao lado de mesquitas, assim como diversas
sinagogas. Ultimamente, essa harmonia foi quebrada pelo ataque dos
fundamentalistas, que metralham as autoridades do país, os turistas
estrangeiros e os cristãos coptas. Os ataques aos cristãos coptas dá-se
principalmente no bairro cairense de Imbaba e em cidades do Alto Egito, como
Assiut, ninho de fundamentalistas islâmicos. Em Assiut, em maio de 1992,
ataques de extremistas causaram a morte de 14 cristãos coptas e 3 muçulmanos.
Em 1990, no primeiro ano em que estávamos no Egito, foi assassinado o
Presidente do Parlamento Egípcio, Dr. Rifaat Mahgoud. Os autores do crime foram
componentes do movimento fundamentalista Al-Jihad (Guerra Santa), o mesmo
movimento que havia assassinado o Presidente Sadat em 6 Out 81. Em 1993, o
Primeiro Ministro egípcio Atef Sedki também sofreu um atentado, porém teve
mais sorte que o Dr. Rifaat.
Em 1991, extremistas islâmicos incendiaram uma igreja copta e várias lojas
comerciais dirigidas por cristãos, no bairro de Imbaba. Além de seu mercado de
camelos, Imbaba é conhecida por sua extrema pobreza, ruas sem asfalto,
vazamentos de água que alagam tudo, altas taxas de analfabetismo, sem
infra-estrutura e onde 600.000 pessoas se comprimem em 2 km² de área. O
Governo não se faz presente no bairro e por isso Imbaba foi "adotata"
pelos fundamentalistas islâmicos. Basta dizer que após o terremoto que afetou
o Egito em 12 de outubro de 1992 o auxílio dos fundamentalistas chegou a Imbaba
muito antes do Governo. Isto mostra a fácil penetração de grupos extremistas
em locais pobres, cuja população não tem nada mais a perder e tem na religião
sua última esperança. Se o Governo nada faz, o povo clama por Alá. O Egito se
ressente muito desses últimos atentados contra os cristãos coptas, contra o
Governo e contra turistas, pois depois do Canal de Suez é no turismo que o
Egito tem a sua maior fonte de divisas estrangeiras.
No Sudão observa-se uma "faxina étnica" semelhante àquela observada
na Bósnia-Herzegovina. O governo muçulmano, com apoio financeiro e pessoal do
exterior, persegue os cristãos no sul do país, que a custo conseguem ainda se
manter no território, sabe Deus até quando. Como é sabido por todos, depois
do Irã e da Arábia Saudita, o Sudão também implantou a Sharia - a lei islâmica
absoluta, que administra o país e seu povo conforme as regras estabelecidas no
Corão.
Em Israel, a intifada (rebelião) nos territórios ocupados (Gaza e Cisjordânia)
dificilmente acabará depois do recente acordo do governo de Ytzhak Rabin com a
OLP de Yasser Arafat. Os grupos armados Hamás e Jihad Islâmica rejeitam
qualquer tipo de acordo com o país judeu, pois são movimentos de resistência
islâmicos que combinam a fé fundamentalista com o nacionalismo palestino. Não
aceitam, sequer, a existência do Estado de Israel. Por isso, é provável que
haja, também, uma intifada em Gaza e Jericó contra o incipiente governo de
Arafat. Acrescente-se aos grupos citados a militância do Hizbullah, de origem
iraniana, que atua no Líbano, em confronto permanente contra os israelenses na
sua autoproclamada "zona de segurança", no sul do Líbano.
Na Argélia, um golpe militar impediu que os fundamentalistas da Frente Islâmica
de Salvação tomassem o poder no segundo turno das eleições livres de 1991. O
país vive uma guerra civil que já matou milhares de contendores e dezenas de
estrangeiros - normalmente estrangulados. Em 24 de dezembro de 1994, extremistas
islâmicos seqüestraram um Airbus da Air France em Argel, para vingar o apoio
francês ao regime militar da Argélia, resultando na morte de 3 reféns e dos 4
seqüestradores. Os extremistas pretendiam explodir o avião com todos os
passageiros nos céus de Paris.
No Senegal, pessoas são obrigadas a fugir ou são mortas pelo governo
controlado por muçulmanos e rebeldes.
Na Bósnia-Herzegovina, após a humilhação na Batalha de Kosovo, há mais de 5
séculos, os sérvios promovem contra os muçulmanos, como vingança, uma
"limpeza étnica" nos moldes medievais, como já abordamos
anteriormente.
Na Geórgia, pertencente à antiga URSS, os muçulmanos querem a independência
da Abcásia, ou anexação à Rússia. Da mesma forma, a Ossétia do Sul, de
maioria muçulmana, quer se unir à Ossétia do Norte. Na mesma região do Cáucaso
há o conflito da Chechênia, de maioria muçulmana, que proclamou sua independência
da Rússia em
Na Nigéria, dentre os vários conflitos étnicos, destaca-se o grupo husta, muçulmano,
e os iorubás, cristãos.
Na Índia, que tem uma população de mais de 100 milhões de muçulmanos, o
conflito mais grave dos últimos tempos ocorreu quando hindus incendiaram uma
mesquita em Ayodhia, em 1992. O conflito se propagou pelo mundo todo, como
rastro de pólvora, ocasionando milhares de mortes em outros países, além da
Índia. Em Bangladesh, até crianças foram queimadas vivas. Atentados contra
templos hindus foram observados em várias partes do mundo, inclusive na Grã-Bretanha.
A província de Cachemira, na Índia, de maioria muçulmana, luta por sua
emancipação ou por sua anexação ao Paquistão.
Em Bangladesh há choques entre muçulmanos e budistas, na região das Colinas
de Chittagong.
Na Birmânia mais de 250 mil muçulmanos fugiram para Bangladesh nos últimos
anos, para escapar da ditadura militar.
Na China, em Xinjiang, o governo reprimiu uma revolta de muçulmanos de origem
turca, em 1990.
Nas Filipinas - único país asiático de maioria cristã - observa-se uma
guerra entre o governo e separatistas muçulmanos da Ilha de Mindanao.
Na Indonésia, há uma década houve muitos choques entre muçulmanos e o
governo do general Suharto. Os muçulmanos radicais se recusaram a aceitar a
Pancasila, ideologia de princípios hinduístas. Hoje, a ditadura de Suharto
mantém a situação sob controle, com dificuldade, mas é bom lembrar que mais
de 80% da população da Indonésia é muçulmana.
Podemos ainda acrescentar a perseguição muçulmana que os drusos sofrem na Síria,
os curdos no Iraque e na Turquia, e os maronitas no Líbano, onde houve um
atentado dentro de uma igreja pouco depois do massacre na Mesquita dos
Patriarcas,
A "onda verde" (cor islâmica), antes apoiada pelos EUA para criar um
cinturão de defesa na Ásia Central contra a "onda vermelha" da
antiga URSS, é um feitiço que virou contra o feiticeiro. A República Islâmica
do Irã é a que está mais se empenhando em ocupar o vácuo do poder na região
após a dissolução da União Soviética. As ex-repúblicas soviéticas da Ásia
Central, como o Azerbaijão e o Cazaquistão, estão sendo intensamente
"evangelizadas" pelos mullahs do Irã.
O cientista político Samuel Huntington, conhecido por suas instigações
intelectuais e previsões ousadas, em famoso artigo escreveu sobre
"conflito de civilizações". Garantiu o professor de Harvard que uma
Terceira Guerra Mundial, se houver, será uma guerra entre civilizações.
Dentre as várias civilizações hoje existentes no planeta, Huntington destacou
a civilização ocidental e a islâmica.
Esta futura guerra poderia ser bem mais dramática que aquelas dos cruzados
contra os árabes. As cimitarras árabes e as lanças dos cristãos poderiam dar
lugar à jihad nuclear. Com o aumento de atentados de extremistas muçulmanos, o
World Trade Center,
Segundo Huntington, do confronto de duas civilizações surgem duas hipóteses
vistas na história: ou uma se funde à outra, ou uma destrói a outra. Já
disse o escritor Rudyard Kipling que "o Ocidente é o Ocidente e o Oriente
é o Oriente, e os dois jamais se encontrarão". Se isso for verdade, será
mesmo que uma dessas civilizações irá destruir a outra? Muitos
fundamentalistas islâmicos não têm dúvidas de que o próximo milênio verá
a consolidação do governo dos muçulmanos sobre todo o mundo.
A intolerância islâmica.
"Com certeza, a religião verdadeira na estima de Alá é o Islamismo, isto
é, completa submissão a Ele, e aqueles a quem foi dado o Livro (judeus e cristãos)
somente discordam em inveja mútua, após o conhecimento ter chegado a
eles" (3: 20).
"Vós que credes, não tenhais os judeus e os cristãos como vossos amigos,
pois eles são amigos uns dos outros. Se algum de vós os tiver como amigos,
vireis a ser um deles" (5: 52).
Lendo os versículos corânicos acima, pode-se constatar a intolerância que há
no islamismo, em relação às outras religiões. Por isso, talvez, o motivo de
fundamentalistas islâmicos não aceitarem a convivência pacífica com outros
credos religiosos. Porém, há uma brecha para o ecumenismo, se traduzirmos
"Alá" por "Deus", como se segue:
"Seguramente, sobre os crentes (muçulmanos), os judeus, os cristãos e os
sabeus (de Sabá, atual Iêmen), aqueles que verdadeiramente crêem em Deus e no
Último Dia (Juízo Final) e agem retamente, terão a recompensa de seu Senhor e
nenhum medo se apossará deles ou lhes afligirá" (2: 63).
Este último texto corânico, como afirma Mohamad Ahmad Abou Fares em seu livro
“Jesus Cristo na Visão de um Muçulmano”, "deixa patenteado que,
qualquer que seja a seita, desde que se crê em Deus e no Juízo Final, e se
pratiquem boas ações, as pessoas estarão a salvo: nada deverão temer, e nem
ficarem apreensivos quanto à salvação".
Como se pode constatar, depende do enfoque que um muçulmano faça ao ler seu
livro sagrado para ele se posicionar frente às pessoas de outros credos. Poderá
ser de uma intolerância absoluta ou de uma convivência amigável. Muitos
fatos, ao longo dos tempos, mostram que a intolerância islâmica tem-se
manifestado freqüentemente, como podemos comprovar nos episódios a seguir
expostos.
Uma prova típica de intolerância é o observado na localização da Esplanada
das Mesquitas, dentro dos muros da velha Jerusalém. Aquelas mesquitas impedem
que, hoje, os judeus construam seu Terceiro Templo. Por que os muçulmanos foram
construir as mesquitas justamente naquele lugar mais sagrado dos judeus, onde
antigamente havia sido erigido o Templo de Salomão? Não seria o mesmo que, se
a Arábia Saudita algum dia viesse a ser tomada por inimigos, e estes fizessem
erguer seus templos justamente na praça onde fica a Caaba?
As muralhas da antiga Jerusalém tinham 8 portas que permitiam o ingresso das
pessoas para o interior da cidade. Hoje, só 7 portas permitem o ingresso, pois
uma foi lacrada, a Porta Dourada. Segundo a tradição judaica, um dia chegará
o Messias, que irá entrar por aquela Porta. Para impedir que isso aconteça, os
árabes lacraram a Porta Dourada com pedras...
Em Betânia, agora dentro da Grande Jerusalém, fica o túmulo de Lázaro. Para
impedir que os peregrinos cristãos chegassem até aquele local, os árabes
fecharam a entrada do túmulo, construindo uma mesquita em seu lugar.
Posteriormente, um frade franciscano construiu um outro caminho, dentro da
rocha, até as profundezas do túmulo, por onde os peregrinos hoje conseguem ter
acesso até o seu interior.
O local onde - segundo a tradição cristã - Jesus subiu aos céus hoje
comporta a Capela da Ascensão, que é na realidade uma pequena mesquita. Para a
comemoração da Festa da Ascensão do Senhor, os cristãos recebem permissão
para a celebração da missa e de outras cerimônias religiosas na Capela. Porém,
enquanto os cristãos participam da festa, alto-falantes de outra mesquita, nas
imediações, são colocados a volume máximo, tirando a concentração dos fiéis.
O leitor deve se lembrar do grave incidente que ocorreu depois que uma mesquita
em Ayodhia, na Índia, foi incendiada por hindus, em 1992. Houve tumultos e
depredações de templos hindus em todas as partes do mundo. Na realidade, os
hindus estavam apenas querendo retomar o local onde antigamente havia um templo
hindu, que marcava o local de nascimento do deus Rama, e que foi destruído para
dar lugar à construção de uma mesquita.
Há poucos anos atrás, os muçulmanos construíram uma mesquita bastante próxima
da Basílica de São Pedro, no Vaticano. O símbolo do hilal (lua-crescente) se
fez representar, quase que lado a lado, junto a um dos maiores símbolos do
cristianismo: a Igreja de Roma. Porém, será que os muçulmanos permitiriam que
se construísse uma igreja católica ou algum templo protestante em Meca? Com
certeza, isso eles jamais permitirão, pois os não-muçulmanos sequer têm
autorização para ingressar naquela cidade. Mas eles se julgam no direito de
construir templos onde bem desejarem, mesmo que seja em sítios sagrados de
outras religiões - caso do Templo de Salomão em Jerusalém e do templo hindu
na Índia. Como dizem alguns teólogos islâmicos, a parte do mundo governada
por não-muçulmanos é um "território de guerra".
Tomamos conhecimento das dificuldades dos aliados em convencer os sauditas a
permitir a presença das forças ocidentais em seu território para combater
Saddam Hussein, na Operação Tempestade no Deserto, para a retomada do Kuwait.
Muitas "costuras" políticas foram feitas, muitas restrições
superadas antes de permitirem o desembarque das tropas do general Schwarzkopf
naquele território árabe. Provavelmente, eles só devem ter permitido a presença
dos "infiéis" em seu país pela iminência de uma invasão iraquiana,
o que Saddam poderia ter feito sem muita dificuldade, pois a Arábia Saudita não
tinha força militar suficiente para impedir que isso viesse a ocorrer.
Um episódio narrado por John Laffin (op. cit.) é contundente: "Na Guerra
Civil do Iêmen (1962-65), na qual tropas egípcias estavam envolvidas, dois egípcios,
um copta e um muçulmano, ambos membros bem conhecidos de famílias de classe
alta e amigos de longa data, ficaram feridos num mesmo combate. A guarnição do
caminhão tinha ordens de recolher os muçulmanos antes dos cristãos. Assim, o
muçulmano foi salvo e o cristão morreu no campo, provavelmente trucidado por
tribos iemenitas".
Além dessa intolerância de muçulmanos contra não-muçulmanos, podemos
acrescentar aquela violência de muçulmanos contra eles próprios,
principalmente escritores e artistas que não se moldam nos ditames do islamismo
ou que escrevem palavras julgadas ofensivas ao Corão.
Dentre as pessoas atingidas por essa intolerância podemos citar Salman Rushdie,
um indiano naturalizado inglês, que escreveu o livro Versos Satânicos e
ocasionou a ira do Ayatollah Khomeiny. Rushdie foi condenado pela fatwa (decreto
religioso) islâmica e sua cabeça posta a prêmio: 3 milhões de dólares para
o muçulmano que tirar sua vida ou 1 milhão de dólares se o autor do crime for
um não-muçulmano. Se estivéssemos na época da Inquisição, e se o Papa João
Paulo II se valesse do mesmo rigor, o escritor Gore Vidal seria condenado à
fogueira por ter escrito palavras blasfemas contra Cristo em seu livro Ao Vivo
do Calvário.
Outra pessoa perseguida é a escritora de Bangladesh, Taslima Nasrin, que fugiu
de seu país e se refugiou na Suécia para escapar da perseguição de
fundamentalistas islâmicos. Ela é acusada de distorcer o sentido do Alcorão
ao propor direitos iguais entre homens e mulheres e de escrever temas
relacionados a sexo, um tabu para as mulheres islâmicas.
Em junho de 1992, o escritor egípcio Farag Fouda foi morto por dois extremistas
no Cairo e um porta-voz da Sociedade Islâmica, grupo fundamentalista do Irã,
assim se pronunciou: "Quem quer que advogue as idéias de Fouda merece ser
morto de acordo com a norma do Islã". E em 14 de outubro de 1994, o
escritor egípcio Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz - considerado a consciência
do mundo árabe -, foi esfaqueado na garganta, após sofrer várias ameaças de
morte por parte de fundamentalistas islâmicos. Seu romance Children of
Gebelawi, pelo qual foi condenado à morte pelos zelotes islâmicos, passou a
ser vendido "como tortas quentes" - segundo afirmou o jornal Al-Ahram
de 29 Dez 94 - 4 Jan 95.
A mulher no Islã.
A mulher islâmica é bastante discriminada na sociedade muçulmana. Ela deve
ser submissa ao pai ou ao marido. Muitas vezes não tem sequer o direito de
escolher o futuro marido, que é imposto pelos pais em troca de acordos pecuniários,
embora o Profeta tenha dito: "Não se case com uma viúva sem o seu
consentimento, nem com uma virgem sem sua permissão".
É óbvio que o mundo muçulmano não é monolítico. Existem significativas
diferenças entre os seus diversos países, alguns mais liberais como o Egito, a
Turquia, o Paquistão e a Tunísia, outros extremamente conservadores como a Arábia
Saudita, o Irã e o Sudão. Quem não se lembra das mulheres dirigindo seus
carros em protesto, na Arábia Saudita, após a Guerra do Golfo, exigindo
direito idêntico ao dos homens em conduzir um simples veículo pelas ruas?
Foram todas reprimidas e mandadas de volta para casa para se recolherem à
subordinação de seus maridos. Lá, as mulheres não têm permissão para sair
de casa sem a companhia de um mihram, que pode ser o marido, o pai, o sogro, o
irmão, o filho ou o enteado. E a vestimenta para as mulheres, mesmo para as
estrangeiras, deve incluir lenço na cabeça e vestido longo cobrindo os
calcanhares. Há tempos atrás, a embaixatriz brasileira foi agredida em uma
loja na Arábia Saudita por zelosos soldados porque não estava vestindo roupas
islâmicas.
Por outro lado, podemos destacar a posição que as mulheres têm atualmente no
Paquistão. Benazir Butho, escolhida pela segunda vez Primeira-Ministra daquele
país em 1993, é uma das poucas mulheres a governar um país muçulmano, ao
lado das colegas Tansu Ciller, da Turquia, e Khaleda Zia, de Bangladesh.
Muitas mulheres islâmicas, na atualidade, protestam contra a prática da
circuncisão feminina, que consiste em extirpar o clitóris, para que a mulher não
sinta prazer sexual. Principalmente por não ser prescrito no Corão. Os homens
muçulmanos acreditam que a circuncisão feminina irá lhes garantir mulheres fiéis.
Como eco à conturbada Conferência das Nações Unidas sobre População e
Desenvolvimento, levada a efeito no Cairo em
Geralmente, a mutilação do órgão sexual feminino é feita sem anestesia,
ocasionando infecções e até a esterilidade. Esta é, sem dúvida, a pior
coisa que pode acontecer a uma mulher islâmica: não ter filhos. A procriação
é extremamente valorizada na sociedade muçulmana e o marido normalmente pede o
divórcio quando não tem herdeiros ou só tem herdeiros femininos. Este
anacronismo - a circuncisão feminina - persiste na atualidade não somente
entre os muçulmanos, mas também entre outros grupos religiosos do Oriente Médio
e da África, incluindo cristãos.
Apesar dessa discriminação contra as mulheres islâmicas que perdura até
hoje, o Corão redimiu as mulheres em muitos aspectos. Segundo nos ensina Dr.
Hassam Al-Alcheik em seu livro O Lugar da Mulher no Islã, antigamente, antes de
Maomé, muitos árabes enterravam as meninas vivas, para evitar que fossem
desonradas. As meninas pereciam na areia pela mão de seu próprio pai, como o
descrito no Corão: "Quando a alguém é anunciado o nascimento de uma
filha, seu semblante se torna sombrio e ele se torna profundamente agitado. Ele
tenta se ocultar do povo pela má nova que lhe foi anunciada. Deverá preservá-la
apesar da desgraça acontecida ou enterrá-la?" (16: 59-60).
O enterro das meninas vivas é censurado e proibido pelo Corão: "São
perdedores aqueles que matam seus filhos néscia e estupidamente na sua cega
ignorância, e se descartam do que Alá agraciou, forjando mentiras a respeito
de Alá. Já estão perdidos e jamais serão encaminhados" (6: 149).
Segundo Dr. Hassam (op. cit.), algumas passagens corânicas enaltecem a posição
da mulher na sociedade islâmica:
"A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e seja crente,
conceder-lhe-emos uma vida agradável e o recompensaremos com um galardão
superior ao que houver feito" (16: 97).
"Aqueles que difamam as mulheres castas, inocentes e crentes, serão
malditos neste mundo e no outro e sofrerão severo castigo" (24: 23).
"Ó crentes, não vos é permitido tomar as mulheres (de parentes) como
herança contra a vontade delas". (4: 20).
Os direitos das mulheres nem sempre são levados à risca pelos homens. No
Egito, muitos crimes hediondos são cometidos por mulheres que não aceitam maus
tratos e a presença de rivais
Há crimes violentos no Egito, como o do marido que viajou para outro país em
busca de melhor salário, a mulher arranjou outro parceiro e quando o marido
voltou foi degolado pelos amantes. Ou do caso do homem que levava prostitutas
para dentro de casa, se embebedava, fumava haxixe e espancava a mulher. A conseqüência
não podia ter sido pior: a mulher aproveitou o sono profundo do marido, jogou
gasolina em cima e tocou fogo. No Cairo, é famoso um pavilhão de detentas,
onde as mulheres são conhecidas como "assassinas de maridos".
Um caso escabroso, abordado pelos jornais durante semanas a fio, aconteceu
quando estávamos no Egito. Uma mulher cortou o marido em pedacinhos, que foram
guardados em sacos de plástico na geladeira. Aos poucos, a mulher ia jogando na
lixeira os pedaços do marido até o dia em que foi descoberto o crime.
O final dos tempos.
Para o islamismo, o apocalipse será antecipado pelo Anticristo, falso Messias,
que aparecerá entre o Iraque e a Síria. Cristo aparecerá para matar o
Anticristo. Interessante é observar que o Apocalipse da Bíblia também cita o
mesmo local como o cenário da última batalha que está por vir, a batalha de
Armagedon, perto de Nazaré,
Só
"Não tenhais em conta como mortos aqueles que foram imolados pela causa de
Alá. Em verdade, eles estão vivendo na presença de seu Senhor e estão
preparados" (3: 170).
Este é um dos principais apelos que os fundamentalistas islâmicos fazem a seus
fiéis, para receberem um "passaporte" direto aos céus, ao se
imolarem pela causa de Alá. Por isso não é de estranhar a auto-imolação dos
fedayin, que carregam explosivos no próprio corpo ou em viaturas e, como
kamikazes suicidas, se atiram sobre o inimigo gritando o nome de Alá. A
Al-Fatha (A Conquista), grupo armado da OLP de Yasser Arafat, durante muito
tempo treinou seus fedayin no Oriente Médio para promover atentados suicidas
contra os judeus. Como se sabe, a guerrilha dos fedayin (voluntários da morte)
foi a resposta egípcia aos ataques de Israel a Gaza, em 1955. Em Israel, muitos
muçulmanos, incluindo mulheres, se aproximam de guarnições ou patrulhas de
soldados e acionam os explosivos escondidos sob suas túnicas.
No Líbano, durante a guerra civil, os EUA foram obrigados a retirar seus
soldados do país depois que um carro-bomba - certamente com motorista suicida -
matou quase 2 centenas de americanos em um acampamento militar. Acredita-se que
um suicida muçulmano, dirigindo um furgão cheio de dinamite, também tenha
feito ruir o prédio da associação judaica
Convém lembrar que o martírio era também incentivado, antigamente, pela
Igreja Católica, por ocasião das Cruzadas para a libertação da Terra Santa,
nas mãos dos árabes, a exemplo do que afirmou o Papa Urbano II: "Agora
prometemos-lhe guerras que trazem consigo a recompensa do martírio glorioso,
guerras que garantem o direito à glória temporal e eterna". São Bernardo
também glorificava a matança de não-cristãos: "...sem recear ter pecado
ao matar o inimigo, nem temer sua própria morte, visto que nem o ato de morrer
nem o de causar a morte de outrem, quando for por Cristo, contém nada de
criminoso; ao contrário, merece uma recompensa gloriosa" (Cf. Templários:
Os Cavaleiros de Deus, de Edward Burman). Será por sua "valentia" que
São Bernardo se transformou em nome de raça de cachorro?
O verso número 36 do capítulo 13 Al-Ra'd (O Trovão) diz claramente que as
descrições no Corão sobre o paraíso são simbólicas: "O paraíso
prometido para os retos é como se rios corressem por ele, com frutas intermináveis
e também com sombra". No céu, os eleitos muçulmanos encontrarão sempre
sombra, água potável, leite, vinho e mel, e terão a companhia de belas
mulheres virgens, de grandes olhos brilhantes (37: 49-50). O paraíso terá,
ainda, fontes perfumadas com cânfora e gengibre e conterá rios e jardins com
frutas diversas, como tâmaras, bananas, uvas e romãs. Os eleitos vestirão
trajes de seda fina, enfeitar-se-ão com braceletes de ouro e utilizarão taças
de ouro e prata.
Os culpados serão lançados no inferno, que tem 7 portões: os infiéis passarão
por seis portões e os muçulmanos pecadores pelo sétimo. Dezenove anjos
guardam o fogo do inferno e a comida dos pecadores será sempre muito quente ou
muito gelada.
Já que escrevi sobre o fogo eterno, convém citar uma anedota sobre um inferno
bem particular: o inferno militar. Um milico, ao ser levado por um diabo para o
inferno, descobriu que havia um inferno para cada grupo distinto de pecadores:
políticos corruptos, comerciantes ladrões, traficantes de drogas e armas,
assassinos, blasfemadores, tipos diversos de pecadores, e um inferno só para
militares. Em todas as bocas do inferno havia guardas tomando conta dos
condenados, para que não fugissem. O militar só estranhou que não havia
nenhum soldado tomando conta do "portão das armas" do inferno
militar. O diabo então explicou: "Não precisa, eles se puxam uns aos
outros para dentro do inferno quando alguém tenta fugir".
Alguns capítulos corânicos.
Fatihah
O primeiro capítulo do Corão, Fatihah (que significa "Abertura"), é
também chamado de "Sumário do Corão". Em apenas 7 versos concisos
esse capítulo resume toda a doutrina islâmica, que começa dizendo "Em
nome de Alá, o Misericordioso e Compassivo". Segundo a Fatihah, Alá é o
Mestre do Dia do Julgamento (Juízo Final), a quem somente se deve adorar e a
quem o fiel muçulmano pede que mostre o caminho reto a ser seguido. Nas
aberturas de cerimônias civis ou religiosas, na abertura e no encerramento das
transmissões de TV, ou na formalização do noivado, a Fatihah é sempre
recitada.
Maryam - Mãe de Jesus.
O capítulo 19 do Corão chama-se Maryam (Maria), que em árabe quer dizer
"devota". A Virgem Maria dos cristãos, mãe de nosso Salvador, tem
destaque especial no livro sagrado dos muçulmanos. Nenhum nome de mulher é
citado no Corão, nem a mãe de Maomé, nem sua filha Fátima. Maria, porém, é
citada 34 vezes. Isto demonstra a veneração e a exaltação que o islamismo
tem por ela.
No Corão, a concepção de Jesus ocorreu de modo muito parecido com o narrado
na Bíblia, na passagem
Não é feita, no Corão, nenhuma citação de José, esposo de Maria. Quando
Imran - o pai de Maryam - morre, Zacarias passa a tutelá-la.
Segundo o Corão: "Jesus ensinou: Eu sou um servo de Alá, Ele deu-me o
Livro (Bíblia) e me fez profeta" (19:31).
O Corão não admite o conceito de Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo:
"Não está de acordo com sua Majestade Alá que Ele tenha junto a si mesmo
um filho" (19:35).
Jesus é citado em outros capítulos do Corão, além do 19º. Segundo o Corão,
Jesus não morreu na cruz, porém de morte natural e os judeus e cristãos
continuarão a acreditar em sua morte (5:115). Ainda de acordo com o Corão,
Jesus era um profundo conhecedor da Torá, os 5 primeiros livros do An-tigo
Testamento, que conhecemos por Pentateuco (5:111).
Bani Israel.
Bani Israel significa "Filhos de Israel" e compreende o 17º capítulo
do Corão. Nesse capítulo, destaca-se o Livro dado por Deus a Moisés, a Torá.
Há várias exortações, como: "Não se aproxime sequer do adúltero;
verdadeiramente, ele é uma coisa ruim e um mau caminho. Não destrua a vida que
Alá tem declarado sagrada, salvo por justa causa. Não se aproxime da
propriedade do órfão durante sua menor idade, exceto com o melhor propósito"
(17:32-37).
Nessa passagem, podemos notar como é altamente perigoso a falta de definição
do que seria uma "causa justa" para matar um semelhante nosso, ou o
que poderia ser esse "melhor propósito" para discernir sobre o
destino dos bens de um órfão. Afirmações vagas desse tipo talvez expliquem
as ações de grupos fundamentalistas muçulmanos em tirar vidas humanas em
atentados que ocorrem todo dia. No caso, pela "justa causa" de Alá.
Vale lembrar, também, que Just Cause (Causa Justa) foi o codinome da operação
americana que promoveu a invasão no Panamá, em 1989...
Nessa surata, deve-se destacar, ainda, o modo como o fiel muçulmano deve rezar:
"Observai a oração em diferentes tempos, entre o pôr do sol e a profunda
escuridão da noite, e recitai o Corão prostrados. A recitação do Corão
prostrado é especialmente agradável a Alá" (17:79). A atitude que o fiel
muçulmano tem durante a oração - a prostração - é um costume antigo, também
utilizado por nosso Mestre: "E, adiantando-se um pouco, (Jesus) prostrou-se
com o rosto em terra, orando ..." (Mateus, 26:39).
Além de Maryam e Bani Israel, outros nomes bíblicos dão o título a capítulos
ou suratas do Corão. O capítulo 12 refere-se a Yusuf (José). Não é o esposo
de Maria, porém o filho de Jacó, vendido por seus irmãos a mercadores do
Egito. O capítulo número 14 é o de Ibrahim (Abraão), pai dos árabes e dos
judeus. O capítulo 10 é o de Yunus (Jonas). Estes últimos são todos grandes
profetas do islamismo, incluindo ainda Da'ud (Davi), Dhul-Kifl (Ezequiel), Idris
(Enoch), além de Adão, Noé, Elias, Jesus e outros.
A beleza das mesquitas
Nas mesquitas não há estátuas. O islamismo proíbe a mimese, a imitação da
figura humana, que na cultura greco-romana atingiu seu mais alto grau de elaboração,
esculpindo estátuas perfeitas, e que na cultura cristã viria a se tornar uma
obra de intenso fulgor, principalmente com as pinturas e esculturas do
Renascimento. Por isso, as mesquitas são enfeitadas internamente apenas com
desenhos de letras árabes, repetindo centenas ou milhares de vezes o nome de
Allah, com muitos arabescos e detalhes
O chão das mesquitas é forrado com dezenas e até centenas de tapetes,
dependendo do tamanho dos templos. Quando recolhidos, para limpeza ou obra na
mesquita, os tapetes chegam a formar montanhas nas naves e nos vastos
corredores, como vi-mos na Mesquita de Ibn Tulun, no Cairo. No Egito, os tapetes
das mesquitas são feitos de lã, que pode ser local ou importada da Austrália.
A planta central e a cúpula das mesquitas tiveram origem bizantina, com
elementos armênios. A ornamentação riquíssima tem fonte copta (cristã do
Egito). As mesquitas mais monumentais são as do Cairo, de Kairum (Tunísia), de
Omar (Jerusalém) e as mouriscas da Espanha: nas cidades de Córdoba, Toledo e
Alhambra. Porém, o Taj Mahal, na Índia, mausoléu que o imperador Shah Jahan
construiu para sua mulher Mamtaz Mahal, é a obra suprema da arquitetura islâmica.
Algumas prescrições corânicas.
Em 1994, fez sucesso nas manchetes de todo o mundo o rapaz americano condenado a
sofrer chibatadas, em Singapura, devido à sua ação nefasta em pichar veículos
naquele país. O mais interessante é que uma pesquisa nos EUA mostrou que os
americanos aprovaram, em sua maioria, aquela punição heterodoxa. No Brasil bem
que poderíamos utilizar esse tipo de castigo para punir os pichadores de
monumentos e igrejas.
No Corão, vários tipos de castigo prevêem o uso da chibata. "Flagele a
adúltera e o adúltero, a cada um deles, com 100 vergastadas..." (24: 3).
A pena para os caluniadores de uma mulher casta será de 80 vergastadas, caso não
tragam 4 testemunhas para provar a acusação (24: 5).
Os ladrões devem sofrer rigoroso castigo: "Corte fora as mãos do homem
que rouba e da mulher que rouba, em retribuição de sua ofensa, como uma
exemplar punição de Alá" (5: 39).
Um homem casado pode deixar de ter relação sexual com sua mulher por um período
de, no máximo, 4 meses, após o qual deverá se reconciliar com sua esposa ou
divorciar-se (2: 227-228). A relação sexual é proibida durante a menstruação
da mulher, durante o período de retiro na mesquita, durante o jejum, no mês
sagrado do ramadã (durante o dia) e durante o período da peregrinação a Meca
(2: 188-189).
"O homem é impetuoso por natureza" (21: 38). Talvez, por isso, pode
ter até 4 mulheres, desde que as trate eqüanimemente: "Você deve
aprender de que não será correto ter relações com órfãs, se você casar
com mais de uma delas, então case-se com outra mulher que seja agradável a você,
2 ou 3, ou 4; porém, se você sentir que não irá tratar cada uma delas com
justiça, então case-se somente com uma, ou com aquela sobre a qual você tenha
mais autoridade. Este é o melhor modo de você evitar a injustiça" (4:
4-5).
O Corão considera pecado dar apelido a alguém (49: 12). O político Leonel
Brizola não seria um bom muçulmano, pelo seu esporte preferido de dar apelidos
a seus desafetos, especialmente durante as campanhas para eleições
presidenciais: "sapo barbudo", "filhote da ditadura" e
outros.
Para testemunhas, 2 mulheres valem 1 homem: "Procure duas testemunhas
dentre seus homens; e se 2 homens não estiverem disponíveis, então um homem e
duas mulheres, dentre os que você desejar como testemunhas, de tal forma que se
uma das duas mulheres estiver em perigo de esquecimento, a outra refrescará sua
memória" (2: 283).
No Corão não existe a noção de "pecado original", como prega a
religião cristã. Segundo o Corão, a natureza humana, originalmente, é pura:
"... e siga a natureza determinada por Alá, a natureza conforme Ele tem
criado a humanidade. Não se deve alterar a criação de Alá. Esta é uma fé
eterna. Porém, muitos não sabem" (30: 31).
"Em caso de divórcio, as mães devem amamentar suas crianças por 2 anos
inteiros, no local onde é desejado completar a amamentação, e o pai da criança
deve ser responsável pelo sustento da mãe durante aquele período, de acordo
com o costume" (2: 234). É óbvio que essa obrigação não é somente
para as divorciadas, mas um lema para toda mulher muçulmana que tenha filhos.
"Povo do Livro, por que você rejeita os sinais de Alá, tendo sido
testemunha disto? Povo do Livro, por que você confunde verdade com falsidade e
afasta a verdade deliberadamente?" (3: 71-72). O "Povo do Livro"
são os judeus e os cristãos. Comumente, o Corão identifica o livro dos judeus
como sendo a Torá e o livro dos cristãos como sendo os Evangelhos, o que não
é de todo correto, pois não englobam todo o Antigo e Novo Testamento. As
exortações, feitas com veemência, sempre têm como alvo o Povo do Livro. Por
que não estão incluídos também, por exemplo, os budistas e os hinduístas?
A zakat é uma espécie de dízimo que os mais bem aquinhoados doam aos pobres,
e é prescrito no Corão: "Observai as orações e pagai a zakat, pois,
pelo tudo de bom que derdes, antes de guardar para vós, encontrareis junto de
Alá" (2: 111). A exemplo da Igreja Católica, que prega a doação do dízimo
mas que não consegue incrementar o preceito, da mesma forma os vários países
muçulmanos aplicam a zakat a seus fiéis, alguns com mais sucesso que outros.
"Abraão não foi nem judeu, nem cristão, ele foi sempre temente a Alá e
obediente a Ele" (3: 68). Implicitamente, essa frase afirma que, para o Corão,
Abraão é um muçulmano, já que o termo "muçulmano" (muslim em árabe)
significa o "ato de se entregar", no caso, a Alá. Na verdade, as três
religiões monoteístas - a judia, a cristã e a islâmica - originaram-se a
partir de Abraão.
Quanto à obrigação da mulher casada vestir o purdah (véu islâmico), o Corão
prescreve que somente os familiares mais chegados podem ver o seu cabelo, como o
marido, o pai, o sogro, os filhos, as senhoras, os empregados que não têm
desejo de sexo e as crianças que não têm conhecimento do relacionamento entre
sexos (24: 31-32). A obrigação das mulheres muçulmanas solteiras vestirem o
purdah foi uma imposição dos religiosos islâmicos, não do Corão.
A cobrança de riba (juro) para empréstimo de dinheiro é proibida.
"Aqueles que se devotam à usura ficam como aquele que satã tem ferido de
insanidade. Isto se dá porque eles ficam dizendo: 'O comércio de comprar e
vender é também como emprestar dinheiro a juros'; pois Alá tornou legal o ato
de vender e comprar e tornou ilegal a cobrança de juros" (2: 276). Muitos
muçulmanos encontraram uma forma de fugir desta regra e chamam os juros de
"aluguel".
Félix Maier
ttacitus@hotmail.com
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Obs.: O autor viveu dois anos no Cairo (1990-92) e escreveu “Egito – uma
viagem ao berço de nossa civilização”, editado em 1995 pela Thesaurus, Brasília.
O livro encontra-se na Livraria da UnB e na Livraria da Rodoviária.